Cena C
Tinham passado trinta e cinco anos. Cornélia já perdera no tempo a capacidade de descortinar com nitidez os traços fisionómicos de todos aqueles que, ano após ano, desciam a Avenida da Liberdade integrados naquela fiel multidão que jamais deixaria de celebrar a Revolução de Abril.
Todos os anos se apresentava em Lisboa, vinda da Messejana, e ainda mal raiara o dia já ela estava no Largo da Vila para marcar lugar no autocarro que a Câmara cedia para o transporte dos manifestantes. Trazia o farnel e, como sempre, era partilhado pelos outros parceiros de viagem que, entre todos, montavam um verdadeiro intercâmbio gastronómico que resultava numa excelente refeição alentejana.
A Micas, o Gregório, o Laureano, a Umbelina, a Francisca e o Joaquim, bem como a gente do Monte do Sobreiro vinham desde 1975. Pelo caminho, era um soar de risada e de toadas alentejanas fazendo com que a viagem se encurtasse e a distância se reduzisse apenas a uma simbólica meia légua.
O Humberto já se fora e a graça das anedotas perdera o seu melhor representante. Os cabelos do Gregório tinham encanecido, mas agora era o mais vivaço e atrevido nas graçolas, fazendo esquecer a vaga deixada pelo outro grande companheiro.
- Então, minha gente,
nã sabem que o nosso
primêro foi chamado de
playboy? - lançou Gregório.
- Mas que é isso? - questionou o Laureano – Será que o
home já nem é português!
-
Nã,
nã! O que dizem é que o
home brinca que nem um rapaz,
Play boy!- esclareceu Gregório.
- Nada disso. A questão é que o
home gosta de vestir
bêm. Ele até
vêm nas revistas com a namorada. Todos muito
bêm arranjados e com roupas muito caras. Eu vi no
cabelêrêro. – acrescentou Cornélia.
- Ah! Mas a namorada tem cá uma
pênca que lhe estraga a cara e a roupa!
Valha-a Deus. Muito mal
empregadinho. – continuou Umbelina.
- Pois é, mas a gente nunca mais tem sossego. Só miséria e nem com trabalho nos safamos. Que nos interessa ter um
playboy se não nos ajuda, o que muda é para pior e
nã serve para nós porque estamos cada vez mais desgovernados. – vociferou Joaquim.
- O nosso camarada chefe é que chega para eles. As verdades saem sempre
dirêtinhas daquela boca. E
nêm quer saber se é o
primêro ou o segundo. Ele quer é tratar de nós que
sêmos gente e povo. - retorquiu Laureano.
- Mas olha que eles têm-lhe medo. Já
nêm falam em
cassette como no tempo do falecido Cunhal. – declarou Joaquim.
- Tem graça camarada. Não é que
nã me
lembra de alguêm dar com o cacete no falecido. Ele era tão destemido e valente. – contrapôs Laureano.
-
Lá isso que era, era! - concluiu Cornélia.
MJVS
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