domingo, 17 de julho de 2016

O PERIGO DA DITADURA «DEMOCRÁTICA» TURCA PARA A PAZ MUNDIAL

                                                                                                                        Por Pedro Manuel Pereira

A visão simplista de que «a democracia venceu», propalada por criaturas auto-intituladas especialistas, dada a derrota do golpe militar na Turquia, mostra-nos gentalha com acesso ao palco da comunicação social a botar bacoradas pela boca fora, o que é extremamente preocupante dada a desinformação que expelem para os auditórios, fazendo crer aos espectadores e aos ouvintes que aquilo que proferem é verdade.
Eles são os papagaios televisivos, mais os escribas mercenários…
Da carta que os militares insurretos pediram que fosse divulgada pela televisão estatal, emergem algumas pistas sobre as reais motivações que conduziram os militares a uma (talvez…) derradeira tentativa para desapear do poder totalitário o ditador Erdogan, que a partir de agora, reprimidos os militares e detidos centenas de magistrados, vai transformar a Turquia numa teocracia islâmica1.
O ditador foi eleito presidente em 2015, em eleições que a comunidade internacional e a oposição classificaram de fraudulentas. 
Ressabiado com os resultados do escrutínio no qual perdeu a maioria no parlamento turco, Erdogan à revelia  da lei e dos mais elementares princípios democráticos, mandou alterar a constituição de molde a aumentar os seus poderes, reduzindo o papel do poder legislativo a pouco mais do que figurativo2.
O ditador Erdogan (que foi primeiro-ministro entre 2003-2014 e actualmente é presidente) tem vindo de forma progressiva e sistemática a transformar o que era até há pouco uma democracia secular numa república islâmica.
Só para se ter uma pálida ideia da sua acção, nos anos em foi 1º ministro foram construídas  no país 17000 mesquitas e mercê de uma reforma educacional ordenada por si foi incluído o ensino religioso islâmico nos planos curriculares do ensino.
O facto da Rússia ter entrado no conflito sírio, deu origem a uma forte tensão com a Turquia, sobretudo quando os russos denunciaram a descoberta das conexões entre o governo de Erdogan e o «Estado Islâmico» e, a participação da família do ditador capitaneada pelo seu filho no negócio da compra de petróleo ao EI, crude esse saqueado pela referida matilha islâmica nos territórios dos países por ela ocupados.
O auge da tensão sucedeu quando um caça russo dos que bombardeavam as colunas de camiões auto-tanques de petróleo do EI foi abatido pelas forças turcas.
Quanto à tentativa frustrada de golpe dos militares revoltosos, só pode ter sido executada com o conhecimento do próprio Erdogan, quer por ordem directa ou por omissão, sabendo-se que os mesmos não conseguiriam levar até ao fim a sua missão e vir a ser facilmente derrotados de forma a propiciar uma mais ampla margem de manobra ao ditador para poder incrementar definitivamente os mecanismos de concentração de poder nas suas garras.
Dada a situação criada, a democracia turca levou o que aparente ter sido uma machadada final. A partir de agora e caso não venha a suceder novo golpe militar (que se aparenta improvável) que ponha fim ao regime do ditador, a Europa pode contar com um pujante estado islâmico à sua porta, sendo que a Turquia é a segunda maior potência militar da NATO no continente, o que não deve deixar tranquilos os restantes membros desta aliança militar, pelo menos os que têm consciência...
O movimento por detrás desse acto de terror e provocação fascista a que o mundo assistiu por estes dias até à náusea nas têvês, foi cozinhado por Erdogan e pelo seu agrupamento político, o AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento), partido islâmico, num esforço para prorrogar o seu mandato. Este governo belicista apoiado pelo MIT (serviço de inteligência militar turco), não obstante ter tido sob vigilância os responsáveis pelos atentados em Diyarbakir, em 5 de Junho, e Suruç, em 20 de Julho, optou por nada fazer, uma vez que o objectivo dos referidos massacres foi o de inculcar uma política de medo e até de terror no seio do povo turco, com o fim do governo do ditador controlar ferreamente os seus cidadãos.  
Entretanto, Erdogan continua a insistir na sua política de intervenção no conflito da Síria apoiando o Estado Islâmico e o Al-Nusra, encerrando «à martelada» o processo de negociações da questão curda, incrementando a escalada do conflito bélico através do estabelecimento de toques de recolher e no aumento de áreas de excepção e intervenções militares em cidades curdas, conduzindo a Turquia para um clima de guerra crescente.
Os ataques produzidos nestas regiões são levados a cabo não só pelas forças militares às ordens do ditador, mas igualmente por grupos de terroristas armados pelo MIT (serviço de inteligência militar turco).
O perigo do breve alastramanto do conflito bélico à escala regional e até mundial, é quase uma realidade, uma ameaça a considerar à paz mundial que já não é muita, diga-se em abono da verdade.
Notas
1.De acordo com o ditador, numa entrevista que deu em 30 de maio deste ano, disse que nenhuma família muçulmana pode aceitar o planeamento familiar. Erdogan sugeriu que as mulheres servem apenas para produzir crianças, e quatro será o número ideal
http://www.telegraph.co.uk/news/2016/05/30/family-planning-not-for-muslims-says-turkeys-president-erdogan/?cid=sf27262899+sf27262899
2.«O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, utilizou o sistema usado pelo ditador nazi Adolf Hitler na Alemanha como exemplo de governo, segundo noticiou hoje o Today's Zaman. "Há exemplos no mundo. Também há exemplos do passado. Se olharmos para a Alemanha de Hitler podemos ver", respondeu o chefe do Estado turco numa conferência de imprensa que deu após o seu regresso de uma viagem que realizou à Arábia Saudita. Erdogan, que quer ver o seu cargo reforçado com poderes executivos».




1 comentário:

  1. Meu querido amigo Pedro:
    Acho a tua reflexão interessante e sem dúvida própria de um cidadão preocupado e amante das liberdades e da democracia.
    Mas gostava que me respondesses se no fundo a Europa e a América pela sua (não) reação condenatória (mais ou menos o deixa andar português), não terá chegado à conclusão que é melhor (cínica e hipocritamente) deixar um ditador "democrático" tomar conta do DAESH, dos refugiados, do equilíbrio no Oriente, da economia petrolífera, etc., mesmo que isso represente o regresso dos imas ao poder político, o cercear de algumas liberdades (a visão securitária do mundo já não o faz nos países democráticos ?), a opção pela religião islâmica, etc. ? Abraço. Pinto Santos

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