quarta-feira, 15 de julho de 2009

A HISTÓRIA DO PRIMEIRO DESVIO DE UM AVIÃO COMERCIAL

Esta é a história que tantas vezes ouvi, durante a minha vida, contada pelos meus tios, o Comandante José Sequeira Marcelino e a hospedeira Maria Luísa Infante. Hoje, 45 anos passados, vou aqui contá-la… Marrocos, 10 de Novembro de 1961, o Super-Constellation da TAP, Mouzinho de Albuquerque, descola do aeroporto de Casablanca com destino a Lisboa. O seu Comandante, José Marcelino, a tripulação e 13 dos passageiros, não podiam imaginar que iam ficar na história da aviação e na história da luta contra o regime de Salazar. Cerca de 45 minutos após o início do voo, Hermínio da Palma Inácio, entra no cockpit e aponta um revolver à cabeça do Comandante, explicando que o avião estava a ser assaltado. O objectivo era lançarem sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, 100000 folhetos, denunciando as eleições para a Assembleia Nacional que se iam realizar 2 dias depois e incitando à revolta contra o regime de Salazar, regressando depois a Tânger onde Palma Inácio e os seus 6 companheiros, deviam obter asilo político. Esta operação planeada por Henrique Galvão tinha o nome de “Operação Vagô”. O Comandante Marcelino, mantendo uma calma e uma presença de espírito enormes, ainda tentou impedir esta operação, alegando que o avião não tinha combustível para um voo de ida e volta a Marrocos, e que era impossível abrir as janelas do avião para lançar os folhetos. Mas, Palma Inácio mecânico de aviões, tinha uma licença de piloto de aviões comerciais e não se deixou convencer. Sendo da sua inteira responsabilidade a vida da tripulação e dos passageiros, bem como o avião, O Comandante José Marcelino não teve outra hipótese senão obedecer. O voo seguiu sem quaisquer problemas até Lisboa. Ao aproximar-se do aeroporto da Portela, o Comandante pede autorização para aterrar e faz uma simulação de aterragem tão perfeita que Palma Inácio exclama: “Que está a fazer? Se aterra somos todos presos”. Mas, no último momento, acelera os 4 motores do super-constellation, ganha altitude a afasta-se do aeroporto. Ainda tenta explicar à torre de controlo o que se passava a bordo, mas sem sucesso. Estava assim iniciado o histórico voo. Rasando a cidade de Lisboa, voando a cerca de 100 metros de altitude (quase rasando na Estátua do Marquês de Pombal), evitando assim os radares e os dois caças Sabre, que entretanto tinham descolado de Monte Real com ordem de interceptar e abater o avião, caso este não aterrasse em solo português (ordem que os pilotos dos caças não cumpriram), o avião segue sempre a baixa altitude passando pelo Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, enquanto os companheiros de Palma Inácio, ajudados pelo Comissário Orlof Esteves e pelas Hospedeiras Maria Luísa Infante e Maria del Pilar Blanco, enchiam os céus de Portugal com os 100 000 folhetos. Mas, os sustos ainda não tinham acabado. Já, de regresso a Marrocos, os pilotos avistam 2 navios de guerra portugueses. Só havia uma hipótese de escapar. Era voar a meia dúzia de metros acima da água por entre os dois navios, impedindo-os, assim, de utilizarem a artilharia, pois se o fizessem disparavam um contra o outro. Foi a incrível proeza que o Comandante Marcelino conseguiu. A calma, sempre mantida a bordo deveu-se ao bom ambiente entre “assaltantes”, que nunca mostraram as suas armas aos passageiros, e tripulação que além de ajudar a distribuir os folhetos, manteve os passageiros “entretidos” distribuindo-lhe bebidas. Foi só quando aterraram em Tânger, no meio dos festejos pelo êxito da operação, que os passageiros, na maioria estrangeiros, perceberam o que se tinha passado. Apesar das pressões do Governo português para que Marrocos extraditasse Palma Inácio e os restantes “Comandos”, eles conseguiram ir para o Brasil. Depois de obter garantias que o avião não estava armadilhado, o Comandante Marcelino regressou a Lisboa, sem que nada tivesse acontecido aos passageiros, à tripulação e ao avião. Mas, para ele, os problemas iam começar. Considerado suspeito de cumplicidade, pois, a sua escala era o Porto e não Casablanca e, foi a seu pedido que fez o voo de Casablanca/Lisboa, tendo como única razão a vontade de estar perto daquela que viria a ser a sua mulher, a hospedeira Luísa Infante, foi suspenso da TAP durante um mês e interrogado diversas vezes pela PIDE, pois nunca quis dar a conhecer a verdadeira razão para ter feito aquele voo. Ilibado de qualquer envolvimento no desvio do avião continuou como Comandante da TAP até à idade limite para pilotar, tendo atingido 25 000 horas de voo, mantendo‑se ao serviço da TAP e da aviação até aos 80 anos de idade. Passaram-se 36 anos até que Palma Inácio e o Comandante Marcelino se voltaram a encontrar, num almoço organizado pela Revista Visão em 1998, com todos os intervenientes naquela extraordinária aventura, cujo êxito se ficou a dever, em grande parte à perícia e experiência daquele que tinha sido um dos principais pilotos de caça da força aérea dos anos 30 e 40 e um “Ás” da aviação. Peço desculpa pela extensão do texto e pelo destaque que dei ao meu Tio, o Comandante Marcelino mas, que espero compreendam, visto tratar-se da primeira vez que esta história é escrita por uma sua sobrinha.

Kiki Anahory Garin

terça-feira, 14 de julho de 2009

FALECEU O ÚLTIMO HERÓI ROMÂNTICO PORTUGUÊS

Faleceu, Herminio da Palma Inácio, pelas 11H15 de hoje, dia 14 de Julho de 2009, em Lisboa, na Associação Casapiana de Solidariedade, onde travou a sua última batalha. Cito um amigo comum que hoje escreveu: Morreu o último Herói romântico da luta pela Liberdade. Homem simples, mas de enorme craveira intelectual. Foi uma honra e um privilégio tê-lo conhecido. Com ele morreu uma parte dos nossos ideais de liberdade da nossa juventude. Homem de palavra de honra. Leal como nenhum outro. Amigo fraterno e solidário. Símbolo do inconformismo. Anti-fascista até ao dia de hoje. Honremos o seu testemunho. Prestemos homenagem à memória de Hermínio da Palma Inácio. Ditadura nunca mais!. Palma Inácio o "Velho" nasceu em Ferragudo a 29 de Janeiro de 1922, mecânico da Aeronáutica, destacado militante e fundador da LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária) em 1967. Protagonizou algumas arrojadas operações de sabotagem contra o regime salazarista. Em 10 de Novembro de 1961, numa acção projectada por Henrique Galvão e comandada por Palma Inácio e Amândio Silva, Camilo Mortágua, João Martins, Fernando Vasconcelos e Helena Vidal (já falecida), lança sobre Lisboa através de um avião da TAP panfletos com o Manifesto da Frente Anti-Totalitária dos Portugueses Livres no Estrangeiro, em Maio de 1967 foi um dos principais interventores no assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz, por um comando da LUAR por si chefiado, juntamente com Camilo Mortágua, António Barracosa e Luís Benvindo. Foi indicado pelo presidente Mário Soares, em 1995, para receber a Ordem da Liberdade, comenda que não viria a ser-lhe conferida por alegadas pressões exercidas por sectores mais conservadores da sociedade portuguesa. O corpo encontra-se desde as 20 horas de hoje na sede do Partido Socialista no Largo do Rato em Lisboa e segue amanhã pelas 18 horas para o Cemitério do Alto de S. João onde será cremado pelas 19 horas.

Inácio Ludgero

A GRIPE A

A GRIPE DO SÉCULO XXI

sexta-feira, 10 de julho de 2009

O SER VIVO MAIS ANTIGO DE PORTUGAL

No concelho de Tavira, freguesia de Stª. Luzia, existe o ser vivo mais antigo de Portugal e talvez da Península Ibérica. Trata-se de uma oliveira que já se encontrava enraizada no local em vida de Jesus Cristo. Esta árvore, que tem mais de 2000 anos pertence à família Oleacea. Encontra-se plantada no Aldeamento Turístico das Pedras del Rei, aproximadamente a 120 metros a norte da recepção desta aldeia turística. Pertence à família de uma espécie vegetal trazida da Mesopotâmia para a Europa Ocidental pelos Fenícios no séc. VII a.C., destinando-se os seus frutos à alimentação directa e à extracção de azeite para diversas finalidades. Próximo, na zona de Tavira, no sobresolo daquela que foi uma importante povoação chamada de Balsa, ao longo dos tempos tem sido encontrada vestígios de povos primitivos, mas também de variadas civilizações. Esta oliveira é de enorme porte, apresentando uma copa com a altura de 7,70m: o diâmetro maior mede 3,60m na base e 2,42m à altura do peito. São precisos cinco homens para abraçar o perímetro deste tronco que mede 7,75m apresentando uma coroa circular como se fosse uma porta com 40cm de largura que dá entrada para uma «sala» circular com 1,30m de diâmetro onde tem um banco e uma mesa em madeira. Ao lado desta porta podemos encontrar um zambujeiro, planta espontânea em que é usualmente enxertada a oliveira. Próximo e um pouco por todo o aldeamento, podemos encontrar várias oliveiras e alfarrobeiras, por certo tão centenárias como a oliveira de que falamos. Esta é, umas das 142 árvores, isoladas, que se encontram classificadas pela Direcção-Geral de Florestas como de Interesse Público {Diário da República, II série – nº178, de 2-8-1984}. A segunda árvore mais antiga em Portugal, é um castanheiro com mais de setecentos anos que sobrevive em muito mau estado, pertencendo à Irmandade da Srª. dos Remédios em Lamego. Seguem-se-lhe outras por idade decrescente igualmente classificadas. Em suma: - Muito antes de Portugal ser um estado-nação {tem pouco mais de oitocentos anos com fronteiras definidas} já esta vetusta oliveira existia. É espantoso como tantos séculos decorridos, continua a produzir azeitona. Por outro lado, quando a olhamos e interiorizamos que assistiu à vida e morte de várias civilizações, tendo por ela passado gerações de homens e mulheres de variadas civilizações, nomeadamente fenícios, gregos, romanos, muçulmanos, cristãos… é espantoso que ainda se mantenha firme sem desfalecimentos, como que querendo transmitir-nos uma sabedoria feita de séculos que nos ensina, fundamentalmente, quanto a vida do homem é tão fugaz. Pedro Manuel Pereira

VELHOS TEMPOS!...

«A mulher deve fazer o marido descansar nas horas vagas, servindo-lhe uma cerveja bem gelada. Nada de incomodá-lo com serviços ou notícias domésticas» in Jornal da Moças, 1959 «Se o seu marido fuma, não discuta pelo simples facto de deixar caír cinza no tapete. Espalhe cinzeiros por toda a casa» in Jornal das Moças, 1957 «O noivado longo é um perigo, mas nunca sugira o matrimónio. ELE é que decide- sempre» in Revista Querida, 1953 «O lugar da mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza» in Revista Querida, 1955

segunda-feira, 29 de junho de 2009

VIDA APÓS A VIDA

«Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente. Não ousar é perde-se». Soren Kierkegaard (filósofo) Sempre pensei que ia morrer cedo. A luta armada, a clandestinidade na luta contra a ditadura, aventuras, promiscuidade, orgias, riscos... tudo me levava a crer que não chegaria aos trinta anos. Para quem tem vinte anos, quem tem trinta já é coroa. Tomei um susto quando vi-me vivo e saudável aos trinta. Aos quarenta percebi a possibilidade real da morte. No dia do meu aniversário quarentão, um jovem ator de 24 anos perguntou como eu me sentia: “Agora? de frente para a morte”. Para minha surpresa foi o jovem quem morreu logo depois. Aos cinquenta apaixonei-me pela letra de Aldir Blanc na voz de Paulinho da Viola: “...aos cinquenta anos, insisto na juventude...”, isto enquanto percebia meu ângulo peniano caminhando para os 90º. Mas, antes dos sessenta a pílula azul alargou minhas possibilidades e possibilitou-me ver o sexo por ângulos mais estreitos. Agora estou além dos sessenta. Aos quarenta rezava pela alma dos mortos amigos e parentes. Nome por nome eu pedia ao Senhor. Hoje, são tantos os que caíram, que apenas peço “...pelos mortos em geral”. E mais uma vez espanto-me por estar ainda vivo, e consolo-me no Salmo 91.7 que diz: “...1.000 cairão ao teu lado e 10.000 à sua direita, mas você não será atingido”. Mesmo confiando na Palavra, ainda assim caminho embaixo de marquise pra São Pedro não me ver. Ainda estou vivo, e pra quem pensou que morreria aos trinta descubro que existe vida após a vida. Mas o preço do viver é muito alto para o jovem de hoje: tem que comprar 20 apartamentos, arranjar um trampo, ganhar dinheiro, ficar famoso, comer todas, bombar no youtube, malhar, casar, ter filhos, comprar carro, estar bronzeado, conhecer tudo de web, e ainda ir ao show da Madonna, entre outras miudezas. Após os sessenta você já está quites com tudo isto e pensa que vai viver em paz. Qual o quê: tem que tomar insulina, antidepressivos, rivotris, controlar a pressão, não comer açúcar, não comer sal, não fumar, não beber, se conseguir comer uma e outra já é uma vitória, tem que caminhar ao menos meia hora por dia mesmo sem querer, cuidar do joanete, dormir cedo, vender o apartamento, fugir da bolsa, não discutir no trânsito, não se alterar no caixa do supermercado, tolerar os filhos, agradar os netos, ficar calado diante da mediocridade, aceitar o salário de aposentado, ter o testamento em dia, e curtir todas as dores ósseas, nervosas e musculares porque se algum dia você acordar sem dor é porque está morto. Claro que o idoso tem suas vantagens: uma delas é a transparência. Quanto mais velho mais transparente você se torna. Chega a ficar invisível: ninguém mais lhe percebe, mais um pouco e nem lhe enxergam. Mas, pode passar à frente dos jovens nas filas todas, com aquele ar de superior: “Você é jovem e sarado, mas eu tenho prioridade”. E ante qualquer aborrecimento ou dificuldade você ameaça enfartar ou ter um AVC. Funciona sempre, todos logo se tornam gentis e cordatos, e é garantia de muitas meias e lenços como presentes no Natal. Lidando com a minha “terceira idade” ouço de meu psicanalista, o bom Luiz Alfredo: “Só há dois caminhos: envelhecer...ou o outro, muito pior”. Prefiro envelhecer, aceitando cada minúsculo “sim” que a vida me dá com uma grande alegria e uma grande vitória. Hoje quando encontro vaga num elevador do shopping, quando o banco está vazio, ou quando encontro promoção na farmácia, já considero uma bênção gigantesca e agradeço a Deus pela Graça Alcançada. Após os sessenta, como no filme de Brad Pitt, regrido na existência, deixo Paulinho e a viola de lado e reencontro Lupiscinio “Esses moços, pobres moços...ah se soubessem o que eu sei...”. Mas se soubessem não ia adiantar nada: porque a sabedoria é filha do tempo. Como diz o amigo Percinotto, também idoso: “o diabo é sábio porque é velho”. Pelo andar da carruagem, percebo que já morri muitas vezes nesta vida, e que viverei até fartar-me." Benvindo Siqueira – ator e diretor de teatro e TV, autor e idoso.

terça-feira, 23 de junho de 2009

DAS ORIGENS DA IMPRENSA NO ALGARVE

O Portugal de oitocentos, à imagem do que sucedeu um pouco por toda a Europa, teve um surto cultural bastante intenso, como não se havia assistido até então. Para tanto, terá contribuído a abertura do país ao exterior na sequência da Revolução Liberal de 1820, uma vez que os primeiros governos que se lhe seguiram, entre outras iniciativas aboliram a censura aos livros e periódicos, de que resultou a liberdade de imprensa com evidentes repercussões positivas. Não obstante, os interlúdios governativos reaccionários de 1823-1826 e 1828-1833, que trouxeram de novo a censura. Poderemos mesmo considerar que a liberdade de imprensa conheceu um nítido recuo entre 1840 e 1851 (governos de Costa Cabral). Todavia, a partir de 1860, os jornais multiplicaram-se por todo o país, nomeadamente nas duas últimas décadas da centúria. O movimento periodístico entre 1894 e 1900 é de tal forma intenso que, incluindo as publicações em língua portuguesa no estrangeiro e descontando as que então deixaram de existir ou cuja edição foi interrompida, temos para esse período um total de 583 publicações. O Algarve surge no contexto das restantes regiões do país em pé de igualdade no fenómeno do surgimento de títulos de periódicos para o período em apreço. De então e até ao primeiro quartel do século XX, a quase totalidade de publicações nesta região, foram de iniciativa política, propriedade de partidos políticos, quer antes quer depois da Implantação da República, seguindo-se os jornais de anúncios, os satíricos ou anedóticos e finalmente em muito pequeno número, os periódicos ligados à Igreja, ao espiritismo ou simplesmente de carácter científico e literário. Por outro lado, verifica-se que a maior parte das publicações surgiram naqueles que ainda hoje são os principais concelhos algarvios, ou seja: Faro, Loulé, Lagos, Portimão, Olhão, Tavira, Vila Real de Stº António, Lagoa e Silves. O periódico mais antigo de que temos conhecimento intitulou-se: O Petiz. Foi um semanário e viu a luz do dia em Vila Real de Stº António em 29 de Outubro de 1823, num período marcado pela censura à imprensa, sendo seu director e proprietário, Socorro Júnior. O segundo título mais antigo chamava-se de Chronica do Algarve. Era um bissemanário, órgão oficial do Partido Constitucionalista, tendo surgido em 15 de Junho de 1833, em plena guerra civil entre liberais e miguelistas, que pôs o país a ferro e fogo entre 1832 e 1834, terminando com o triunfo dos liberais firmado com o tratado de Évoramonte. Este jornal foi dirigido por Manuel António Ferreira Portugal. Seguiu-se o Jornal Cómico do Algarve, datado de 1862 com redacção em Faro e O Reino do Algarve, natural de Tavira, que teve vida efémera, ou seja: entre Julho e Agosto de 1864, ano do primeiro recenseamento sistemático de toda a população do reino, que contou então um total de 3829618 habitantes. Era um bissemanário que saía aos domingos e 5ªs. feiras, e que tinha como director e proprietário, Luís Damásio Ferreira Carneiro. Entre 1868 e 1869 viveu em Lagos um jornal republicano intitulado O Echo do Algarve e que foi dirigido por João Teixeira Simões. Procurando dar expressão e voz, à principal actividade económica da Região no período em questão, entre Janeiro e Fevereiro de 1875 saíram dois números do Jornal dos Agricultores do Algarve, cujo director era o Eng.º agrónomo Alexandre de Sousa Figueiredo. Não nos esqueçamos que o Algarve - tal como as outras regiões do país - era uma região essencialmente agrícola, e só não é de relevar, não terem sido publicados mais jornais vocacionados nesta área geográfica, porque o grosso do analfabetismo em Portugal, encontrava-se precisamente nas zonas rurais. Teve esta publicação a sua redacção em Faro. O Comércio do Sul foi outro dos jornais surgidos em Faro neste período. Era uma publicação que se dizia defensora da política reformista, defensora do Partido Reformista que em Setembro desse ano se haveria de fundir com o Partido Histórico, dando origem ao Partido Progressista. Foi este periódico dirigido por Francisco Augusto da Silveira Almeida Vilhena e viveu entre Abril de 1876 e Março de 1878. Em 1876 surgiu também em Faro um «semanário regenerador»: O Distrito de Faro. Fundado por António Bernardo da Cruz, teve existência até 1913. O primeiro jornal de anúncios da região de que temos notícia apareceu em Faro em 28 de Janeiro de 1880 e chamava-se justamente: Jornal de Anúncios. Era uma publicação de distribuição gratuita, propriedade do tipógrafo António Manuel Henriques. É curioso verificar que ainda hoje existem variadas publicações do género no Algarve, igualmente de distribuição gratuita, sobretudo, editadas por estrangeiros, promovendo quer as várias actividades económicas da região, quer de outros países. Só a título de curiosidade, não podemos deixar de referir a existência de um jornal, um semanário, que saiu à estampa igualmente em Faro, intitulado: O Moralista. O primeiro número surgiu em 29 de Junho de 1918. Encontrava-se então no poder o Major Sidónio Pais, idolatrado pela quase totalidade do povo português e que tentava pôr ordem na casa Lusitana. Deste jornal saíra 9 números, até 18 de Fevereiro de 1919, durando pouco tempo mais após o assassinato de Sidónio Pais. Foi seu director, Cruz Azevedo. O primeiro jornal republicano a sair na região, surgiu em Lagos e teve por título: O Echo do Algarve. Viveu entre 1868 e 1869, ano este em que foram abolidas em Portugal todas as formas de escravatura, tendo sido seu director, João Teixeira Simões. Do concelho de Loulé, gostaria de deixar aqui referidos dois títulos singulares, um deles nascido mesmo em Loulé, em 1912, com o curioso título de: O Aldeão, um tri-semanário dirigido por um senhor chamado João de Deus Ferrador. O outro periódico, intitulado: A Folha de Alte, um quinzenário dessa aldeia branca e bela, teve uma vida relativamente longa, em comparação com periódicos das cidades, ou seja: viveu entre 1922 e 1934. É justo portanto, que se refira o nome do seu director. Assinava-se ele por J.F. da Graça Mira. Os títulos de periódicos que saíram nesta região para os anos em apreço, contam-se por muitas dezenas, casos houve do nascimento de títulos em simultâneo em terras diferentes, é o caso da Alma Algarvia, um semanário denominado republicano e independente, que apareceu ao mesmo tempo em Silves e Portimão em 12 de Março de 1911, composto e impresso na Minerva Comercial em Évora. Dirigido em Silves por Henrique Martins e em Portimão por Julião Quintinha. Acrescente-se a este propósito que, qualquer um destes jornalistas era membro importante de Lojas maçónicas locais e a tipografia Minerva em Évora, pertencia a membros da maçonaria dessa cidade. Quanto a Julião Quintinha, não quero deixar de fazer aqui uma breve referência a essa figura admirável das letras, da política e como cidadão, tão injustamente esquecida. Julião Quintinha era natural de Silves onde nasceu em 1885. Foi operário, funcionário público, jornalista e escritor, desempenhou as funções de redactor e chefe de redacção de vários jornais de Lisboa, tendo além disso, colaborado com muitos outros. Deixou uma extensa obra em conto, novela, reportagem, ensaio e temas ultramarinos. Escrevia brilhantemente. Como republicano que era, exerceu os cargos de administrador dos concelhos de Portimão e Silves e teve acção importante na luta reivindicativa do operariado. Foi iniciado maçon em 1912 no triângulo nº198, de Portimão, com o nome simbólico de Danton. Em suma: torna-se curioso constatar, que durante várias décadas, em tempos de muitos menos população daquela que existe hoje na região, existiram muitos mais títulos de periódicos do que existem actualmente. É uma análise que merece ser aprofundada, tanto mais interessante, se pensarmos que os índices de analfabetismo do período abordado eram incomparavelmente superiores aos de hoje. Só uma minoria da população sabia ler e escrever. Numa análise simplista poderíamos dizer que a realidade actual tem por base em primeiro lugar, a competição informal dos meios audiovisuais, nomeadamente a televisão e a rádio, para além dos periódicos de âmbito nacional, com a imprensa local e regional. Em segundo lugar, muito embora a quase totalidade da população adulta seja alfabetizada, a verdade é que a maioria é constituída por analfabetos funcionais. A título de exemplo: todos conhecemos licenciados que não lêem um livro e dos jornais só os títulos dos expostos nas montras e nos quiosques. Por outro lado ainda, existe muita gente que não entende o que lê, dado o seu reduzido léxico gramatical, nem têm a coragem de o dizer a ninguém, estilo: «nem às paredes confesso». Não será, pois, difícil concluirmos por uma análise histórica mais aprofundada que as populações alfabetizadas da região (e em todo o país) ao longo do século XIX e primeiro quartel do século XX, liam e bastante, sem dúvida. Já o mesmo não se pode dizer nos tempos que correm, tempos de iliteracia. ORIENTAÇÃO BIBLIOGRÁFICA . Branco, Capitão Vieira, Subsídios para a História da Imprensa Algarvia – de 1833 aos nossos dias, Tip. Caetano, Faro, 1938 . Mesquita, José Carlos Vilhena, História da Imprensa do Algarve, vols. I e II, C.C.R.A, Faro, 1988 Pedro Manuel Pereira

quarta-feira, 17 de junho de 2009

TAVIRA A CIDADE DOS TEMPLOS

Em1442, o Alentejo e o Algarve eram as regiões do país onde habitavam mais mouros, quer escravos, quer forros. No Algarve, existiam mourarias em Faro, Loulé, Silves e Tavira. No final desse século, dessas quatro localidades só restavam mourarias em três delas, dado que a de Silves já não existia. Tavira, dividida pelo rio Séqua {Gilão ou Asseca} tal como as localidades atrás referidas, possuía, igualmente, uma judiaria, com uma rua principal na vila e as restantes, fora de portas, desde que havia sido conquistada aos Mouros em 1242. Em 1266 recebia carta de foral e em 1536 era criada a Comarca de Tavira. Por esse tempo, esta era a única terra no Algarve que não havia sido doada a senhores particulares, pelo que nelas era vedada a entrada ao corregedor da corte, ao contrário do que sucedia nesta vila, onde frequentemente haviam alçadas extraordinárias devido às contínuas desordens e confrontos entre o povo e os fidalgos, situação que se encontra bem documentada para o reinado de D. Afonso V, o Africano. As razões dos tumultos eram motivadas, «segundo o concelho se amofinava nas cortes de 1478», dadas as concessões contrárias aos foros municipais que o rei fazia aos fidalgos. Acrescente-se a este propósito, que o monarca era homem de carácter perdulário e imprevidente; um gastador, um «mãos largas», sobretudo, face às concessões que fazia à nobreza, de tal ordem, que seu filho D. João II, o Príncipe Perfeito, quando por sua morte lhe sucedeu formalmente no trono, dado o estado caótico das finanças do reino, segundo coevos, desabafou com os mais próximos que o seu pai lhe havia deixado como únicos bens as estradas para calcorrear. O país estava na ruína, à beira da falência. Aliás, e ainda a propósito de desordens, refira-se um facto curioso passado em 1580, nesta hoje cidade, na sequência da morte de D. Sebastião em 1578, ou antes, do seu desaparecimento em combate, em Alcácer Quibir, numa manhã de nevoeiro, montado num corcel branco, rodeado de mourama, desferindo cutiladas à esquerda e à direita, ajoujado pelo peso do seu montante e da sua loucura. O soberano que lhe sucedeu, o seu tio-avô, cardeal-inquisidor D. Henrique, não deixou sucessor. Assim, dada a crise dinástica instalada, o rei espanhol Filipe II, {que veio a ser Filipe I de Portugal} tratou de corromper e comprar muitos portugueses venais, que a troco de bom dinheiro, de bons cargos ou da vaga promessa de algumas migalhas nas bordas da mesa do poder, se venderam a Espanha, se deixaram peitar. O alcaide-mor de Tavira, Martim Correia da Silva, venal e ganancioso como tantos outros, alinhou ao lado dessa «boa gentalha» portuguesa. Por essa razão, Tavira ficou a ferro e fogo. Os cidadãos não se conformaram com a traição do alcaide-mor. De resto, por quase todo o país, davam-se tumultos por essa altura, por razões mais ou menos aparentadas. O bispo de Silves, D. Jerónimo Osório, querendo pacificar os tavirenses, dirigiu-se para essa localidade em liteira, mas porque lhe pareceu que quanto mais demorasse mais se agravava o estado de sítio, montou numa mula para lá chegar mais rápido. Talvez por esse facto, aliado ao estado do tempo, agravou-se-lhe uma pequena chaga na perna direita, que há muito tempo o andava a atormentar. Por isso, teve de recolher para tratamento ao convento de S. Francisco de Tavira, onde, acometido por febres ardentes que o minaram durante vinte dias, acabou por se finar ao segundo dia do mês de Agosto, com 74 anos, sem ter cumprido a missão que se propusera. De resto, uma armada espanhola capitaneada pelo Marquês de Santa Cruz, às ordens do Duque de Alba, acabaria por se assenhorear do Algarve sem disparar um único tiro. Nos alvores do século XV, o número de fogos em Tavira era de 1567, enquanto que no seu termo se contavam 478. Possuía um importante porto comercial, em parte devido às suas exportações de alfarroba, amêndoa, mel, cera, lenha, marmelos, romãs, atum, sardinhas, peixe, sal, frutas e vinhos, principais produções do termo desta localidade, que a esse tempo mantinha relações comerciais com Bruges, cidade essa, que entre os séculos XIII e XV possuiu o maior porto comercial do Norte da Europa. Mas exportava-se igualmente para a Inglaterra, Sardenha, Génova, Gibraltar, Cádiz... Saliente-se ainda que os arrabaldes de Tavira, em vários quilómetros, se encontravam bastamente plantados de olivais e figueirais, para além do arvoredo que permitia as exportações atrás descritas. Mas também, de várias léguas em redor, chegavam todos os outros produtos. O porto de Tavira admitia navios de grande calado. Só os seus habitantes, possuíam 70 desses navios, para além de inúmeras embarcações costeiras e de pesca. A este porto acostavam incontáveis navios bretões, ingleses, alemães e de outras procedências, para carregarem mercadoria comprada aos tavirenses. Nesta vila, muitos negociantes da Flandres faziam também, frequentes compras de uvas e figos. Ao longo dos séculos, foi esta localidade visitada por várias vezes por vários monarcas. O primeiro deles de que há notícia, foi D. Diniz, que deu carta de privilégio com data de 15 de Abril de 1303 aos moradores de Tavira. Depois, e na sequência da visita de D. João I no seu regresso após a conquista de Ceuta em 1415, outros soberanos se lhe seguiram quer na ida quer no regresso de terras de África e não só. Quando do terramoto de 1755, sofreu essa vila consideráveis danos. A saber: o Convento de S. Francisco ficou bastante danificado, o Hospital ficou arrasado e arrasadas ficaram 42 casa de morada. Não obstante, houve poucos mortos e feridos. Nesta data, Tavira era residência do corregedor da corte, do provedor das Comarcas do Algarve e do Juiz de fora. A sua Alfândega era possivelmente a mais importante do Algarve. Possuía na altura duas freguesias; Santa Maria, mesquita de Mouros que D. Paio Peres Correia mandou converter em igreja cristã, e S. Tiago. Continuava a ser, esta localidade, rica em abundantes e variadas águas mas agora, com a barra assoreada, o seu porto, uma pálida imagem da importância que havia tido durante séculos. Decadente. De forma a imprimir-lhe alguma dinâmica industrial, por alvará de 31 de Maio de 1776, mandou D. José I estabelecer na cidade uma fábrica de tapeçarias de lã e seda, de acordo com a política manufactureira do reino. Porém, este estabelecimento não teve grande futuro e «foi sol de pouca dura». E assim, a cidade continuou inexoravelmente a afundar-se. Hoje, nos alvores do século XXI, e desde os anos sessenta do século XX, Tavira tem vindo a constituir-se paulatinamente como uma cidade, um concelho dinâmico, virado para o turismo, uma das novas «industrias» dos novos tempos. Pedro Manuel Pereira