segunda-feira, 14 de julho de 2014

COSA NOSTRA - A MÁFIA NAPOLITANA





Por Pedro Manuel Pereira


A origem desta sociedade remonta a 1812, quando o rei de Nápoles publicou um édito para eliminar as «forças populares» que tinham surgido no sul de Itália e em particular na Sicília.
Os latifundiários, que se comportavam como verdadeiros senhores feudais, como forma de resistirem ao referido édito contrataram indivíduos denominados «homens de honra», criando-se assim uma quase sociedade secreta que denominaram de Máfia. Este termo foi retirado do adjetivo siciliano mafiusu, que tem as suas raízes no árabe mahyas, que numa interpretação livre significa, bravo.
Para alguns mafiosos, o verdadeiro nome da Máfia é Cosa Nostra, cuja tradução literal é, coisa nossa ou ainda, assunto nosso ou nosso assunto.
O termo, Cosa Nostra, foi utilizado pela primeira vez no início dos anos de 1960, nos EUA por Leonardo Marcelo Camargo, um «arrependido», membro dessa organização, que se tornou testemunha do Estado (nos EUA) durante as audiências da Comissão McClellan. Designação logo adotada pelo FBI e rapidamente disseminada pela comunicação social
Uma segunda etapa tem início com o fim do Reino de Nápoles, quando esta e outras sociedades secretas começaram a lutar contra as dinastias espanholas e francesas, que sucederam ao trono de Nápoles.
Desta forma, a Máfia passou de sociedade secreta a movimento de resistência aos invasores. Por tal facto, granjeou o apoio do povo por esta ser uma organização patriótica. Em pouco tempo passou a contar com a colaboração de 120 mil camponeses, que transformaram a luta contra o invasor pela sua sobrevivência, numa questão de defesa da honra.
Neste sentido, a base da lealdade entre os seus membros assentou desde logo em laços de consanguinidade, criando-se a cultura da obediência a regras próprias, como a não cooperação com as autoridades e a retaliação a qualquer ofensa a um membro da família.
Esta é historicamente conhecida com a fase de uma «máfia agrária», da luta contra os latifundiários, que terminou com a derrota dos camponeses e a emigração em massa, sobretudo para o continente americano (Norte e Sul) e Austrália. Nesta fase a agricultura cedeu espaço ao setor produtivo.
No final do século XIX, alvores do século XX, a miséria abateu-se fortemente sobre o sul de Itália, período em que os mafiosos além de emigrarem viajavam pela península itálica à procura de melhores condições de vida. Porém, confrontam-se muitas vezes com a rejeição dos povos das regiões por onde passam, pelo que se veem na contingência de se organizarem em sociedade de autodefesa. Daí à criminalização foi um passo.
Na verdade, desde 1890, a Máfia torna-se uma sociedade organizada e dotada de poder económico e político, desenvolvendo ações no seu território, em outros países europeus, no continente americano e na Austrália.
Com a associação das famiglias da Cosa Nostra italiana residentes nos Estados Unidos da América, sobretudo na costa Leste, surge a terceira fase desta corporação. Famílias compostas, por núcleos de parentes, incluindo os americanos, são complementadas por pessoas referidas como amigas, indicadas pelos familiares.
Esta fase de desenvolvimento urbano decorre até ao final da década de 1960, quando os membros mafiosos se inserem em quase todos os sectores de atividade económica, em especial no da construção civil e obras públicas. 
Os alvores da década de 1970 assistem ao início da quarte e última fase, quando a «máfia-empreendedora» se transforma em «máfia-financeira». Num primeiro momento a Cosa Nostra tinha como primeiras, entre as suas atividades, o negócio do contrabando de cigarros e a corrupção nas obras públicas. Em seguida o seu principal negócio passa a ser o do tráfico de drogas.
Entrementes, no decorrer dos anos entre 1940 e 1990, passaram a controlar os processos eleitorais na Sicília, o que lhes vai permitir adquirir enorme ascendente sobre o poder central, em Roma. Nessa fase chegam a possuir 180 clãs, número que foi aferido juntamente com a estrutura da organização, pelo Juiz Geovanni Falcone e o Procurador Paolo Borsellino, que viriam ambos a ser assassinados por membros da organização. Quanto a esta relataram da sua estrutura da seguinte forma:
 - A base da organização é a família, que controla um bairro ou uma cidade, constituída por homens de honra, «soldados», agrupados em número de dez. Cada grupo é coordenado por um capodecina;
- Os membros da famiglia elegem um capo-famiglia, que é assistido por um Consigliere. Este é, normalmente, uma pessoa de notável inteligência, sagaz e é auxiliado por um vicecapi;
- Três ou mais famiglias unidas, cujas áreas de atuação sejam contíguas, constitui um mandamenti. Por sua vez nomeiam um capomandamenti, que invariavelmente é um capo-famiglia, podendo, no entanto ser uma pessoa diferente;
- Por seu turno, os capomandamenti constituem uma estrutura colegial, denominada Copola, a qual possui a função de garantir o cumprimento das regras da Máfia e de «compor as vertentes da famiglia», presidida por um dos capomandamenti, chamado Secretario ou Capo;
- Existe também um colegiado superior, chamado interprovinciale, de que pouco se sabe sobre ele, mantendo um caráter secreto;
- A face mais notável da Cosa Nostra é a sua semelhança com um Estado, dado que exerce domínio territorial e «taxa» as suas atividades de «proteção» (como quem cobra impostos). Os que pagam à Máfia recebem a sua proteção, enquanto os que se recusam a pagar são alvos de retaliações que muitas vezes conduzem ao encerramento das suas atividades e/ou agressões físicas ou morte.
Para além disso, a sua interferência nos Estados onde estão presentes é muito marcante, através de subornos e da corrupção dos agentes das máquinas estatais. 

Rituais de Iniciação na Cosa Nostra
A Cosa Nostra «apossou-se» de juramentos e rituais maçónicos, como a cerimónia de iniciação, e adaptou-os em função do seu modus operandi específico da e da sua «filosofia».
Desta forma, o ritual de iniciação de um neófito nesta organização tem lugar quando um homem se torna membro da estrutura e depois soldado.
Assim, o candidato é conduzido à presença de pelo menos três homens de honra da famiglia, sendo que o mais velho deles o adverte que, «esta Casa tem como função proteger o fraco do abuso do poderoso». Em seguida fura um dedo do iniciando deixando pingar o seu sangue sobre uma imagem sagrada, geralmente uma madona em cera.
A imagem da santa em forma de vela acesa é colocada numa mão do neófito, que deve aguentar a dor da queimadura desta a derreter, passando a imagem de uma mão para a outra, até a imagem ser consumida por completo, ao mesmo tempo que promete manter a fé aos princípios da Cosa Nostra, jurando solenemente, «Que a minha carne queime com esta santa se eu faltar ao meu juramento».
Após este ano solene, o iniciado fica também obrigado à lei do silêncio, chamada omertà, que proíbe homens e mulheres desta sociedade de cooperarem sob que forma for, com a polícia ou com o governo, sob pena de morte.
Organização Hierárquica
Cada grupo é denominado Famiglia ou Cosca, que se organiza da seguinte forma:
. Capo –Está no topo da hierarquia. É também chamado de Don. Todas as decisões da famiglia passam por ele, devendo chegar-lhe uma percentagem dos lucros de todas as operações efetuadas pelos seus membros;
. Sottocapo – Surge a seguir ao Capo. É substituto temporário na ausência do chefe e intermediário entre este e os outros membros abaixo na hierarquia;
. Consigliere – Atua como conselheiro do Don, e é o único que pode dar uma segunda opinião ao chefe. Este lugar costuma ser ocupado por um indivíduo com muita experiência e capacidade para intermediar negociações e gerir conflitos;
. Caporegimes – Subordinados diretamente ao Subchefe, conhecidos como Capitães. Cada um deles comanda um regime ou equipe, que são compostos por soldatos e associados. Uma percentagem do lucro obtido por esta equipa é entregue diretamente ao chefe da famiglia em forma de tributo;
. Soldatos – É o posto base da hierarquia. São membros efetivos da organização, conhecidos como homens feitos. São os responsáveis pela condução das operações nas ruas e pela execução dos serviços de maior importância. A condição básica para se tornar membro efetivo da famiglia é possuir predominantemente ascendência italiana no caso da máfia italo-americana, e completa no caso da Cosa Nostra;
. Associados – São membros externos da organização. Muito embora não façam parte da famiglia, atuam como colaboradores dos membros efetivos. Em função da influência e poder, o associado pode atuar junto dos postos mais altos da hierarquia de uma famiglia.
Os Dez Princípios
Em novembro de 2007, as autoridades policias sicilianas declararam ter encontrado nos esconderijos do Capo Salvatore Lo Piccolo, uma lista com dez princípios da Cosa Nostra, isto é, um código de conduta, como se segue:
1.    Ninguém pode apresentar-se diretamente a um dos nossos amigos. Isso deve ser feito por um terceiro;
2. Nunca olhes para as mulheres dos teus amigos;
3. Nunca sejas visto com polícias;
4. Não vás a bares ou discotecas;
5. Estar sempre à disposição da Cosa Nostra é um dever, mesmo quando a tua mulher estiver prestes a dar à luz;
6. Os compromissos devem ser sempre honrados;
7. As mulheres devem ser tratadas com respeito;
8. Quando te for solicitada uma informação, a resposta deve ser a verdade;
9. Não podes apropriar-te de dinheiro pertencente a outras famílias ou outros mafiosos;
10. Pessoas que não podem fazer parte da Cosa Nostra: - Quem tenha um parente próximo na polícia; quem tenha um parente infiel na família; quem se comporte mal ou que não tenha valores morais.
A guerra no seio da Máfia nos inícios dos anos 1980 decorreu como um conflito em larga escala que resultou em assassinatos de vários políticos, chefes de polícia e magistrados.
O primeiro pentito (mafioso capturado que colaborou com o sistema judicial) foi Tommaso Buscetta, que denunciou em 1983, nomes e situações relacionadas com as ações da Cosa Nostra ao Juíz Giovanni Falcone que culminou num mega julgamento de centenas de mafiosos em 1986/1987. As condenações foram confirmadas pelo Supremo Tribunal de Justiça em janeiro de 1992. Como vingança, o Capo Totò Riina mandou executar o político Salvatore Lima em março desse ano. Este indivíduo vinha de há muito a ser investigado, dado ser o elo de ligação entre a Máfia e o governo italiano. Decididamente havia prestado um mau serviço à Cosa Nostra.
E, tal como referido mais acima neste artigo, o Juíz Falcone e o promotor Paolo Borsellino acabaram executados alguns meses depois. Este acontecimento resultou na indignação popular, no desmantelamento do governo italiano da época e resultou na prisão de Riina em janeiro de 1993.
Entretanto, uma série de mais pentitos começaram a surgir, sendo que vários deles viriam a pagar um alto preço pela sua cooperação com as autoridades, normalmente através do assassinato de parentes seus. Quando desertores, como no caso de Francesco Marino Mannoia, a mãe, a tia e a sua irmã foram assassinadas como vingança. 
Por seu turno, os Corleonesi retaliaram com uma campanha de terrorismo e bombas colocadas em zonas turísticas de Itália como a Via dei Georgofili, em Florença; Via Palestro, em Milão; a Piazza San Giovanni, em Laterano e a Via San Teodoro, em Roma, deixando atrás de si um cortejo de 10 mortos e 93 feridos, tendo, além disso, causado enormes prejuízos no património histórico, como a Galeria dos Uffizi, por exemplo.
Salvatore (Totò) Riina, o último grande chefe da Cosa Nostra, foi condenado pela morte de 150 pessoas, 40 delas pessoalmente. Por isso foi sentenciado a 13 penas de prisão perpétua.

A Cosa Nostra nos Tempos Presentes
Atualmente a Cosa Nostra passa por tempos difíceis, a que, provavelmente, não será alheia a 'Ndrangheta, sua congénere mafiosa, mais poderosa, sobre a qual as autoridades policiais internacionais se mostram (aparentemente) impotentes para a controlar.
Assim, a caça aos membros da Cosa Nostra encontra-se bastante ativa por parte das autoridades dos países onde está presente. Como exemplos, em 5 de junho passado, no distrito de Bagheria, um dos bastiões históricos da Máfia, a polícia italiana deteve 31 alegados membros desta onorata società, nomeadamente das famílias Bagheria, Villabate, Ficarazzi e Altavilla Milicia, e vários homens de honra, como se definem os membros desta organização.
Ainda no dia 23 desse mês, as autoridades italianas detiveram em Palermo mais 95 membros, acusados de extorquir empresários sicilianos durante anos. Nesta operação foram desmantelados os clãs que controlavam as zonas de Resuttana e San Lorenzo, pelos mesmos magistrados italianos que estão a procurar esclarecer as negociações mantidas entre 1992 e 1994 entre o Estado e a Cosa Nostra, para pôr fim à onda de atentados ocorridos nessas datas. Totò Riina afirmou que nessa altura foi procurado pelos serviços secretos, dando a entender que agentes policiais estiveram envolvidos na morte dos magistrados Paolo Borselino e  Giovanni Falcone. Referiu ainda que, «A verdadeira máfia são os juízes e os políticos que se protegem entre eles. Eles descarregam a responsabilidade sobre os mafiosos».
A Máfia em Portugal
Em termos de presença e bases, é indiscutível que a Máfia se «passeia» por Portugal, inclusivamente dada a posição estratégica deste país.
Ao longo dos anos tem surgido notícias na comunicação social, dando conta desse «fenómeno», sendo que ultimamente tem escasseado matéria noticiosa sobre Portugal quanto a atividades da onorota socità, talvez pelo facto de serem muito mais impactantes as notícias sobre o rebentamento de escândalos domésticos, onde se vislumbram por vezes organizações nacionais a imitarem a face mais negra da Máfia.
Ainda assim, e a título de exemplo, em outubro de 2010, a Polícia Judiciária deteve quatro italianos, dois portugueses e uma brasileira, no Bombarral. Um dos italianos era Giovanni Lore, um chefe da Cosa Nostra. Encontrava-se em fuga de Itália após uma operação anti-máfia, na qual foram presos cerca de trinta mafiosos, e sob o qual pendia um mandato de captura europeu.
Foi acusado pelas autoridades portuguesas de associação criminosa, falsificação de documentos e branqueamento de capitais.
Aparentemente o bando dedicava-se à compra de diverso tipo de mercadorias, que depois vendiam sem pagar ao fornecedor.
Em Jeito de Conclusão Sumaríssima
Embora a estrutura da Cosa Nostra se encontre bastante debilitada, muitos sicilianos continuam a não considerar esses homens como criminosos, mas como modelos ou protetores, uma vez que as estruturas do Estado foram incapazes até hoje de oferecer proteção aos fracos e aos pobres.

NOTA
Para o leitor interessado em aprofundar este tema, pode consultar imensa bibliografia em diversas línguas, assim como centenas de artigos publicados na internet.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

‘NDRANGHETA – UMA ONORATA SOCIETÀ





Por Pedro Manuel Pereira


     
 A origem do nome 'Ndrangheta não é pacífica, sendo que há quem advogue que provem do grego dragathía, que significa heroísmo e virtude, ou do grego andros agathos, equivalente a homem bom. É filha do Mezzogiorno (como é denominado o sul da Itália). Também referida como Famiglia Montalbano, Onorata Società e Picciotteria, esta é uma associação com cariz mafiosa, nascida na região da Calábria muito antes da própria unificação italiana (1861). Sabe a força que a religião católica tem naquelas terras, por isso a sua estrutura organizativa é baseada no catolicismo, que é uma forma de angariar a aceitação popular.  
A cúpula, a chefia da organização é denominada La Santa (em homenagem a Maria, mãe de Jesus). As micro células de poder têm nomes associados à Bíblia como, Vangelo (Evangelho) por exemplo, espécie de seleção dos 33 principais capos da entidade. Tanto o Vangelo como La Santa (e os 'ndranghetistas em geral) adotam o Arcanjo Gabriel como seu protetor, por isso a sua imagem é motivo de devoção pelos membros da máfia calabresa e provavelmente usada nos rituais de iniciação, onde o candidato jura fidelidade ao grupo sob o nome de Jesus Cristo. Ironicamente, Gabriel é o protetor da polícia do Estado italiano.
É menos conhecida que as suas congéneres sicilianas Cosa Nostra (Sicília) e Camorra (Campânia), não obstante, desde 1990 é a mais influente e poderosa destas associações originárias de Itália.
Em virtude da Cosa Nostra ter perdido o seu poder nos anos da década de 80, aproveitando as brechas abertas no seio desta organização, subestimada pela Justiça, a 'Ndrangheta cresceu, deixando de ser uma corporação de pastores de montanha para se inserir de vez no mercado mundial de entorpecentes, sobretudo cocaína. Fortaleceu-se e passou a ser uma ameaça global.
Neste país teme-se mais a Ndrangheta que as agremiações antes referidas, por ser mais violenta e poderosa.    
Tornou-se conhecida como uma influente organização criminosa após ter falhado o Golpe Burghese (alusão aos 46 neofascistas supostamente implicados neste golpe, condenados em 29 de Maio de 1977 por conspiração política e posteriormente absolvidos pelo Tribunal de Apelação de Roma). 
O seu padrinho, Paolo de Stefano é considerado o responsável por ter transformado a ‘Ndrangheta a partir de um grupo mafioso rural, numa das maiores organizações criminosas do mundo. Subestimada e considerada, durante muito tempo menos importante do que a Mafia siciliana, a ‘Ndrangheta fortaleceu-se e passou a ser uma ameaça global.
Dentro do seu país, a ‘Ndrangheta atua com força no norte e no centro, em regiões como Piemonte, Lazia e mais recentemente, também na Lombardia.
Pese embora os membros do crime organizado italiano sejam geralmente apodados de mafiosi, os membros de qualquer clã 'ndrangheta distinguem-se por serem conhecidos como 'ndrinus, e o clã como 'ndrina.
Não é fácil entrar na máfia calabresa, uma vez que esta se organiza em torno de quase cem famílias favorecendo mais a linhagem que o mérito - daí a sua extraordinária coesão - com mais de 5 mil membros só na península itálica, num total que ascenderá a mais de 60 000 filiados, torna-se necessária uma relação de consanguinidade para entrar na organização. Movem-se à vontade nos meios que frequentam, mantendo uma aparência humilde, discreta, não ostentando sinais exteriores de riqueza.
São raros os desertores ou «arrependidos» no seus seio. Até recentemente registava-se em Itália unicamente 157 testemunhas de calabreses no programa nacional de testemunhas.
As autoridades policiais estimam que a ‘Ndrangheta fature mais de 45 mil milhões de euros por ano, o que equivalerá a 3,5% do PIB italiano. Dessa faturação, 62% correspondem ao produto da venda de cocaína.
De acordo com o ministério do interior do seu país de origem, esta é a maior «empresa» de Itália, muito acima da Ferrari ou a Fiat. Crê-se que em 2013 faturou 53 000 milhões de euros, mais do que a McDonalds e o Deutsch Bank juntos.
Os seus negócios são provenientes do tráfico de droga, da extorsão e da usura, do comércio de armas, exploração da prostituição, empresas de construção, restaurantes, supermercados e da lavagem de dinheiro através de grandes contratos de obras públicas que conseguem por intermédio das suas relações com altos dirigentes políticos, entre outras atividades ilícitas.
Opera a partir da Calábria, daí ser conhecida como máfia calabresa. Por vezes unem-se à máfia siciliana dada a sua proximidade, no entanto são muito diferentes em estrutura e ação.
O Santuario della Madonna di Polsi, em San Lucas, na Calábria, é considerado o seu principal refúgio e um dos principais locais de reunião dos seus membros.
Pelle, Vottari, Pesce, Condello, Bellocco, Nirta, Strangio, Barbaro, Acquino, Trimboli, Commisso, Piromalli, Molè, Mancuso, Arena, Farao e Morabito, são algumas das suas famílias mais conhecidas.
Nas últimas décadas a ‘Ndrangheta estendeu os seus tentáculos económicos por numerosos países com a Alemanha, França, Reino Unido, Suíça, Bélgica, Espanha, Portugal, entre outros, aproveitando-se ainda das comunidades de italianos emigrantes para criar bases em mais de 30 países.
A Banca italiana define as referidas organizações criminosas como «as principais empresas do país», por juntas obterem uma faturação anual estimada em mais de 150 000 milhões de euros, representando 10% do PIB italiano.
No caso da ‘Ndrangheta, cerca de 62% dos seus lucros são provenientes da venda e distribuição da cocaína na Europa; quer dizer, 27 milhões de euros. Através das suas «filiais» noutros países detém 80% das vendas deste estupefaciente, controlando a maior parte das portas de acesso da droga ao velho continente. Em vez de simplesmente comprar a droga, a ‘Ndrangheta torna-se sócia do empreendimento, envia calabreses para morar nos locais de produção e distribuição e, caso necessário, força casamentos e comunhões entre famílias conforme a antiga tradição mafiosa.
Argentina, Perú, Bolívia, Equador e Colômbia, são pontos de referência para a compra de drogas. Cada quilo de cocaína que compram a estes produtores custa-lhes 500 mil euros. Os químicos permitem-lhe aumentar a quantidade até obterem 4,5 quilos por cada quilo, e cada grama é vendida ao consumidor europeu a 50 euros. Isto é, por cada quilo os narcotraficantes têm um lucro de 225 mil euros.
Em seguida os lucros obtidos são investidos desde Roma até às zonas mais ricas da Europa, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, em especial no setor imobiliário.
A maior fatia do facturamento é proveniente da venda da droga, porém, a 'Ndrangheta pratica ainda hoje o sistema de extorsão que tornou célebre este género de clãs italianos. Trata-se de o pizzo, raiz indissociável das regiões do sul da Itália, berço de todas as máfias, que é cobrado a empreendedores e profissionais liberais - nomeadamente comerciantes e industriais - em troca de «proteção».
O facturamento com esse tipo de atividade - cerca de 3 mil milhões de euros por ano - é baixo se comparado às transações globais de dinheiro nos cofres desta organização.
A Confederação das Indústrias da Calábria estima que cerca de 70% dos empresários locais pagam o pizzo, quer em dinheiro, quer empregando pessoas indicadas pelos clãs ou comprando a revendedores impostos pela organização.
A extorsão serve, na verdade, para manter uma tradição: a do controle do território. Mesmo sendo uma «multinacional» do crime, a 'Ndrangheta continua a estar ainda hoje umbilicalmente ligada à sua terra. 
Desde que nascem, espera-se que os filhos dos ‘ndranghetisti sigam os passos dos seus pais. Durante a juventude, os «herdeiros» passam por um processo de aprendizagem para se converterem em giovani d’onore  (jovens de honra), podendo cada qual aspirar a entrar na organização como um dos 1 527 uomini d’onore  (homens de honra).
Esta organização foi – e é - fundamental para configurar uma estrutura que, diferentemente da máfia siciliana é horizontal, o que os ajudou a criar uma base sólida que suportou a formação de uma superestrutura formal que foi necessária até 1991, quando os conflitos entre as famílias ameaçavam sair de controlo. Enquanto na Cosa Nostra há um capo, na 'Ndrangheta há vários.
Desde então, por consenso, foi decidido designar um chefe máximo da organização, cujas funções estão centradas na resolução de conflitos.
A seguir a esta figura encontra-se A Província, uma estrutura formada pelos chefes das principais famílias a que todos os membros devem obediência. Além disso, contam com um Tribunal encarregue de resolver disputas internas comuns.
A sua organização propicia-lhe duas coisas fundamentais: a primeira delas é que se um chefe de família for preso, a estrutura é pouco abalada dado que não existe uma figura centralizadora comandando as demais. A segunda delas é o seu estilo de investimento. – A 'Ndrangheta funciona por meio de participações. Para importar um carregamento de cocaína da América do Sul, por exemplo, várias famílias investem dinheiro. Caso esta seja apreendida, muitos perdem pouco, o prejuízo é desta forma diluído entre todos.
Na verdade, independentemente do facto de muitos dos chefes se encontrarem fora da região, todos os uomos d’onore devem assistir às reuniões regulares no Santuario della Madonna di Polsi.
Dado que a 'Ndrangheta é uma organização familiar, frequentemente forçando casamentos entre descendentes de famílias, isso praticamente elimina a figura do pentito, o mafioso colaborar da Justiça.
Historicamente, a figura do pentito é a chave que a Justiça utiliza para abrir os cofres e os caixões das máfias. Sem eles, a ação das forças policiais e jurídicas fica extremamente limitada.

A Educação dos uomos d’onore

Graças aos chorudos proventos auferidos com as suas atividades económicas, cada uma destas famílias enviam para estudarem, alguns dos seus filhos e netos nas mais prestigiadas universidades de Milão e outras cidades italianas.
Estes estudantes, vulgarmente chamados de juniors, veem a falar vários idiomas, a possuir títulos académicos importantes e tornam-se membros ativos na sociedade e nas atividades economicas.
A força da ‘Ndrangheta é reforçada, quando estes juniors conseguem estabelecer relações com políticos e empresários para desenvolverem os seus negócios, mesmo que aparentemente lícitos.
Mas a ‘Ndrangheta também acedeu à economia legal. Um dos setores em que se encontra presente é o da gestão do fornecimento de água e de resíduos sólidos, a qual lhe permite auferir chorudos lucros com baixo risco.      Sem dúvida que a organização tem uma enorme capacidade para corromper e beneficiar dos fundos públicos, sendo que atualmente é muito difícil lutar contra o crime organizado, uma vez que os mafiosos lograram chegar aos altos cargos públicos, ao mundo dos negócios, a toda a economia, estendendo os seus tentáculos aos aparelhos dos Estados.


A ‘Ndrangheta em Portugal

De acordo com Gomorra, um livro publicado por Francesco Forgione, antigo presidente da Comissão Anti Mafia do parlamento italiano, e citando parte do relatório da Europol inserto nele, datado de 2009, Portugal tem um papel significativo no tráfico de droga protagonizado pela ‘Ndrangheta, o principal grupo mafioso italiano envolvido nas redes de cocaína. Salientando que, «embora a maioria da cocaína negociada pela ‘Ndrangheta chegue a Itália por via marítima, diretamente da “fonte”, a Colômbia, a droga é também, em quantidade significativa, distribuída através de Portugal, em alguma quantidade via França, mas especialmente através da Alemanha, onde o crime organizado italiano tem importantes bases de apoio (…) os membros italianos apoiam-se nos grupos de crime organizado envolvidos no tráfico de cocaína em Portugal».
Neste seu livro, Forgione refere Faro e Setúbal – ambas com portos e zonas costeiras apropriadas para desembarques – como locais de bases da mafia calabresa, sendo que a Camorra possui igualmente um clã em Cascais e outro no Porto, com participação de operacionais portugueses e brasileiros.
Os tentáculos da ação da ‘Ndrangheta em Portugal – e outros países da Europa especialmente os que estão em crise – por via da aliança com o maior e mais sanguinário cartel mexicano da atualidade, os Zetas, tornaram-se muitos mais complexos.
De acordo com a Procuradoria Distrital Antimafia de Reggio Calábria, a ‘Ndrangheta domina o mercado da cocaína na Europa, graças às relações com os narcotraficantes colombianos, mas sobretudo graças à aliança com os Zetas.     
Recentemente, no passado mês de Abril, uma operação da polícia portuguesa desmantelou e deteve um grupo de 44 membros da ‘Ndrangheta, no Porto de Leixões e apreendeu mais de 300 quilos de cocaína que ia ser transacionada para a Europa.

NOTA
Para o leitor interessado em aprofundar este tema, pode consultar imensa bibliografia em diversas línguas, assim como artigos publicados na internet.