terça-feira, 23 de junho de 2009

DAS ORIGENS DA IMPRENSA NO ALGARVE

O Portugal de oitocentos, à imagem do que sucedeu um pouco por toda a Europa, teve um surto cultural bastante intenso, como não se havia assistido até então. Para tanto, terá contribuído a abertura do país ao exterior na sequência da Revolução Liberal de 1820, uma vez que os primeiros governos que se lhe seguiram, entre outras iniciativas aboliram a censura aos livros e periódicos, de que resultou a liberdade de imprensa com evidentes repercussões positivas. Não obstante, os interlúdios governativos reaccionários de 1823-1826 e 1828-1833, que trouxeram de novo a censura. Poderemos mesmo considerar que a liberdade de imprensa conheceu um nítido recuo entre 1840 e 1851 (governos de Costa Cabral). Todavia, a partir de 1860, os jornais multiplicaram-se por todo o país, nomeadamente nas duas últimas décadas da centúria. O movimento periodístico entre 1894 e 1900 é de tal forma intenso que, incluindo as publicações em língua portuguesa no estrangeiro e descontando as que então deixaram de existir ou cuja edição foi interrompida, temos para esse período um total de 583 publicações. O Algarve surge no contexto das restantes regiões do país em pé de igualdade no fenómeno do surgimento de títulos de periódicos para o período em apreço. De então e até ao primeiro quartel do século XX, a quase totalidade de publicações nesta região, foram de iniciativa política, propriedade de partidos políticos, quer antes quer depois da Implantação da República, seguindo-se os jornais de anúncios, os satíricos ou anedóticos e finalmente em muito pequeno número, os periódicos ligados à Igreja, ao espiritismo ou simplesmente de carácter científico e literário. Por outro lado, verifica-se que a maior parte das publicações surgiram naqueles que ainda hoje são os principais concelhos algarvios, ou seja: Faro, Loulé, Lagos, Portimão, Olhão, Tavira, Vila Real de Stº António, Lagoa e Silves. O periódico mais antigo de que temos conhecimento intitulou-se: O Petiz. Foi um semanário e viu a luz do dia em Vila Real de Stº António em 29 de Outubro de 1823, num período marcado pela censura à imprensa, sendo seu director e proprietário, Socorro Júnior. O segundo título mais antigo chamava-se de Chronica do Algarve. Era um bissemanário, órgão oficial do Partido Constitucionalista, tendo surgido em 15 de Junho de 1833, em plena guerra civil entre liberais e miguelistas, que pôs o país a ferro e fogo entre 1832 e 1834, terminando com o triunfo dos liberais firmado com o tratado de Évoramonte. Este jornal foi dirigido por Manuel António Ferreira Portugal. Seguiu-se o Jornal Cómico do Algarve, datado de 1862 com redacção em Faro e O Reino do Algarve, natural de Tavira, que teve vida efémera, ou seja: entre Julho e Agosto de 1864, ano do primeiro recenseamento sistemático de toda a população do reino, que contou então um total de 3829618 habitantes. Era um bissemanário que saía aos domingos e 5ªs. feiras, e que tinha como director e proprietário, Luís Damásio Ferreira Carneiro. Entre 1868 e 1869 viveu em Lagos um jornal republicano intitulado O Echo do Algarve e que foi dirigido por João Teixeira Simões. Procurando dar expressão e voz, à principal actividade económica da Região no período em questão, entre Janeiro e Fevereiro de 1875 saíram dois números do Jornal dos Agricultores do Algarve, cujo director era o Eng.º agrónomo Alexandre de Sousa Figueiredo. Não nos esqueçamos que o Algarve - tal como as outras regiões do país - era uma região essencialmente agrícola, e só não é de relevar, não terem sido publicados mais jornais vocacionados nesta área geográfica, porque o grosso do analfabetismo em Portugal, encontrava-se precisamente nas zonas rurais. Teve esta publicação a sua redacção em Faro. O Comércio do Sul foi outro dos jornais surgidos em Faro neste período. Era uma publicação que se dizia defensora da política reformista, defensora do Partido Reformista que em Setembro desse ano se haveria de fundir com o Partido Histórico, dando origem ao Partido Progressista. Foi este periódico dirigido por Francisco Augusto da Silveira Almeida Vilhena e viveu entre Abril de 1876 e Março de 1878. Em 1876 surgiu também em Faro um «semanário regenerador»: O Distrito de Faro. Fundado por António Bernardo da Cruz, teve existência até 1913. O primeiro jornal de anúncios da região de que temos notícia apareceu em Faro em 28 de Janeiro de 1880 e chamava-se justamente: Jornal de Anúncios. Era uma publicação de distribuição gratuita, propriedade do tipógrafo António Manuel Henriques. É curioso verificar que ainda hoje existem variadas publicações do género no Algarve, igualmente de distribuição gratuita, sobretudo, editadas por estrangeiros, promovendo quer as várias actividades económicas da região, quer de outros países. Só a título de curiosidade, não podemos deixar de referir a existência de um jornal, um semanário, que saiu à estampa igualmente em Faro, intitulado: O Moralista. O primeiro número surgiu em 29 de Junho de 1918. Encontrava-se então no poder o Major Sidónio Pais, idolatrado pela quase totalidade do povo português e que tentava pôr ordem na casa Lusitana. Deste jornal saíra 9 números, até 18 de Fevereiro de 1919, durando pouco tempo mais após o assassinato de Sidónio Pais. Foi seu director, Cruz Azevedo. O primeiro jornal republicano a sair na região, surgiu em Lagos e teve por título: O Echo do Algarve. Viveu entre 1868 e 1869, ano este em que foram abolidas em Portugal todas as formas de escravatura, tendo sido seu director, João Teixeira Simões. Do concelho de Loulé, gostaria de deixar aqui referidos dois títulos singulares, um deles nascido mesmo em Loulé, em 1912, com o curioso título de: O Aldeão, um tri-semanário dirigido por um senhor chamado João de Deus Ferrador. O outro periódico, intitulado: A Folha de Alte, um quinzenário dessa aldeia branca e bela, teve uma vida relativamente longa, em comparação com periódicos das cidades, ou seja: viveu entre 1922 e 1934. É justo portanto, que se refira o nome do seu director. Assinava-se ele por J.F. da Graça Mira. Os títulos de periódicos que saíram nesta região para os anos em apreço, contam-se por muitas dezenas, casos houve do nascimento de títulos em simultâneo em terras diferentes, é o caso da Alma Algarvia, um semanário denominado republicano e independente, que apareceu ao mesmo tempo em Silves e Portimão em 12 de Março de 1911, composto e impresso na Minerva Comercial em Évora. Dirigido em Silves por Henrique Martins e em Portimão por Julião Quintinha. Acrescente-se a este propósito que, qualquer um destes jornalistas era membro importante de Lojas maçónicas locais e a tipografia Minerva em Évora, pertencia a membros da maçonaria dessa cidade. Quanto a Julião Quintinha, não quero deixar de fazer aqui uma breve referência a essa figura admirável das letras, da política e como cidadão, tão injustamente esquecida. Julião Quintinha era natural de Silves onde nasceu em 1885. Foi operário, funcionário público, jornalista e escritor, desempenhou as funções de redactor e chefe de redacção de vários jornais de Lisboa, tendo além disso, colaborado com muitos outros. Deixou uma extensa obra em conto, novela, reportagem, ensaio e temas ultramarinos. Escrevia brilhantemente. Como republicano que era, exerceu os cargos de administrador dos concelhos de Portimão e Silves e teve acção importante na luta reivindicativa do operariado. Foi iniciado maçon em 1912 no triângulo nº198, de Portimão, com o nome simbólico de Danton. Em suma: torna-se curioso constatar, que durante várias décadas, em tempos de muitos menos população daquela que existe hoje na região, existiram muitos mais títulos de periódicos do que existem actualmente. É uma análise que merece ser aprofundada, tanto mais interessante, se pensarmos que os índices de analfabetismo do período abordado eram incomparavelmente superiores aos de hoje. Só uma minoria da população sabia ler e escrever. Numa análise simplista poderíamos dizer que a realidade actual tem por base em primeiro lugar, a competição informal dos meios audiovisuais, nomeadamente a televisão e a rádio, para além dos periódicos de âmbito nacional, com a imprensa local e regional. Em segundo lugar, muito embora a quase totalidade da população adulta seja alfabetizada, a verdade é que a maioria é constituída por analfabetos funcionais. A título de exemplo: todos conhecemos licenciados que não lêem um livro e dos jornais só os títulos dos expostos nas montras e nos quiosques. Por outro lado ainda, existe muita gente que não entende o que lê, dado o seu reduzido léxico gramatical, nem têm a coragem de o dizer a ninguém, estilo: «nem às paredes confesso». Não será, pois, difícil concluirmos por uma análise histórica mais aprofundada que as populações alfabetizadas da região (e em todo o país) ao longo do século XIX e primeiro quartel do século XX, liam e bastante, sem dúvida. Já o mesmo não se pode dizer nos tempos que correm, tempos de iliteracia. ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA . Branco, Capitão Vieira, Subsídios para a História da Imprensa Algarvia – de 1833 aos nossos dias, Tip. Caetano, Faro, 1938 . Mesquita, José Carlos Vilhena, História da Imprensa do Algarve, vols. I e II, C.C.R.A, Faro, 1988 Pedro Manuel Pereira

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