segunda-feira, 8 de junho de 2009

HAARP – O CONTROLO DO CLIMA MUNDIAL

Trinta milhões de dólares são quanto – alegadamente - o Pentágono investiu no projecto Haarp {High Frequency Active Auroral Research}. Trata-se de um complexo tecnológico, constituído por mais de 180 torres com antenas atípicas, situado nas inóspitas terras do Alaska, em Gakoma, concebido para projectar energia radiada na ionosfera, a camada electricamente carregada que se encontra acima da atmosfera da Terra. É um sistema que funciona ao inverso de radiotelescópio, ou seja, não transmite, só recebe. As suas potentes emissões de centenas de milhões de vóltios de potência, para a parte superior da atmosfera, actuam como um verdadeiro feixe de calor, aquecendo-a de sobremaneira, provocando assim, uma tremenda ionização de consequências imprevisíveis. Graças ao seu efeito de «espelho», poderá dirigir os seus feixes para qualquer zona do planeta, formando longas ondas que penetram nos corpos físicos – nomeadamente o corpo humano – no solo e nos oceanos. Criado em 1995 pela CIA, NSA e ONR, utiliza as frequências VHF e UHF, criando campos de ressonância electromagnética de 1,1 Ghz na atmosfera, passível de provocar alterações no DNA e no comportamento humanos. O projecto foi inicialmente concebido para melhorara as comunicações com submarinos através dos sistemas ELF, ou seja, originalmente foi apresentado como um programa de investigação científica e académica, paradoxalmente gerido pela Força Aérea e Marinha de Guerra dos E.U.A.. Assim, segundo notícias vindas a lume um pouco por todo o mundo nos últimos anos, incluindo profusamente na Internet, este sistema terá a possibilidade, entre outras propriedades, de controlar o clima do planeta de forma direccionada, ou seja, das regiões que os cientistas deste projecto pretendam. Tempestades, furacões, inundações, tornados e secas, é só escolher, «à la carte». Porém, a tecnologia em causa pode também ser utilizada para outros fins que não apenas de controlo climático. Segundo consta, trata-se de uma arma que pode igualmente ser usada de forma eficiente para criar terramotos onde desejados. Em Fevereiro de 1998, respondendo a uma informação da deputada do Parlamento Europeu pela Suécia, Brott Theorin, o Comité do Parlamento Europeu de Políticas de Relações Exteriores, Segurança e Defesa, manteve audiências públicas em Bruxelas, relativamente ao programa Haarp. A «Moção para Resolução» submetida pelo referido Comité ao Parlamento Europeu considera que o Haarp exerce um profundo impacto nocivo sobre o meio ambiente do planeta, lamentando ainda, a recusa da administração dos Estados Unidos da América em dar respostas públicas relativamente ao projecto em causa, sobretudo, quanto aos perigos que o mesmo representa para o clima. Nos tempos que correm, não será de todo displicente atentar-se às informações que dão conta desta realidade, sobretudo, porque coincidentemente ou não, desde a data da sua criação que o clima mundial entrou em franca mutação acelerada, com as consequentes catástrofes de dimensões nunca antes assinaladas.  

Pedro Manuel Pereira

A CULTURA DA PAZ

Um dos principais mitos políticos que se instituiu no Ocidente moderno desde Maquiavel foi o da política como esfera da degradação, da vilania, da falsidade, na qual os fins justificam os meios, da ruptura com a ética, da sujeição material e espiritual do homem, antes que a sua libertação. As consequências de tal visão compartimentada do homem e do mundo e da política, embora as conquistas democráticas do moderno Estado laico, mostraram, contudo, nestes séculos, o seu esgotamento e efeitos perversos, quando então o critério do poder, submetido ao império da razão instrumental, é o da eficiência nem sempre revertida para a res publica e no qual ele se converte num fim em si mesmo despreocupado com a polis e o com o bem comum ou justiça. A concepção maquiavélica, cuja teoria e imaginário se solidificaram no pensamento ocidental, é, como destacou Cassirer (Cassirer,1976), uma visão orientada pela concepção de uma “profunda perversão moral da humanidade”. Ela inscreve-se e ao mesmo tempo reforça uma cultura que atinge tanto a concepção de política - como esfera da mentira, da corrupção e da violência - quanto a esfera privada, o que irá conduzir a práticas perversas as quais têm a sua conclusão lógica numa sociedade que se imagina e que se constitui como competitiva desigual e violenta. Enfim, ao longo desses séculos, construiu-se uma cultura da violência. Ora, a violência, no sentido primeiro aqui adoptado, diz respeito à coisificação do outro na relação de alteridade. Entendida universalmente como todo atentado aos direitos fundamentais das pessoas; é também concebida como o acto de privar o homem de sua palavra, acto extremo empreendido quando não há possibilidade da palavra, do entendimento: “fazer violência é sempre fazer calar”(1). Como dito por Simone Weil(2), violento é “aquele que faz de quem lhe é submetido uma coisa”. Sob essa perspectiva, em nossa tentativa de construir um conceito primeiro de violência, veremos que as formas através das quais ela se manifesta vão da dimensão simbólica presente na calculada espectacularização da política e nas estreitas relações entre sacrifício e violência(3) até a violência física; vão da humilhação e imputação de sofrimento psíquico até a morte, da requintada indiferença em relação ao Outro que sofre até a chamada mortificação do eu(4. Dessa, ainda, concepção não podem ser afastadas também tanto a violência institucional quanto aquelas exercidas no âmbito dos foucaultianos micropoderes(5). Qualquer que seja a forma através da qual se manifeste, a violência quase sempre recorre ao simbólico para se expressar (e por sua vez pode ser por ele engendrada). Isso é perceptível tanto na exuberância simbólica de uma sociedade espectacularizada, quanto nas subtis, mas não menos presentes, manifestações dos complexos simbólicos presentes nas relações Burocráticas como descritas literariamente no universo kafkiano(6). Intimamente ligada à reificação das relações sociais, qualquer que seja a sua manifestação, a violência é sempre uma interdição à palavra do Outro e, ao mesmo tempo, a manifestação do não-olhar para o Outro nas relações sociais e políticas (Mendonça, 1997 e 1998). Aliás, é através dessa última perspectiva que Adorno e Horkheimer abordam a questão da violência no clássico Elementos do Anti-Semitismo (Adorno & Horkheimer, 1991)(7), quando então a questão da alteridade será apropriada através da denúncia do ofuscamento das relações sociais como elemento patológico do anti-semitismo e das relações na sociedade capitalista, caracterizado pelo olhar que extingue o sujeito, que não o vê como dotado de humanidade(8) . Posteriormente, Adorno tratará do tema da verdade associada a uma sociedade livre porque desalienada. A mentira irá vincular-se à barbárie, situação em que a sociedade se submete ao império da razão instrumental e na qual o Outro desaparece transformado em meio(9). Ofuscamento, irreflexão, dizem respeito à não-percepção da humanidade presente em cada qual e elidida na relação algoz-vítima. Chegamos aqui ao ponto central dessas reflexões: o não-olhar denuncia e alimenta uma sociedade doentia na qual os sujeitos perdem a perspectiva do Outro e de si-mesmos. A realização da humanidade dar-se-ia então “só libertando-se o pensamento da sua fixação na dominação e eliminando-se a violência “(Cohn, 1998). Neste sentido, em nossa interpretação a mentira torna-se ela também em uma manifestação da violência ou, para usar a expressão de Adorno, torna-se a “imoralidade no outro” (Horkheimer & Adorno, 1985, 178). Sob outra perspectiva o assunto é abordado por Hannah Arendt que marcará uma ruptura no padrão weberiano de concepção de poder como visceralmente associado à violência. Para ela, antes pelo contrário, o poder estará ligado a um padrão consensual de acção solidária e não instrumental (10) no qual a verdade é de importância fundamental: “a persuasão e a violência, dirá, podem destruir a verdade, não substituí-la”(11). A questão da verdade torna-se, desta maneira, crucial para o entendimento do poder. E aqui retomamos a pergunta formulada por Arendt: será a política incompatível com a verdade? O problema, como ela identifica, já está no mito platónico da caverna: o homem que vê a luz e vem contar a verdade é desprezado e sofre ameaças. Ora, embora sua noção se prenda à verdade factual, Hannah Arendt também expõe os riscos permanentes para esta diante do poder que manipula e falsifica. No caso dos negócios públicos a “mentira organizada”, como chamaria, é uma arma contra a verdade (12). A opinião e a não verdade serão o requisito do poder. Da primeira surge a retórica com a qual as massas são iludidas e que não se limita ao verbal , mas diz respeito ao visual, ao estético, etc.. A retórica das imagens passa a ser a retórica do ilusionismo. Dessa ilusão fazem parte tanto os iludidos quanto os enganadores. Expressão dessa falsidade encontra-se no próprio carácter efémero das imagens o que seria “um indício expressivo do carácter mentiroso das afirmações públicas concernentes ao mundo dos factos”. Deste modo, para Arendt, a violência não é o meio específico da política, aliás ela é anti-política, no máximo um fenómeno marginal à política e não sua essência. O poder repousa sobre a reunião de homens iguais que partilham sua liberdade – esta sim, o “conteúdo e sentido original da própria coisa política”(Arendt, 1998). Apenas quando se dissocia dessa fonte original é que o poder torna-se em violência e é especialmente entre os privados desse diálogo, isolados e solitários (deracinés), sem participação na esfera pública que reside o germe das acções violentas (13) e das resoluções totalitárias. No caminho do predomínio do cárcere de ferro da razão instrumentalavançou também a construção de uma cultura da violência, entendida como valores e mentalidades que se constroem sobre a relação dialógica não estabelecida, o encontro não realizado, o face a face interditado O desafio, após séculos de domínio desses valores é subvertê-lo e construir uma cultura de paz. Ora, como indica o termo cultura na expressão cultura de paz envolve a mudança de mentalidades e a construção de valores envolvendo a não-violência, a responsabilidade ética, a compaixão, a solidariedade, a paz entre os seres viventes, o desapego, o respeito à vida em todas as suas manifestações, a honestidade, a construção de uma fé que dialoga antes que exclui, a dignidade e, finalmente, o respeito ao espaço público e à cidadania. Logo, cultura de paz constrói-se através de uma educação dos envolvidos no processo. Mesmo quando ela tangencia a luta política, luta por direitos ou pela criação de mecanismos institucionais ela passa necessária e precedentemente pela educação voltada para a criação dos valores acima. Assim o foi para Gandhi e Vinoba na Índia, por exemplo. A prioridade, antes que atingir o alvo da libertação da Índia para o primeiro ou da reforma agrária para o segundo, era a educação e a transformação dos adversários e da população. Logo construir uma cultura de paz implica em focalizar, não o conflito, como é típico na mentalidade de luta, mas as soluções pró-activas na criação de novos valores focados no diálogo que irão ter reflexos na vida privada dos envolvidos assim como no espaço público. É aí que algumas matrizes do pensamento ético do século XX se mostram importantes porque contêm os germes de uma visão acerca dos caminhos para uma cultura de paz e do seu conteúdo ético. As fontes dessa percepção encontram-se presentes em pensadores como Franz Rosenzweig, Martin Buber, Emmanuel Mounier, Paul Ricoeur e Emmanuel Levinas . Para esses filósofos, congregados em torno da “filosofia do encontro” a ética é irredutível ao social e ao político, ao contrário, ela os precede(…). O eixo comum entre eles será o deslocamento ético em relação ao Outro e a retomada em seu pensamento social e político de questões fundamentais como Justiça, Solidariedade, Verdade e Não-Violência(…). 1 Interessante é a posição de Paul Ricoeur, inspirado por Eric Weill abordará a violência como o oposto da linguagem e do discurso coerente (não mentiroso). (Ricoeur, 1991) 2 Apud Muller, 1991. 3 Ver acerca destas últimas Girard, 1990. 4 Vide acerca disso o clássico trabalho de Goffmann, 1974 5 Vide Foucault, 1979 6 Vide acerca disso Mendonça, 1997. 7 Tema posteriormente aprofundado em Adorno, 1964. 8 Aliás não é essa também a abordagem no campo literário feita por Primo Levi em “Isto é um Homem”, de Eli Wiesel em” A Noite “e mais recentemente em José Saramago em “Ensaio sobre a Cegueira” ? 9 Vide Mendonça, 1998:.124. 10 Vide Rouanet. S.Paulo, Introdução. In: Habermas, 1990. 11 Arendt, 1988:.317. 12 Lembremos que a mentira é ela também uma forma de violência que subverte a verdadeira relação com o Outro, na medida que impede a palavra oriunda do livre pensar diante da realidade. Vide também acerca disso Ricoeur, 1991. 13 Vide Arendt,1978. Note-se que a posição de Arendt em relação ao desarreigado aparentemente mostra-se diferente da de Levinas. Para este é o judeu sem raízes que porta a mensagem de acolhimento e não aquele preso à terra como proposto na filosofia heideggeriana. Mas, tanto nos desarreigados de Arendt quanto nos presos ao solo de Levinas (Levinas, 1976) o elemento corruptor e passível de instaurar a violência é a ausência de relações comunitárias reais, isso porque o “deraciné levinasiano”, a exemplo do judeu que vaga pelo mundo, encontra-se em relações comunitárias com o próximo, ao contrário do solitário de Arendt. Vide Arendt, 1978:589. Vale também consultar Bucks, 1997. Kátia Mendonça, Doutora em Ciência Política pela USP, Universidade de S. Paulo

SINDICATO DE PEDREIRO

O nome maçonaria, ou franco-maçonaria, deriva do termo francês franc-maçonnerie, “pedreiros livres” ou do Latim "Sculptores Lapidum Liberorum". Sua origem é localizada nas corporações de ofício dos pedreiros da Idade Média, no final do século XIV. Naquela época, não havia escolas capazes de ensinar as técnicas da construção em pedra, utilizadas principalmente em catedrais. Somente nas corporações, também chamadas guildas, aprendizes e mestres dividiam a ciência do talhe e se reuniam após o expediente para discutir o andamento das obras e defender sua profissão, como num sindicato. Levavam às reuniões os instrumentos de trabalho, utilizados na composição dos projectos arquitectónicos (esquadro e compasso) ou na actividade braçal (avental, malho e cinzel). Assim surgia a “maçonaria operativa”, preocupada com coisas práticas e restritas ao ofício. Alguns estudiosos afirmam que a sociedade iniciática é muito mais antiga, já que símbolos utilizados em rituais maçónicos foram encontrados em túmulos e pirâmides egípcias há sete mil anos. Somente após o Renascimento, com a fundação das primeiras universidades europeias, as reuniões maçónicas tornaram-se mais refinadas, admitindo discussões filosóficas e literárias. Os primeiros arquitectos e engenheiros a deixar as salas de aula encontravam um mercado de trabalho com todas as portas fechadas. As guildas formavam uma espécie de cartel, impedindo que profissionais de fora conseguissem emprego. De tanto insistir, os académicos foram aceites paulatinamente na maçonaria e levaram sua erudição aos encontros. Desde então, a ordem propõe trabalhos fraternos e colectivos para assegurar a evolução espiritual dos seres humanos. Recebe o nome de “maçonaria especulativa ou filosófica”. Os homens passam, a Ordem permanece. A maçonaria nunca ficou alheia aos processos de mudanças que aconteceram e marcaram as eras ou fases vivenciadas neste mundo. Neste momento estamos atravessando uma grande mudança na humanidade, uma Globalização total, uma abertura que está exigindo um grande desenvolvimento cultural e mudanças comportamentais. Instituições seculares como, por exemplo, a Igreja Católica e a Maçonaria estão sendo questionadas pela Sociedade do seu real papel no Terceiro Milénio e deverão adequar-se a um novo comportamento. Devemos responder aos anseios da sociedade contemporânea para adquirirmos o direito de coexistir em harmonia. Assim, acreditamos que chegou o momento de uma reformulação e actualização, não da filosofia, dos ritos ou de rituais, mas sim da nossa missão na melhoria da vida sócio-económica-cultural do ser humano a nível mundial. Devemos resgatar nossas origens históricas, na sua essência mais pura, para redireccionarmos nossos conceitos de participação no contexto social... O Estado Maçónico deve ser constituído e aberto a participação do seu povo. A Ordem Política Ideal é o Estado, a sociedade e o homem justo e perfeito. Esta foi a bandeira maçónica no Iluminismo, datado do século XVII. Montesquieu na divisão dos Poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - seccionou o absolutismo (o poder total), fragmentando-o na presunção de enfraquecê-lo. A Ideologia em maçónica – é o padrão político que induz visões normativas à vida política. No III Milénio deverá ser recriado o Estado Maçónico Democrático. O princípio da democracia é o livre arbítrio e a constante mudança de forças no poder. Devemos ter um aspecto REVOLUCIONÁRIO de ideologias maçónicas para criar a SOCIEDADE MAÇÓNICA DEMOCRÁTICA. A independência dos Poderes constituídos, criando a Assembleia Legislativa, nos moldes já empregados, com sucesso, por várias Potências no Mundo, além de também manter um Poder Judiciário em todas as suas particularidades e independência. O Estado Maçónico é um serviço, um instrumento, e um meio para alcançar o Pleno Maçónico. A parte está no todo e o todo está na parte - o MAÇON. Ir. Heinz Roland JAKOBI, médico e escritor, M.I., 33° R.E.A.A., Past-Grão Mestre Adjunto, Académico da Academia de Letras de Rondônia ACLER, da Academia Brasileira de Estudos e Pesquisas Literárias, da Academia Pan-americana Maçônica e da Academia Maçônica de Letras de Randónia AMLER. Livros Publicados: Médicos: O Parto na água - Cornellia Enning, Ed. Manole; Telemedicina: uma nova perspectiva para a saúde de Rondônia; Maçónicos "Como Gerenciar uma Loja Maçónica" "Compendio Maçónico - Graus Simbólicos" Volumes 1, 2 e 3 da Editora "A Trolha".

terça-feira, 2 de junho de 2009

A PIRATARIA NOS MARES DA SOMÁLIA

A história diz-nos que há sempre duas versões a considerar! Quem estará certo sobre este assunto? Na verdade nunca há apenas um lado para analisar. De novo, tudo se passa na costa oriental da África, nos mares do Índico, onde também nós, portugueses, já tivemos o nosso tráfico. O artigo foi escrito por um jornalista do The Independent, Johann Hari, e publicado no dia 15 de Abril. Quanto ao Marcus Rediker é um conhecido historiador americano, originário do Kentucky, e actual director do departamento de história da Universidade de Pittsburg. Ele é bastante conhecido, e tido por um dos maiores conhecedores da Pirataria e do Atlântico. Vários livros dele foram traduzidos em diferentes línguas, inclusive em português. Embora editado em inglês, também tem sido publicado em francês : (2005) L'Hydre aux mille têtes. Une histoire de l'Atlantique révolutionnaire, Paris, Éditions Amsterdam e (2008) Pirates de tous les pays. L'âge d'or de la piraterie atlantique, Paris, ÉditionLibertalia entre outros. Estão-nos mentindo sobre os piratas. Quem imaginaria que em 2009, os governos do mundo declarariam uma nova Guerra aos Piratas? No instante em que você lê esse artigo, a Marinha Real Inglesa - e navios de mais 12 nações, dos EUA à China - navega rumo aos mares da Somália, para capturar homens que ainda vemos como vilões de pantomima, com papagaio no ombro. Mais algumas horas e estarão bombardeando navios e, em seguida, perseguirão os piratas em terra, na terra de um dos países mais miseráveis do planeta. Por trás dessa estranha história de fantasia, há um escândalo muito real e jamais contado. Os miseráveis que os governos "ocidentais" estão rotulando como "uma das maiores ameaças do nosso tempo" têm uma história extraordinária a contar - e, se não têm toda a razão, têm pelo menos muita razão. Os piratas jamais foram exactamente o que pensamos que fossem. Na "era de ouro dos piratas" - de 1650 a 1730 - o governo britânico criou, como recurso de propaganda, a imagem do pirata selvagem, sem propósito, o Barba Azul que ainda sobrevive. Muita gente sempre soube disso e muitos sempre suspeitaram da farsa: afinal, os piratas foram muitas vezes salvos das galés, nos braços de multidões que os defendiam e apoiavam. Porquê? O que os pobres sabiam, que nunca soubemos? O que viam, que nós não vemos? Em seu livro Villans Of All Nations, o historiador Marcus Rediker começa a revelar segredos muito importantes. Se você fosse mercador ou marinheiro empregado nos navios mercantes naqueles dias - se vivesse nas docas do East End de Londres, se fosse jovem e vivesse faminto - você fatalmente acabaria embarcado num inferno flutuante, de grandes velas. Teria de trabalhar sem descanso, sempre faminto e sem dormir. E, se rebelasse, lá estavam o todo-poderoso comandante e seu chicote [ing. the Cat O' Nine Tails, lit. "o Gato de nove rabos"]. Se você insistisse, era a prancha e os tubarões. E ao final de meses ou anos dessa vida, seu salário quase sempre lhe era roubado. Os piratas foram os primeiros que se rebelaram contra esse mundo. Amotinavam-se nos navios e acabaram por criar um modo diferente de trabalhar nos mares do mundo. com os motins, conseguiam apropriar-se dos navios; depois, os piratas elegiam seus capitães e comandantes, e todas as decisões eram tomadas colectivamente; e aboliram a tortura. Os butins eram partilhados entre todos, solução que, nas palavras, foi "um dos planos mais igualitários para distribuição de recursos que havia em todo o mundo, no século 18". Acolhiam a bordo, como iguais, muitos escravos africanos foragidos. Os piratas mostraram "muito claramente - e muito subversivamente - que os navios não precisavam ser comandados com opressão e brutalidade, como fazia a Marinha Real Inglesa." Por isso eram vistos como heróis românticos, embora sempre fossem ladrões improdutivos. As palavras de um pirata cuja voz perde-se no tempo, um jovem inglês chamado William Scott, volta a ecoar hoje, nessa pirataria new age que está em todas as televisões e jornais do planeta. Pouco antes de ser enforcado em Charleston, Carolina do Sul, Scott disse: " O que fiz, fiz para não morrer. Não encontrei outra saída, além da pirataria, para sobreviver". O governo da Somália entrou em colapso em 1991. Nove milhões de somalianos passam fome desde então. E todos e tudo o que há de pior no mundo ocidental rapidamente viu, nessa desgraça, a oportunidade para assaltar o país e roubar de lá o que houvesse. Ao mesmo tempo, viram nos mares da Somália o local ideal onde jogar todo o lixo nuclear do planeta. Exactamente isso: lixo atómico. Mal o governo se desfez (e os ricos partiram), começaram a aparecer misteriosos navios europeus no litoral da Somália, que jogavam ao mar contentores e barris enormes. A população do litoral começou a adoecer. No começo, erupções de pele, náuseas e bebés malformados. Então, com o tsunami de 2005, centenas de barris enferrujados e com vazamentos apareceram em diferentes pontos do litoral. Muita gente apresentou sintomas de contaminação por radiação e houve 300 mortes. Quem conta é Ahmedou Ould-Abdallah, enviado da ONU à Somália: "Alguém está jogando lixo atómico no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva directamente a hospitais e indústrias europeias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarrega-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse "negócio", ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação nem prevenção". Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma das suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus stocks naturais de pescado pela super-exploração e, agora está super-explorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de Atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome. Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 Kilómetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália". Esse é o contexto do qual nasceram os "piratas" somalianos. São pescadores somalianos, que capturam barcos, como tentativa de assustar e dissuadir os grandes pesqueiros; ou, pelo menos como meio de extrair deles alguma espécie de compensação. Os somalianos chamam-se "Guarda Costeira Voluntária da Somália".. A maioria dos somalianos os conhecem sob essa designação. [Matéria importante sobre isso, em The Armada is not a solution".] Pesquisa divulgada pelo site somaliano independente WardheerNews informa que 70% dos somalianos aprovam firmemente a pirataria como forma de defesa nacional". Claro que nada justifica a prática de fazer reféns. Claro, também, que há gangsters misturados nessa luta - por exemplo, os que assaltaram os carregamentos de comida do World Food Programme. Mas em entrevista por telefone, um dos líderes dos piratas, Segule Ali disse: "Não somos bandidos do mar. Bandidos do mar são os pesqueiros clandestinos que saqueiam nosso peixe." William Scott entenderia perfeitamente. Porque os europeus supõem que os somalianos deveriam deixar-se matar de fome passivamente pelas praias, afogados no lixo tóxico europeu, e assistir passivamente os pesqueiros europeus (entre outros) que pescam o peixe que, depois, os europeus comem elegantemente nos restaurantes de Londres, Paris ou Roma? A Europa nada fez, por muito tempo. Mas quando alguns pescadores reagiram e intrometeram-se no caminho pelo qual passa 20% do petróleo do mundo... imediatamente a Europa despachou para lá os seus navios de guerra. A história da guerra contra a pirataria em 2009 está muito mais claramente narrada por outro pirata, que viveu e morreu no século 4 aC. Foi preso e levado à presença de Alexandre, o Grande, que lhe perguntou "o que pretendia, fazendo-se de senhor dos mares." O pirata riu e respondeu: "O mesmo que você, fazendo-se senhor das terras; mas, porque meu navio é pequeno, sou chamado ladrão; e você, que comanda uma grande frota, é chamado de imperador. "Hoje, outra vez, a grande frota europeia lança-se ao mar, rumo à Somália - mas... quem é o ladrão?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

SEBASTIÃO – O ETERNO DESEJADO

Louco, sim, louco, porque quis grandeza Qual a Sorte a não dá. Não coube em mim minha certeza; Por isso onde o areal está Ficou meu ser que houve, não o que há. Minha loucura, outros que me a tomem Com o que nela ia. Sem a loucura que é o homem Mais do que a besta sadia, Cadáver adiado que procria? Fernando Pessoa, in Mensagem D. Sebastião, décimo-sexto rei de Portugal, filho póstumo do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V, nasceu em Lisboa em 20 de Janeiro de 1554. Sem inclinação alguma ou vontade até, relativamente aos tratos do reino, desde jovem se sentiu atraído pelas gestas militares no Norte de África e outros grandes feitos de armas dos portugueses de antanho. Sem cuidar de dar ouvidos aos avisos e aos conselhos da Corte, endividou a coroa e o reino ao organizar uma expedição militar a Alcácer-Quibir, onde veio a desaparecer em combate numa manhã de nevoeiro em 4 de Agosto de 1578, montado num cavalo branco e pelos vistos alado, sem deixar sucessor. Por tal facto, deixou o destino traçado de forma a Portugal passar a breve trecho para a posse da coroa espanhola, como veio a acontecer. D. João III produziu dez filhos legítimos e um bastardo, porém, todos se finaram em vida de seu pai, só o príncipe D. João, que houvera nascido em 1537, conseguiu alcançar a adolescência e por tal sorte, assim que perfez quinze radiosas primaveras o seu pai casou-o com D. Joana, filha do imperador Carlos V. No entanto, o destino funesto que alcançara os outros filhos do monarca, também não o poupou. Desta feita, este príncipe veio a falecer em Janeiro de 1554, deixando a sua consorte grávida, já próximo do termo da gravidez. A corte e a nação esperavam com ansiedade o nascimento do neto de D. João III, uma vez que a coroa encontrava-se ameaçada de ficar vacante e, uma clausula fatal inscrita no contrato nupcial da infanta D. Maria de Portugal com o príncipe D. Filipe de Castela, atribuía aos filhos deste enlace a herança da coroa portuguesa no caso de não sobrevirem desta herdeiros directos. Prefigurava-se, desta forma, a famigerada união ibérica, temida desde os alvores do reino português e sempre detestada pelos seus nacionais. Assim, a 20 de Janeiro desse ano de 1554, foi com grande júbilo que foi acolhida por todos os portugueses a notícia de que acabara de nascer um filho da realeza que ia receber por nome Sebastião, por ter nascido no dia em que a igreja celebra esse santo padroeiro. Dada a ansiedade havida no reino até então por tal sorte, o povo cognominou o futuro rei de «O Desejado», como que declarando-o: «o salvador da pátria». Entrementes, D. João III pouco mais tempo sobreviveu. Finou-se três anos após, deixando a herança da coroa a esse débil moçoilo, única esperança da continuidade da nacionalidade portuguesa. Por tais artes, D. Sebastião, começou, pois, a reinar em 11 de Junho de 1557, com três anos e meio de idade, tendo para tal, sido aclamado rei. Levantaram-se dúvidas a respeito da regência que o cardeal D. Henrique reclamava para si, como tio-avô do jovem monarca. No entanto, a avó, a rainha viúva D. Catarina, assumiu tal encargo em virtude dum testamento mais ou menos autêntico de D. João III encontrado entrementes por artes do destino. Porém, D. Henrique intrigava e a rainha para acabar com esse empecilho, ocorreu dizer-lhe que lhe entregava completamente a regência do reino. Apanhado de surpresa {ou de calças na mão, como é uso dizer-se} o cardeal infante não se atreveu a aceitar, pelo que, a sua recusa foi desde logo aceite e ratificada pelas cortes, que para tal fim se reuniram, ficando então D. Catarina na posse indisputável e plena da regência. Contudo, D. Henrique tinha um poderoso aliado, que eram os jesuítas, a cuja astúcia confiou o êxito da sua causa. Por estas artes, contra eles D. Catarina nada pôde concretizar. Os jesuítas tanto intrigaram que a rainha, em 1567, depois de 10 anos de regência, viu-se obrigada a cedê-la definitivamente ao cardeal D. Henrique, regência esta que durou tão só até 1568, ano em que D. Sebastião tendo completado 14 anos de idade, foi declarado maior. A regência do cardeal durara apenas um ano. Quando assume o poder, efectivamente, o povo, entretanto, havia entrosado dentro de si pouca fé num soberano imaturo, pouco dado ao estudo da sua época e às coisas do espírito, de hábitos efeminados e oriundo de uma família no seio da qual as «facadas nas costas», as traições, eram coisa natural. Além disso, queixavam-se das constantes ausências do soberano da capital e com mais razão se queixaram ainda, quando assolada pela terrível peste de 1569, D. Sebastião os abandonou, fugindo da epidemia com evidente alarde da sua cobardia. No decorrer de uma das suas viagens pela província, em fuga de mais uma peste que grassava em Lisboa, praticou as maiores bizarrias, mandando, por exemplo, abrir os túmulos dos reis seus antepassados para se extasiar diante dos ossos dos que tinham sido guerreiros. A sua saúde era débil, no entanto, voluntarioso, caprichoso, não dava ouvidos à sabedoria, aos conselhos dos mais avisados. Interessava-se sim, com fervor, denodadamente e apenas, pela religião e pela guerra. Desfasado do seu tempo e no tempo, anacronicamente pretendia salvar os mouros da perdição da fé de Mafoma e conduzi-los à redenção católica, ao rebanho de Cristo. Era um jovem infeliz. Ficara órfão de pai, ainda antes de nascer e a sua mãe abalara para Espanha, agastada por lhe não ter sido confiada a regência, quando morreu D. João III. A rainha D. Catarina, avó do monarca, embora tivesse resistido algum tempo, acabou por aceitar a nomeação dum jesuíta para mestre do seu neto. A Companhia de Jesus era já nesse tempo um potentado. O preceptor foi o padre Luís Gonçalves da Câmara. Para aio foi escolhido D. Aleixo de Menezes, homem de espírito superior. Talvez sem o querer, D. Aleixo contribuiu para completar a educação do jesuíta. O padre Câmara fez de D. Sebastião um monge e D. Aleixo, dele, um militar brioso. Foi dessa mistura «explosiva», dessas duas educações combinadas, que resultou um monge militar coroado, uma espécie de cruzado fora de moda que arrastou Portugal para a sua ultima cruzada, na qual ele se perdeu e consigo uma nação com a nata da fidalguia lusitana. Rapaz medianamente inteligente, muito impressionável, D. Sebastião era por isso mais acessível do que qualquer outro à influência de todas estas causas. Dividia o seu tempo pelas montarias, pelos «dolorosos» exercícios religiosos e pela leitura de livros de história, principalmente da história de Portugal. Segundo as crónicas, D. Sebastião nada mais fez na cama senão sornar. Isto, nos poucos anos que por cá andou nesta vida terrena, uma vez que, quando em bebé, certamente que a urinou como é normal fazerem os rebentos em crescimento. Consta ainda que, o jovem monarca padecia de um corrimento venéreo crónico que o teria impedido de assegurar a continuação da dinastia, para além de ser avesso ao sexo oposto, não se lhe tendo conhecido por tal facto, jovem alguma próxima de si. D. Sebastião que em nada se importava com os negócios públicos, que tudo deixava entregue aos seus ministros. No seu curto reinado, o rei limitou-se a pouco mais que esvaziar os cofres do estado por ter contraído vultuosos empréstimos a fim de concretizar a sua obsessão relativamente à mourama. Quando decidiu encetar a desgraçada empresa ao norte de África, o bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório, que não desaprovava a ideia de uma cruzada contra os mouros, considerou inconveniente de todo a ocasião, devendo-se aproveitar o momento em que houvesse discórdias graves entre a mourama para tal iniciativa. Mau grado os conselhos avisados de vários soberanos e outros, o monarca decidiu empreender a cruzada. Se a empresa era insensata, o modo de a levar a efeito foi mais insensato ainda. Na arrecadação do dinheiro necessário para a expedição cometeram-se as maiores arbitrariedades que irritaram de sobremaneira o povo. Depois arregimentaram-se terços espanhóis, alemães e irlandeses a peso de ouro, com todos os inconvenientes das tropas mercenárias, tendo ainda sido recrutados no reino uns nove mil soldados bisonhos, fracos, incipientes, sem treino militar, que de pouco serviam. O corpo de voluntários da nobreza era brilhante, pela bravura dos que o compunham e ao mesmo tempo indisciplinado. Além disso, equipou-se com um luxo manifestamente impróprio para uma expedição militar. D. Sebastião, não só tolerou esse luxo, apesar das severas pragmáticas que promulgara em tempo, mas animou-o. O rei nomeou general da armada D. Luís de Ataíde, homem que sempre se havia oposto a esta temerária aventura; por isso mesmo o mandou por vice-rei para a Índia e deu o comando a D. Diogo de Sousa. Varrido de todo, completamente desvairado, muniu-se da espada de D. Afonso Henriques que mandou pedir a Santa Cruz de Coimbra, mais uma coroa de ouro que devia colocar na cabeça quando se proclamasse imperador de Marrocos. Soberbamente ajaezado {ele e a sua alimária} largou ferro de Lisboa em 25 de Junho com uma armada de 800 velas e um exército de 18000 homens, composto por soldados de todas as proveniências, que já em Lisboa tinham travado gravíssimas rixas entre eles e com populares. Ao chegar a África, a doidice agravou-se. Para tomar Larache de assalto, que é um porto de mar, desembarcou em Tânger a 17 de Julho de 1578 e seguiu por terra, passando por Arzila e Alcácer Quibir. A marcha em Agosto era pesadíssima para a soldadesca, que chegou morta de cansaço a Alcácer Quibir. Seguiu-se a batalha desastrosa de 4 de Agosto. Acrescente-se que D. Sebastião, quando sentiu o cheiro da pólvora, esqueceu tudo e todos. Os seus deveres de comandante, as ordens que dera. Dando esporas à montada, lançou-se contra o inimigo brandindo o montante de Afonso Henriques. Quando a derrota começou, D. Sebastião não deu por ela, só se apercebendo quando as hostes portuguesas começaram em completa debandada. Acompanhado apenas por uns poucos fidalgos, lançou-se sobre o inimigo procurando salvar a artilharia que os marroquinos levavam. O povo não quis acreditar na sua morte e formou-se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas uma seita, que se tornou conhecida por Sebastianistas. A morte do monarca acabou por ser oficialmente reconhecida. Tal facto inflectiu de forma marcante o curso da história de Portugal sobrevinda. Marcou de tal sorte o imaginário lusitano, que ainda hoje os portugueses anseiam por um «D. Sebastião» que os salve do crónico desgoverno que de há séculos assola a nação. Os candidatos, esses, são sempre mais que as mães. Alguns até, nem sabem quem são as mães. Uns, em certas épocas, que o imaginário colectivo retira do meio dos destroços nebuloso da desgraça, outros, candidatos efectivos por partidos, travestidos de «sebastiões». Invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, têm sido sempre desmascarados pelo povo que antes, iludido, foi atrás deles. Depois, volta de novo a acalentar que numa manhã de nevoeiro apareça o dito cujo. Povo esperançoso este. Em 1582 o suposto cadáver do rei, veio para Portugal onde foi sepultado num túmulo da igreja de Belém, nele se escrevendo um pequeno epitáfio em latim, que deixa transparecer a dúvida, conforme diz: Aqui jaz, si vera est fama ... Pedro Manuel Pereira

quarta-feira, 27 de maio de 2009

DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO DA REGIÃO DO ALGARVE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX

Portugal entra no século XX com uma população recenseada em 5 milhões de habitantes e com uma economia fundamentalmente rural. O sector primário predominava em todas as regiões, inclusivamente o Algarve. Era uma agricultura mais colectora do que produtora, baseada em meia dúzia de produtos de exploração secular tradicional, quase à base de frutos. Se o panorama económico era idêntico em todas as regiões do País, o mesmo se passava relativamente às taxas de natalidade e de mortalidade, sendo que a mortalidade infantil era particularmente elevada, devido principalmente aos surtos epidémicos e às más condições de cuidados pré-natais. Com o tempo, vai-se assistir no Algarve a uma intensificação do movimento de parcelamento da propriedade e a um lento e limitado progresso de mecanização na agricultura, a par de um fraco rendimento proveniente da actividade laboral. Como reflexo, vai-se acentuar o fluxo emigratório para as grandes cidades e suas áreas industrializadas envolventes. Caso exemplar é o que se vai verificar relativamente à margem sul do Tejo, principalmente, Almada e Barreiro, assumindo carácter relevante o verificado nesta última, então vila, atraída a força de trabalho pelas oficinas dos caminhos de ferro, indústria corticeira e Companhia União Fabril (C.U.F.), complexo fabril inaugurado em 1908. Se o panorama agrícola era particularmente preocupante, já o sector industrial, nas áreas das indústrias corticeira - tendo por base Silves - e a indústria conserveira, disseminada por todo o Algarve litoral, registavam progressos, dada a procura destes produtos nos mercados externos, com especial relevância para a Espanha, a Alemanha, Grã-Bretanha, Brasil e alguns países do Norte da Europa, muito embora estas indústrias funcionassem em grande parte, com uma mão-de-obra sazonal, sem emprego garantido todo o ano. Em linhas gerais e muito resumidamente, será este o panorama económico com que se defrontarão os obreiros da República, ao tomarem as rédeas do poder a partir da Revolução do 5 de Outubro de 1910. É neste contexto que um eminente republicano, algarvio, hoje, injustamente pouco recordado, de seu nome Thomaz António da Guarda Cabreira, irá, enquanto parlamentar e ministro das Finanças, apresentar aos seus eleitores do circulo de Faro, em 1914, um relatório de propostas legislativas de que destacamos como exemplo, a criação de escolas primárias agrícolas de carácter regional, criação de um posto agrário no distrito de Faro com campo experimental para as culturas algarvias, uma Escola Móvel Agrícola, criação de zonas de turismo com regulamentação do jogo e construção de bairros económicos. De salientar ainda, que Thomaz Cabreira, organizou em 1915 o 1º Congresso Regional Algarvio, que decorreu no Casino da Praia da Rocha, localizado onde hoje se encontra o Hotel Oriental, onde estes temas foram debatidos. A hemorragia de população vai continuar a ser um facto durante toda a República, só abrandando nos anos da 1ª Grande Guerra Mundial. Sai-se desta região para Lisboa e suas áreas envolventes, mas também para o estrangeiro, sobretudo para a América Latina. As remessas dos emigrantes, desta e de outras regiões, permitirão ao País viver acima do que produz. No entanto, os anos de guerra serão anos de penúria, agravados em 1917- -1918, com a intervenção directa de Portugal no conflito mundial. De então e até ao golpe de Estado que instaurou a ditadura militar em 28 de Maio de 1926, as condições de vida associadas ao estado económico da Nação, continuaram a agravar-se. A República não teve a capacidade, de solucionar os problemas do atraso estrutural crónico do País, mercê de factores conjunturais quer externos quer internos. A República nasceu e morreu com o modelo económico saído da crise resultante do Ultimatum britânico de 1890, o qual se irá prolongar até cerca de 1930. O modelo económico anterior vai-se extinguir, na transição para o modelo corporativista e proteccionista do Estado Novo, após o controlo do poder do Estado por Salazar. O modelo económico corporativo, sob a égide de Salazar, a par de uma política de monopólios, proteccionista, irá traçar o rumo da economia portuguesa nas décadas seguintes. Será com base nas indústrias conserveira e corticeira que o Algarve terá a sua quota parte no desenvolvimento económico do País. De salientar que muitos dos complexos fabris conserveiros possuíam um sistema assistencial de creches e bairros operários. Por seu turno, o Estado Novo construiu um pouco por toda a região, bairros económicos. Porém, o problema do desemprego, mau grado a «válvula de escape» da emigração, embora menos intensa desde finais dos anos 20, constituirá um verdadeiro flagelo. Trabalha-se sazonalmente nas industrias da região, na agricultura, mas a par disso todos os anos, no tempo das ceifas, saem milhares de algarvios para os campos do Alentejo. Com a 2ª Grande Guerra Mundial, nova crise económica vai apertar, muito embora seja mais por falta de bens, os tradicionalmente importados, que por falta de trabalho, como no caso da indústria conserveira, que nesse período de tempo {1939-45}, atingiu o pico mais alto da sua produção, devido fundamentalmente à exportação para os países beligerantes, quer os do Eixo, quer os Aliados, de acordo com a política falsamente neutral de Salazar. Terminado o conflito, muitas dessas indústrias entraram em recessão, em parte devido à falta do mercado da guerra e por outro lado devido à concorrência estrangeira no mercado internacional. Só a partir dos anos 60 do século XX, devido à pressão do boom económico verificado na Europa, as condições económicas e de vida irão mudar substancialmente no Algarve. Pedro Manuel Pereira

terça-feira, 26 de maio de 2009

PALMA INACIO – UM HERÓI ALGARVIO ESQUECIDO

Hermínio da Palma Inácio nasceu em 29 de Janeiro de 1922, em Ferragudo, Lagoa, Filho de José Inácio e de Custódia da Palma. Concluído o curso industrial na Escola de João de Deus, em Silves, alistou-se como voluntário na Força Aérea, onde tirou o curso de mecânico de aeronaves e, de seguida, o de piloto civil para a aviação comercial. Durante os quatro anos em que esteve colocado na base aérea de Sintra, travou contactos com os círculos oposicionistas a Salazar, através do capitão Carlos Vilhena. Estes encontros iriam intensificar-se já depois de Palma Inácio ter saído da Base Aérea, por via de um acidente com uma avioneta, no Alentejo, quando transportava alimentos para Ferragudo, em plena II Guerra Mundial, numa altura em que vigorava o racionamento de alimentos. Expulso da Força Aérea, após vinte dias de prisão, Palma Inácio conseguiu emprego na companhia aérea KLM, no aeroporto de Lisboa. Em 1947, participou numa tentativa de golpe de estado com vários oficiais generais, que foi abortada à última hora. Na sequência deste facto, acaba preso sete meses depois. Na manhã de 16 de Maio de 1949, consegue evadir-se e alcança Casablanca, em Marrocos. Depois de muitas peripécias, fixa-se como instrutor de pilotos em Northampton nos Estados Unidos da América onde durante cinco anos, viveu clandestinamente, acabando por ser detectado em 1955 pelos serviços de emigração que determinam a sua saída dos EUA. Parte para o Brasil onde vem a conhecer os membros mais destacados da oposição de entre os quais, Henrique Galvão e Humberto Delgado. Na manhã de 10 de Novembro de 1961, véspera das eleições gerais em Portugal, Palma Inácio e mais quatro operacionais, entram num avião da TAP em Casablanca, misturam-se entre os dezanove passageiros americanos, belgas, espanhóis e portugueses e a respectiva tripulação constituída por sete portugueses e tomam o avião que sobrevoou Lisboa a baixa altitude lançando grandes quantidades de panfletos subversivos, assinados pelo capitão Henrique Galvão, num voo rasteiro junto á costa, desde Faro, vindo a aterrar em Tânger. Palma Inácio, passa à História pelo facto de protagonizar o primeiro desvio de um avião para fins políticos. Outra das suas façanhas, de que muitos portugueses ainda se lembram, foi o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz. Pouco antes das dezasseis horas, hora de encerramento do Banco, consumou-se o assalto dinheiro {29.274.390$00} foi guardado em três sacos e os revolucionários abandonam a Figueira da Foz rumo ao aeródromo de Cernache onde embarcam numa avioneta que os leva a Vila do Bispo, partindo daí para Marrocos. Tratou-se de uma acção política da LUAR {Liga de Unidade e Acção Revolucionária}, cujo comando militar foi confiado a Palma Inácio. Porém, as notas roubadas não possuíam curso legal. Metade da quantia, ainda não posta a circular, foi identificado, inviabilizando a sua transacção. No entanto, ainda foi possível, transaccionar uma quantia, com a qual se adquiriram, na Checoslováquia, armas que foram distribuídas por armazéns da LUAR, na Bélgica, França e Portugal. A restante ficou guardada num armazém em Paris ao cuidado de um personagem de pseudónimo «Canário», que nunca o entregou à organização, vindo a saber-se depois do 25 de Abril que se tratava de alguém infiltrado com ligações à PIDE.

Pedro Manuel Pereira

sexta-feira, 22 de maio de 2009

DO PAPADO E SUA VIDA DE FÉ

Para quem se debruçar sobre a História do Cristianismo e da Igreja de Roma em especial, o facto mais evidente, transversal à mesma, é o facto dos papas desde sempre e até à Idade Moderna, terem sido «soberanos de soberanos» e territórios. Factos históricos como a criação do Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição) depõem contra a face humanista e do «Bom Pastor»; o papa, os papas da História da Igreja. Sinistra instituição, que em algumas regiões vigorou até ao século XIX. No caso de Portugal, perdurou até à Revolução Liberal de 1820. A Inquisição ou o Santo Ofício – tenebroso e sanguinário tribunal católico, estabelecido por ordem e mando do papa Inocêncio III, que deixou a sua marca para a posteridade, não só pela criação dessa instituição, mas também pelo massacre dos huguenotes, acontecimento passado à História como a «Noite de São Bartolomeu», por ter sido realizado na noite de 23 para 24 de Agosto de 1572, no qual milhares de protestantes, homens, mulheres e crianças, pereceram vítimas dos crimes e massacres mais hediondos perpetrados por católicos. O culminar dos processos movidos contra os indivíduos pela Inquisição, desembocava em autos-de-fé, onde, em locais públicos eram proclamadas e executadas as sentenças proferidas por essa medonha «corporação». Os condenados eram em geral, judeus, cristãos-novos, heréticos e os acusados de bruxaria. É claro que, muitas vezes essas acusações serviam para encobrir outras razões bem diversas, que iam da simples inveja, à ganância pelos bens das vítimas por parte dos inquisidores. Normalmente os condenados acabavam na fogueira, desterrados, ou, com um bocado de sorte, condenados a açoites ou penas de prisão. Os condenados ou penitentes que iam ser queimados eram vestidos com uma túnica ou «sambenito», um hábito amarelo e vermelho, que se enfiava pela cabeça. O período de maior número de autos-de-fé, sobretudo em Espanha e Portugal, decorreu do século XV e XVIII. Historicamente, podemos dizer, que a Inquisição surgiu por ocasião do Concílio de Verona, Itália, que ordenou aos bispos lombardos que entregassem à Justiça os heréticos que se recusassem a converter-se. Este facto ocorreu no século XII, em 1183, no Languedoc, França, como medida contra os albigenses, naturais de Albi, considerados hereges do sul da França, ou valdenses, membros de uma seita herética fundada por Pedro Valdo, na Provença, também em França. A causa fundamental residiu no facto do ilustre francês Pedro Valdo se ter insurgido publicamente contra a corrupção que grassava no seio da Igreja. Mas, o maior crime dos albigenses ou valdenses, o considerado crime capital, era pregarem a liberdade de pensamento, o desrespeito à autoridade papal, a crítica e a oposição actuante face à tirania pontifícia, às suas pretensões, às suas teorias, aos seus monstruosos vícios. Mas os valdenses não foram prontamente exterminados, embora tenham sido ferozmente trucidados os que caíram prisioneiros. Inocêncio III, que havia iniciado a Inquisição, organizou, depois, nova expedição, assaltando as províncias do Languedoc, onde foram cometidos os mais hediondos atentados, tendo sido chacinados os habitantes, saqueadas as cidades, incendiadas as aldeias e devastadas as herdades. Foi na acção directa nesta verdadeira insurreição da inteligência humana contra o despotismo teocrático dos papas, que São Domingos, o «queimador de hereges», conquistou os seus principais créditos de bem-aventurado. Os dois maiores inquisidores que a história regista são espanhóis. Um, Tomas de TORQUEMADA, padre dominicano, que dirigiu durante 14 anos (1484 a 1498) as operações do Santo Ofício. É famoso por sua crueldade e o seu nome confunde-se na história na lembrança dessa terrível; instituição, que foi a Inquisição. - Por causa deste inquisidor os judeus foram expulsos de Espanha, 10000 vítimas foram enviadas para as fogueiras, 97000 confiscações foram feitas e cerca de 114000 famílias foram vitimadas. Outro grande inquisidor foi o cardeal Francisco Ximenes ou Jimenes (1436-1517), ministro de Espanha. Mas também de Portugal os judeus tiveram de fugir {os que conseguiram} e outros mortos, presos, desterrados e os seus bens confiscados, a partir do reinado de D. Manuel I, «O Venturoso». Sintomaticamente, foi a partir da sua expulsão que o império português começou o seu inexorável declínio. Procuramos fazer um levantamento das vítimas da Inquisição e, num rápido apanhado, quase que pudemos compor uma lista. De fato, não há mês do ano, em que não se destaque um grande nome vítima do Santo Oficio. Salientem-se os mais ilustres: 1414, Constança, grão-ducado de Baden, concílio que condenou, à fogueira, João Huss (1369-1415), reformador checo, precursor da Reforma, movimento renovador da Igreja e do Clero; 1431, nas noites de 23 e 24 Maio de 1431, em Rouen, capital da Normandia, França, é queimada viva a médium Joana d'Arc, a Donzella d'Órleans, heroína francesa (1412-1431) «por ter relação com Satanás», segundo denúncia do clero da época. 1498, 4 de Março, data em que é queimado vivo, com mais dois dominicanos, seus partidários, Girolamo Savonarola, pregador italiano da Ordem dos Dominicanos (1452-1498), excomungado, por falsas acusações de heresias, pelo papa Alexandre VI. 1553, 27 de Outubro, Calvino manda queimar vivo, em Genebra, Suíça, o infeliz Miguel Servet, médico e teólogo espanhol (1509-1553). Em 1572, no mês de Agosto foram degolados em Paris, na célebre noite de São Bartolomeu, 10000 franceses e, na mesma ocasião, nas províncias, outros 40.000 franceses calvinistas, com aprovação do Papa Gregório XIII. 1600, 16 de Janeiro, Giordano Bruno, filósofo italiano (1550-1600), que abandonou a Ordem dos Dominicanos, ouve a leitura de sua sentença de morte; e, em 17 de Fevereiro desse mesmo ano, é queimado vivo. Em 1616, a 5 de Março, a obra de Copérnico é condenada pela Congregação do Index Librorum Prohibitorum, o chamado rol dois livros proibidos, fundado em Roma, no século XVI. 1654, 29 de Junho, em Cuenca, Espanha, num auto-de-fé são queimadas 56 pessoas. 1762, 2 de Março, é supliciado na «roda», quebrando os seus membros até à morte, em Tolosa, Espanha, o protestante João Calas (1698-1752), por não abjurar o protestantismo. 1791, em 7 de Abril, é condenado à morte o célebre José Balsamo, mais conhecido como Conde de Gagliostro (1743-1795), pena comutada em prisão perpétua. 1706,12 de Setembro, a Inquisição faz queimar vivo o judeu Heitor Dias da Paz, em Lisboa, mas também Garcia de Horta, botânico, cientista, Ribeiro Sanches, médico que foi médico da corte de Catarina da Rússia, José Anastácio da Cunha, professor, matemático, Padre António Vieira, que curiosamente consegue pela primeira vez que o papa Clemente X suspenda o funcionamento da Inquisição (1674) - em 1678 o papa Inocêncio XI repetirá essa decisão -, Abraão Zacut, médico e, tantos mais vultos ilustres portugueses. Quando a Inquisição foi extinta em Portugal, o país estava exaurido sobre o ponto de vista humano e material, por essas e por outras. Milhares de livros, de manuscritos, alguns únicos, foram vítimas da senha persecutória do Índex da Inquisição. Como exemplos: a própria leitura da Bíblia, em 1229, foi proibida pelo Concílio de Tolosa, Espanha; em 1434, um monge de Barrientes, de nome Lope, ateou fogo aos livros do marquês de Vilhena; em 1490; o grande inquisidor Torquemada lançou ao fogo 6.000 volumes. E, em pleno século da Reforma, quando já a luz da liberdade tremeluzia no horizonte, o cardeal espanhol Jimenes atirou às chamas 5.000 volumes. Diniz DIDEROT, filósofo e literato francês (1713-1784), autor, com d'Alembert, da famosa» Encyclopédie» esteve encerrado no Castelo de Vincennes, França, porque publicou sua «Carta sobre os Cegos para uso dos que vêem». Charles de Secondat, barão de MONTESQUIEU (1689-1755), escritor francês, foi perseguido por ter publicado «Cartas Persas» (1721), «Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos Romanos» e de «Espírito das Leis» (1748). E outros, como Nicolau COPÉRNICO, célebre astrónomo polaco (1473-1543), que demonstrou o duplo movimento dos planetas sobre si mesmo e à volta do Sol, teoria condenada pelo papa Paulo V, porque punha por terra a ideia ptolemaica, que sustentava {e à qual ainda se sustenta} a ideia do Céu e do Inferno da Igreja; e Galileu GALILEI, matemático, físico e astrónomo italiano (1564-1642), que adoptou o sistema do mundo proposto por Copérnico, proclamando que o centro do mundo era o Sol e não a Terra, valendo-lhe a intimação da Cúria romana para que abjurasse e sofresse, já septuagenário, um cativeiro, sob vigilância da Inquisição. Até aos alvores da Idade Moderna, os papas assumiram-se, salvo honrosas excepções, mais como chefes de Estado, Imperadores, que como chefes espirituais, pastores da sua Igreja. Mais devotados às coisas terrenas que às do Altíssimo. Tempos houve, em que papas como o Bórgia e a sua família {filha, filhos e dependentes} trouxeram descrédito e desgraça à causa de Cristo. A corrupção, a venalidade, a luxúria e o deboche, conduziram ao Cisma e à Reforma Protestante. Como curiosidade, assinale-se que a construção da Basílica de S. Pedro em Roma teve início em 1506 e o mais longo pontificado até hoje verificado, foi o do papa Pio IX (32 anos). De 1846 a 1878. Pedro Manuel Pereira