Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais do que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa, in Mensagem
D. Sebastião, décimo-sexto rei de Portugal, filho póstumo do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V, nasceu em Lisboa em 20 de Janeiro de 1554. Sem inclinação alguma ou vontade até, relativamente aos tratos do reino, desde jovem se sentiu atraído pelas gestas militares no Norte de África e outros grandes feitos de armas dos portugueses de antanho. Sem cuidar de dar ouvidos aos avisos e aos conselhos da Corte, endividou a coroa e o reino ao organizar uma expedição militar a Alcácer-Quibir, onde veio a desaparecer em combate numa manhã de nevoeiro em 4 de Agosto de 1578, montado num cavalo branco e pelos vistos alado, sem deixar sucessor. Por tal facto, deixou o destino traçado de forma a Portugal passar a breve trecho para a posse da coroa espanhola, como veio a acontecer.
D. João III produziu dez filhos legítimos e um bastardo, porém, todos se finaram em vida de seu pai, só o príncipe D. João, que houvera nascido em 1537, conseguiu alcançar a adolescência e por tal sorte, assim que perfez quinze radiosas primaveras o seu pai casou-o com D. Joana, filha do imperador Carlos V. No entanto, o destino funesto que alcançara os outros filhos do monarca, também não o poupou. Desta feita, este príncipe veio a falecer em Janeiro de 1554, deixando a sua consorte grávida, já próximo do termo da gravidez. A corte e a nação esperavam com ansiedade o nascimento do neto de D. João III, uma vez que a coroa encontrava-se ameaçada de ficar vacante e, uma clausula fatal inscrita no contrato nupcial da infanta D. Maria de Portugal com o príncipe D. Filipe de Castela, atribuía aos filhos deste enlace a herança da coroa portuguesa no caso de não sobrevirem desta herdeiros directos. Prefigurava-se, desta forma, a famigerada união ibérica, temida desde os alvores do reino português e sempre detestada pelos seus nacionais. Assim, a 20 de Janeiro desse ano de 1554, foi com grande júbilo que foi acolhida por todos os portugueses a notícia de que acabara de nascer um filho da realeza que ia receber por nome Sebastião, por ter nascido no dia em que a igreja celebra esse santo padroeiro. Dada a ansiedade havida no reino até então por tal sorte, o povo cognominou o futuro rei de «O Desejado», como que declarando-o: «o salvador da pátria». Entrementes, D. João III pouco mais tempo sobreviveu. Finou-se três anos após, deixando a herança da coroa a esse débil moçoilo, única esperança da continuidade da nacionalidade portuguesa. Por tais artes, D. Sebastião, começou, pois, a reinar em 11 de Junho de 1557, com três anos e meio de idade, tendo para tal, sido aclamado rei. Levantaram-se dúvidas a respeito da regência que o cardeal D. Henrique reclamava para si, como tio-avô do jovem monarca. No entanto, a avó, a rainha viúva D. Catarina, assumiu tal encargo em virtude dum testamento mais ou menos autêntico de D. João III encontrado entrementes por artes do destino. Porém, D. Henrique intrigava e a rainha para acabar com esse empecilho, ocorreu dizer-lhe que lhe entregava completamente a regência do reino. Apanhado de surpresa {ou de calças na mão, como é uso dizer-se} o cardeal infante não se atreveu a aceitar, pelo que, a sua recusa foi desde logo aceite e ratificada pelas cortes, que para tal fim se reuniram, ficando então D. Catarina na posse indisputável e plena da regência. Contudo, D. Henrique tinha um poderoso aliado, que eram os jesuítas, a cuja astúcia confiou o êxito da sua causa. Por estas artes, contra eles D. Catarina nada pôde concretizar. Os jesuítas tanto intrigaram que a rainha, em 1567, depois de 10 anos de regência, viu-se obrigada a cedê-la definitivamente ao cardeal D. Henrique, regência esta que durou tão só até 1568, ano em que D. Sebastião tendo completado 14 anos de idade, foi declarado maior. A regência do cardeal durara apenas um ano. Quando assume o poder, efectivamente, o povo, entretanto, havia entrosado dentro de si pouca fé num soberano imaturo, pouco dado ao estudo da sua época e às coisas do espírito, de hábitos efeminados e oriundo de uma família no seio da qual as «facadas nas costas», as traições, eram coisa natural. Além disso, queixavam-se das constantes ausências do soberano da capital e com mais razão se queixaram ainda, quando assolada pela terrível peste de 1569, D. Sebastião os abandonou, fugindo da epidemia com evidente alarde da sua cobardia. No decorrer de uma das suas viagens pela província, em fuga de mais uma peste que grassava em Lisboa, praticou as maiores bizarrias, mandando, por exemplo, abrir os túmulos dos reis seus antepassados para se extasiar diante dos ossos dos que tinham sido guerreiros. A sua saúde era débil, no entanto, voluntarioso, caprichoso, não dava ouvidos à sabedoria, aos conselhos dos mais avisados. Interessava-se sim, com fervor, denodadamente e apenas, pela religião e pela guerra. Desfasado do seu tempo e no tempo, anacronicamente pretendia salvar os mouros da perdição da fé de Mafoma e conduzi-los à redenção católica, ao rebanho de Cristo. Era um jovem infeliz. Ficara órfão de pai, ainda antes de nascer e a sua mãe abalara para Espanha, agastada por lhe não ter sido confiada a regência, quando morreu D. João III. A rainha D. Catarina, avó do monarca, embora tivesse resistido algum tempo, acabou por aceitar a nomeação dum jesuíta para mestre do seu neto. A Companhia de Jesus era já nesse tempo um potentado. O preceptor foi o padre Luís Gonçalves da Câmara. Para aio foi escolhido D. Aleixo de Menezes, homem de espírito superior. Talvez sem o querer, D. Aleixo contribuiu para completar a educação do jesuíta. O padre Câmara fez de D. Sebastião um monge e D. Aleixo, dele, um militar brioso. Foi dessa mistura «explosiva», dessas duas educações combinadas, que resultou um monge militar coroado, uma espécie de cruzado fora de moda que arrastou Portugal para a sua ultima cruzada, na qual ele se perdeu e consigo uma nação com a nata da fidalguia lusitana. Rapaz medianamente inteligente, muito impressionável, D. Sebastião era por isso mais acessível do que qualquer outro à influência de todas estas causas. Dividia o seu tempo pelas montarias, pelos «dolorosos» exercícios religiosos e pela leitura de livros de história, principalmente da história de Portugal. Segundo as crónicas, D. Sebastião nada mais fez na cama senão sornar. Isto, nos poucos anos que por cá andou nesta vida terrena, uma vez que, quando em bebé, certamente que a urinou como é normal fazerem os rebentos em crescimento. Consta ainda que, o jovem monarca padecia de um corrimento venéreo crónico que o teria impedido de assegurar a continuação da dinastia, para além de ser avesso ao sexo oposto, não se lhe tendo conhecido por tal facto, jovem alguma próxima de si. D. Sebastião que em nada se importava com os negócios públicos, que tudo deixava entregue aos seus ministros. No seu curto reinado, o rei limitou-se a pouco mais que esvaziar os cofres do estado por ter contraído vultuosos empréstimos a fim de concretizar a sua obsessão relativamente à mourama. Quando decidiu encetar a desgraçada empresa ao norte de África, o bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório, que não desaprovava a ideia de uma cruzada contra os mouros, considerou inconveniente de todo a ocasião, devendo-se aproveitar o momento em que houvesse discórdias graves entre a mourama para tal iniciativa. Mau grado os conselhos avisados de vários soberanos e outros, o monarca decidiu empreender a cruzada. Se a empresa era insensata, o modo de a levar a efeito foi mais insensato ainda. Na arrecadação do dinheiro necessário para a expedição cometeram-se as maiores arbitrariedades que irritaram de sobremaneira o povo. Depois arregimentaram-se terços espanhóis, alemães e irlandeses a peso de ouro, com todos os inconvenientes das tropas mercenárias, tendo ainda sido recrutados no reino uns nove mil soldados bisonhos, fracos, incipientes, sem treino militar, que de pouco serviam. O corpo de voluntários da nobreza era brilhante, pela bravura dos que o compunham e ao mesmo tempo indisciplinado. Além disso, equipou-se com um luxo manifestamente impróprio para uma expedição militar. D. Sebastião, não só tolerou esse luxo, apesar das severas pragmáticas que promulgara em tempo, mas animou-o. O rei nomeou general da armada D. Luís de Ataíde, homem que sempre se havia oposto a esta temerária aventura; por isso mesmo o mandou por vice-rei para a Índia e deu o comando a D. Diogo de Sousa. Varrido de todo, completamente desvairado, muniu-se da espada de D. Afonso Henriques que mandou pedir a Santa Cruz de Coimbra, mais uma coroa de ouro que devia colocar na cabeça quando se proclamasse imperador de Marrocos. Soberbamente ajaezado {ele e a sua alimária} largou ferro de Lisboa em 25 de Junho com uma armada de 800 velas e um exército de 18000 homens, composto por soldados de todas as proveniências, que já em Lisboa tinham travado gravíssimas rixas entre eles e com populares. Ao chegar a África, a doidice agravou-se. Para tomar Larache de assalto, que é um porto de mar, desembarcou em Tânger a 17 de Julho de 1578 e seguiu por terra, passando por Arzila e Alcácer Quibir. A marcha em Agosto era pesadíssima para a soldadesca, que chegou morta de cansaço a Alcácer Quibir. Seguiu-se a batalha desastrosa de 4 de Agosto. Acrescente-se que D. Sebastião, quando sentiu o cheiro da pólvora, esqueceu tudo e todos. Os seus deveres de comandante, as ordens que dera. Dando esporas à montada, lançou-se contra o inimigo brandindo o montante de Afonso Henriques. Quando a derrota começou, D. Sebastião não deu por ela, só se apercebendo quando as hostes portuguesas começaram em completa debandada. Acompanhado apenas por uns poucos fidalgos, lançou-se sobre o inimigo procurando salvar a artilharia que os marroquinos levavam. O povo não quis acreditar na sua morte e formou-se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas uma seita, que se tornou conhecida por Sebastianistas. A morte do monarca acabou por ser oficialmente reconhecida. Tal facto inflectiu de forma marcante o curso da história de Portugal sobrevinda. Marcou de tal sorte o imaginário lusitano, que ainda hoje os portugueses anseiam por um «D. Sebastião» que os salve do crónico desgoverno que de há séculos assola a nação. Os candidatos, esses, são sempre mais que as mães. Alguns até, nem sabem quem são as mães. Uns, em certas épocas, que o imaginário colectivo retira do meio dos destroços nebuloso da desgraça, outros, candidatos efectivos por partidos, travestidos de «sebastiões». Invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, têm sido sempre desmascarados pelo povo que antes, iludido, foi atrás deles. Depois, volta de novo a acalentar que numa manhã de nevoeiro apareça o dito cujo. Povo esperançoso este. Em 1582 o suposto cadáver do rei, veio para Portugal onde foi sepultado num túmulo da igreja de Belém, nele se escrevendo um pequeno epitáfio em latim, que deixa transparecer a dúvida, conforme diz: Aqui jaz, si vera est fama ...
Pedro Manuel Pereira
quinta-feira, 28 de maio de 2009
SEBASTIÃO – O ETERNO DESEJADO
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais do que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?
Fernando Pessoa, in Mensagem
D. Sebastião, décimo-sexto rei de Portugal, filho póstumo do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V, nasceu em Lisboa em 20 de Janeiro de 1554. Sem inclinação alguma ou vontade até, relativamente aos tratos do reino, desde jovem se sentiu atraído pelas gestas militares no Norte de África e outros grandes feitos de armas dos portugueses de antanho. Sem cuidar de dar ouvidos aos avisos e aos conselhos da Corte, endividou a coroa e o reino ao organizar uma expedição militar a Alcácer-Quibir, onde veio a desaparecer em combate numa manhã de nevoeiro em 4 de Agosto de 1578, montado num cavalo branco e pelos vistos alado, sem deixar sucessor. Por tal facto, deixou o destino traçado de forma a Portugal passar a breve trecho para a posse da coroa espanhola, como veio a acontecer.
D. João III produziu dez filhos legítimos e um bastardo, porém, todos se finaram em vida de seu pai, só o príncipe D. João, que houvera nascido em 1537, conseguiu alcançar a adolescência e por tal sorte, assim que perfez quinze radiosas primaveras o seu pai casou-o com D. Joana, filha do imperador Carlos V. No entanto, o destino funesto que alcançara os outros filhos do monarca, também não o poupou. Desta feita, este príncipe veio a falecer em Janeiro de 1554, deixando a sua consorte grávida, já próximo do termo da gravidez. A corte e a nação esperavam com ansiedade o nascimento do neto de D. João III, uma vez que a coroa encontrava-se ameaçada de ficar vacante e, uma clausula fatal inscrita no contrato nupcial da infanta D. Maria de Portugal com o príncipe D. Filipe de Castela, atribuía aos filhos deste enlace a herança da coroa portuguesa no caso de não sobrevirem desta herdeiros directos. Prefigurava-se, desta forma, a famigerada união ibérica, temida desde os alvores do reino português e sempre detestada pelos seus nacionais. Assim, a 20 de Janeiro desse ano de 1554, foi com grande júbilo que foi acolhida por todos os portugueses a notícia de que acabara de nascer um filho da realeza que ia receber por nome Sebastião, por ter nascido no dia em que a igreja celebra esse santo padroeiro. Dada a ansiedade havida no reino até então por tal sorte, o povo cognominou o futuro rei de «O Desejado», como que declarando-o: «o salvador da pátria». Entrementes, D. João III pouco mais tempo sobreviveu. Finou-se três anos após, deixando a herança da coroa a esse débil moçoilo, única esperança da continuidade da nacionalidade portuguesa. Por tais artes, D. Sebastião, começou, pois, a reinar em 11 de Junho de 1557, com três anos e meio de idade, tendo para tal, sido aclamado rei. Levantaram-se dúvidas a respeito da regência que o cardeal D. Henrique reclamava para si, como tio-avô do jovem monarca. No entanto, a avó, a rainha viúva D. Catarina, assumiu tal encargo em virtude dum testamento mais ou menos autêntico de D. João III encontrado entrementes por artes do destino. Porém, D. Henrique intrigava e a rainha para acabar com esse empecilho, ocorreu dizer-lhe que lhe entregava completamente a regência do reino. Apanhado de surpresa {ou de calças na mão, como é uso dizer-se} o cardeal infante não se atreveu a aceitar, pelo que, a sua recusa foi desde logo aceite e ratificada pelas cortes, que para tal fim se reuniram, ficando então D. Catarina na posse indisputável e plena da regência. Contudo, D. Henrique tinha um poderoso aliado, que eram os jesuítas, a cuja astúcia confiou o êxito da sua causa. Por estas artes, contra eles D. Catarina nada pôde concretizar. Os jesuítas tanto intrigaram que a rainha, em 1567, depois de 10 anos de regência, viu-se obrigada a cedê-la definitivamente ao cardeal D. Henrique, regência esta que durou tão só até 1568, ano em que D. Sebastião tendo completado 14 anos de idade, foi declarado maior. A regência do cardeal durara apenas um ano. Quando assume o poder, efectivamente, o povo, entretanto, havia entrosado dentro de si pouca fé num soberano imaturo, pouco dado ao estudo da sua época e às coisas do espírito, de hábitos efeminados e oriundo de uma família no seio da qual as «facadas nas costas», as traições, eram coisa natural. Além disso, queixavam-se das constantes ausências do soberano da capital e com mais razão se queixaram ainda, quando assolada pela terrível peste de 1569, D. Sebastião os abandonou, fugindo da epidemia com evidente alarde da sua cobardia. No decorrer de uma das suas viagens pela província, em fuga de mais uma peste que grassava em Lisboa, praticou as maiores bizarrias, mandando, por exemplo, abrir os túmulos dos reis seus antepassados para se extasiar diante dos ossos dos que tinham sido guerreiros. A sua saúde era débil, no entanto, voluntarioso, caprichoso, não dava ouvidos à sabedoria, aos conselhos dos mais avisados. Interessava-se sim, com fervor, denodadamente e apenas, pela religião e pela guerra. Desfasado do seu tempo e no tempo, anacronicamente pretendia salvar os mouros da perdição da fé de Mafoma e conduzi-los à redenção católica, ao rebanho de Cristo. Era um jovem infeliz. Ficara órfão de pai, ainda antes de nascer e a sua mãe abalara para Espanha, agastada por lhe não ter sido confiada a regência, quando morreu D. João III. A rainha D. Catarina, avó do monarca, embora tivesse resistido algum tempo, acabou por aceitar a nomeação dum jesuíta para mestre do seu neto. A Companhia de Jesus era já nesse tempo um potentado. O preceptor foi o padre Luís Gonçalves da Câmara. Para aio foi escolhido D. Aleixo de Menezes, homem de espírito superior. Talvez sem o querer, D. Aleixo contribuiu para completar a educação do jesuíta. O padre Câmara fez de D. Sebastião um monge e D. Aleixo, dele, um militar brioso. Foi dessa mistura «explosiva», dessas duas educações combinadas, que resultou um monge militar coroado, uma espécie de cruzado fora de moda que arrastou Portugal para a sua ultima cruzada, na qual ele se perdeu e consigo uma nação com a nata da fidalguia lusitana. Rapaz medianamente inteligente, muito impressionável, D. Sebastião era por isso mais acessível do que qualquer outro à influência de todas estas causas. Dividia o seu tempo pelas montarias, pelos «dolorosos» exercícios religiosos e pela leitura de livros de história, principalmente da história de Portugal. Segundo as crónicas, D. Sebastião nada mais fez na cama senão sornar. Isto, nos poucos anos que por cá andou nesta vida terrena, uma vez que, quando em bebé, certamente que a urinou como é normal fazerem os rebentos em crescimento. Consta ainda que, o jovem monarca padecia de um corrimento venéreo crónico que o teria impedido de assegurar a continuação da dinastia, para além de ser avesso ao sexo oposto, não se lhe tendo conhecido por tal facto, jovem alguma próxima de si. D. Sebastião que em nada se importava com os negócios públicos, que tudo deixava entregue aos seus ministros. No seu curto reinado, o rei limitou-se a pouco mais que esvaziar os cofres do estado por ter contraído vultuosos empréstimos a fim de concretizar a sua obsessão relativamente à mourama. Quando decidiu encetar a desgraçada empresa ao norte de África, o bispo do Algarve, D. Jerónimo Osório, que não desaprovava a ideia de uma cruzada contra os mouros, considerou inconveniente de todo a ocasião, devendo-se aproveitar o momento em que houvesse discórdias graves entre a mourama para tal iniciativa. Mau grado os conselhos avisados de vários soberanos e outros, o monarca decidiu empreender a cruzada. Se a empresa era insensata, o modo de a levar a efeito foi mais insensato ainda. Na arrecadação do dinheiro necessário para a expedição cometeram-se as maiores arbitrariedades que irritaram de sobremaneira o povo. Depois arregimentaram-se terços espanhóis, alemães e irlandeses a peso de ouro, com todos os inconvenientes das tropas mercenárias, tendo ainda sido recrutados no reino uns nove mil soldados bisonhos, fracos, incipientes, sem treino militar, que de pouco serviam. O corpo de voluntários da nobreza era brilhante, pela bravura dos que o compunham e ao mesmo tempo indisciplinado. Além disso, equipou-se com um luxo manifestamente impróprio para uma expedição militar. D. Sebastião, não só tolerou esse luxo, apesar das severas pragmáticas que promulgara em tempo, mas animou-o. O rei nomeou general da armada D. Luís de Ataíde, homem que sempre se havia oposto a esta temerária aventura; por isso mesmo o mandou por vice-rei para a Índia e deu o comando a D. Diogo de Sousa. Varrido de todo, completamente desvairado, muniu-se da espada de D. Afonso Henriques que mandou pedir a Santa Cruz de Coimbra, mais uma coroa de ouro que devia colocar na cabeça quando se proclamasse imperador de Marrocos. Soberbamente ajaezado {ele e a sua alimária} largou ferro de Lisboa em 25 de Junho com uma armada de 800 velas e um exército de 18000 homens, composto por soldados de todas as proveniências, que já em Lisboa tinham travado gravíssimas rixas entre eles e com populares. Ao chegar a África, a doidice agravou-se. Para tomar Larache de assalto, que é um porto de mar, desembarcou em Tânger a 17 de Julho de 1578 e seguiu por terra, passando por Arzila e Alcácer Quibir. A marcha em Agosto era pesadíssima para a soldadesca, que chegou morta de cansaço a Alcácer Quibir. Seguiu-se a batalha desastrosa de 4 de Agosto. Acrescente-se que D. Sebastião, quando sentiu o cheiro da pólvora, esqueceu tudo e todos. Os seus deveres de comandante, as ordens que dera. Dando esporas à montada, lançou-se contra o inimigo brandindo o montante de Afonso Henriques. Quando a derrota começou, D. Sebastião não deu por ela, só se apercebendo quando as hostes portuguesas começaram em completa debandada. Acompanhado apenas por uns poucos fidalgos, lançou-se sobre o inimigo procurando salvar a artilharia que os marroquinos levavam. O povo não quis acreditar na sua morte e formou-se em torno do seu nome, não só uma lenda, mas uma seita, que se tornou conhecida por Sebastianistas. A morte do monarca acabou por ser oficialmente reconhecida. Tal facto inflectiu de forma marcante o curso da história de Portugal sobrevinda. Marcou de tal sorte o imaginário lusitano, que ainda hoje os portugueses anseiam por um «D. Sebastião» que os salve do crónico desgoverno que de há séculos assola a nação. Os candidatos, esses, são sempre mais que as mães. Alguns até, nem sabem quem são as mães. Uns, em certas épocas, que o imaginário colectivo retira do meio dos destroços nebuloso da desgraça, outros, candidatos efectivos por partidos, travestidos de «sebastiões». Invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, têm sido sempre desmascarados pelo povo que antes, iludido, foi atrás deles. Depois, volta de novo a acalentar que numa manhã de nevoeiro apareça o dito cujo. Povo esperançoso este. Em 1582 o suposto cadáver do rei, veio para Portugal onde foi sepultado num túmulo da igreja de Belém, nele se escrevendo um pequeno epitáfio em latim, que deixa transparecer a dúvida, conforme diz: Aqui jaz, si vera est fama ...
Pedro Manuel Pereira
quarta-feira, 27 de maio de 2009
DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO DA REGIÃO DO ALGARVE NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX
Portugal entra no século XX com uma população recenseada em 5 milhões de habitantes e com uma economia fundamentalmente rural. O sector primário predominava em todas as regiões, inclusivamente o Algarve.
Era uma agricultura mais colectora do que produtora, baseada em meia dúzia de produtos de exploração secular tradicional, quase à base de frutos.
Se o panorama económico era idêntico em todas as regiões do País, o mesmo se passava relativamente às taxas de natalidade e de mortalidade, sendo que a mortalidade infantil era particularmente elevada, devido principalmente aos surtos epidémicos e às más condições de cuidados pré-natais.
Com o tempo, vai-se assistir no Algarve a uma intensificação do movimento de parcelamento da propriedade e a um lento e limitado progresso de mecanização na agricultura, a par de um fraco rendimento proveniente da actividade laboral.
Como reflexo, vai-se acentuar o fluxo emigratório para as grandes cidades e suas áreas industrializadas envolventes. Caso exemplar é o que se vai verificar relativamente à margem sul do Tejo, principalmente, Almada e Barreiro, assumindo carácter relevante o verificado nesta última, então vila,
atraída a força de trabalho pelas oficinas dos caminhos de ferro, indústria corticeira e Companhia União Fabril (C.U.F.), complexo fabril inaugurado em 1908.
Se o panorama agrícola era particularmente preocupante, já o sector industrial, nas áreas das indústrias corticeira - tendo por base Silves - e a indústria conserveira, disseminada por todo o Algarve litoral, registavam progressos, dada a procura destes produtos nos mercados externos, com especial relevância para a Espanha, a Alemanha, Grã-Bretanha, Brasil e alguns países do Norte da Europa, muito embora estas indústrias funcionassem em grande parte, com uma mão-de-obra sazonal, sem emprego garantido todo o ano.
Em linhas gerais e muito resumidamente, será este o panorama económico com que se defrontarão os obreiros da República, ao tomarem as rédeas do poder a partir da Revolução do 5 de Outubro de 1910.
É neste contexto que um eminente republicano, algarvio, hoje, injustamente pouco recordado, de seu nome Thomaz António da Guarda Cabreira, irá, enquanto parlamentar e ministro das Finanças, apresentar aos seus eleitores do circulo de Faro, em 1914, um relatório de propostas legislativas de que destacamos como exemplo, a criação de escolas primárias agrícolas de carácter regional, criação de um posto agrário no distrito de Faro com campo experimental para as culturas algarvias, uma Escola Móvel Agrícola, criação de zonas de turismo com regulamentação do jogo e construção de bairros económicos.
De salientar ainda, que Thomaz Cabreira, organizou em 1915 o 1º Congresso Regional Algarvio, que decorreu no Casino da Praia da Rocha, localizado onde hoje se encontra o Hotel Oriental, onde estes temas foram debatidos.
A hemorragia de população vai continuar a ser um facto durante toda a República, só abrandando nos anos da 1ª Grande Guerra Mundial. Sai-se desta região para Lisboa e suas áreas envolventes, mas também para o estrangeiro, sobretudo para a América Latina.
As remessas dos emigrantes, desta e de outras regiões, permitirão ao País viver acima do que produz.
No entanto, os anos de guerra serão anos de penúria, agravados em 1917-
-1918, com a intervenção directa de Portugal no conflito mundial.
De então e até ao golpe de Estado que instaurou a ditadura militar em 28 de Maio de 1926, as condições de vida associadas ao estado económico da Nação, continuaram a agravar-se. A República não teve a capacidade, de solucionar os problemas do atraso estrutural crónico do País, mercê de factores conjunturais quer externos quer internos.
A República nasceu e morreu com o modelo económico saído da crise resultante do Ultimatum britânico de 1890, o qual se irá prolongar até cerca de 1930.
O modelo económico anterior vai-se extinguir, na transição para o modelo corporativista e proteccionista do Estado Novo, após o controlo do poder do Estado por Salazar.
O modelo económico corporativo, sob a égide de Salazar, a par de uma política de monopólios, proteccionista, irá traçar o rumo da economia portuguesa nas décadas seguintes.
Será com base nas indústrias conserveira e corticeira que o Algarve terá a sua quota parte no desenvolvimento económico do País. De salientar que muitos dos complexos fabris conserveiros possuíam um sistema assistencial de creches e bairros operários. Por seu turno, o Estado Novo construiu um pouco por toda a região, bairros económicos.
Porém, o problema do desemprego, mau grado a «válvula de escape» da emigração, embora menos intensa desde finais dos anos 20, constituirá um verdadeiro flagelo. Trabalha-se sazonalmente nas industrias da região, na agricultura, mas a par disso todos os anos, no tempo das ceifas, saem milhares de algarvios para os campos do Alentejo.
Com a 2ª Grande Guerra Mundial, nova crise económica vai apertar, muito embora seja mais por falta de bens, os tradicionalmente importados, que por falta de trabalho, como no caso da indústria conserveira, que nesse período de tempo {1939-45}, atingiu o pico mais alto da sua produção, devido fundamentalmente à exportação para os países beligerantes, quer os do Eixo, quer os Aliados, de acordo com a política falsamente neutral de Salazar.
Terminado o conflito, muitas dessas indústrias entraram em recessão, em parte devido à falta do mercado da guerra e por outro lado devido à concorrência estrangeira no mercado internacional.
Só a partir dos anos 60 do século XX, devido à pressão do boom económico verificado na Europa, as condições económicas e de vida irão mudar substancialmente no Algarve.
Pedro Manuel Pereira
terça-feira, 26 de maio de 2009
PALMA INACIO – UM HERÓI ALGARVIO ESQUECIDO
Hermínio da Palma Inácio nasceu em 29 de Janeiro de 1922, em Ferragudo, Lagoa, Filho de José Inácio e de Custódia da Palma. Concluído o curso industrial na Escola de João de Deus, em Silves, alistou-se como voluntário na Força Aérea, onde tirou o curso de mecânico de aeronaves e, de seguida, o de piloto civil para a aviação comercial. Durante os quatro anos em que esteve colocado na base aérea de Sintra, travou contactos com os círculos oposicionistas a Salazar, através do capitão Carlos Vilhena. Estes encontros iriam intensificar-se já depois de Palma Inácio ter saído da Base Aérea, por via de um acidente com uma avioneta, no Alentejo, quando transportava alimentos para Ferragudo, em plena II Guerra Mundial, numa altura em que vigorava o racionamento de alimentos. Expulso da Força Aérea, após vinte dias de prisão, Palma Inácio conseguiu emprego na companhia aérea KLM, no aeroporto de Lisboa. Em 1947, participou numa tentativa de golpe de estado com vários oficiais generais, que foi abortada à última hora. Na sequência deste facto, acaba preso sete meses depois. Na manhã de 16 de Maio de 1949, consegue evadir-se e alcança Casablanca, em Marrocos. Depois de muitas peripécias, fixa-se como instrutor de pilotos em Northampton nos Estados Unidos da América onde durante cinco anos, viveu clandestinamente, acabando por ser detectado em 1955 pelos serviços de emigração que determinam a sua saída dos EUA. Parte para o Brasil onde vem a conhecer os membros mais destacados da oposição de entre os quais, Henrique Galvão e Humberto Delgado. Na manhã de 10 de Novembro de 1961, véspera das eleições gerais em Portugal, Palma Inácio e mais quatro operacionais, entram num avião da TAP em Casablanca, misturam-se entre os dezanove passageiros americanos, belgas, espanhóis e portugueses e a respectiva tripulação constituída por sete portugueses e tomam o avião que sobrevoou Lisboa a baixa altitude lançando grandes quantidades de panfletos subversivos, assinados pelo capitão Henrique Galvão, num voo rasteiro junto á costa, desde Faro, vindo a aterrar em Tânger. Palma Inácio, passa à História pelo facto de protagonizar o primeiro desvio de um avião para fins políticos. Outra das suas façanhas, de que muitos portugueses ainda se lembram, foi o assalto ao Banco de Portugal na Figueira da Foz. Pouco antes das dezasseis horas, hora de encerramento do Banco, consumou-se o assalto dinheiro {29.274.390$00} foi guardado em três sacos e os revolucionários abandonam a Figueira da Foz rumo ao aeródromo de Cernache onde embarcam numa avioneta que os leva a Vila do Bispo, partindo daí para Marrocos. Tratou-se de uma acção política da LUAR {Liga de Unidade e Acção Revolucionária}, cujo comando militar foi confiado a Palma Inácio. Porém, as notas roubadas não possuíam curso legal. Metade da quantia, ainda não posta a circular, foi identificado, inviabilizando a sua transacção. No entanto, ainda foi possível, transaccionar uma quantia, com a qual se adquiriram, na Checoslováquia, armas que foram distribuídas por armazéns da LUAR, na Bélgica, França e Portugal. A restante ficou guardada num armazém em Paris ao cuidado de um personagem de pseudónimo «Canário», que nunca o entregou à organização, vindo a saber-se depois do 25 de Abril que se tratava de alguém infiltrado com ligações à PIDE. Pedro Manuel Pereira
sexta-feira, 22 de maio de 2009
DO PAPADO E SUA VIDA DE FÉ
Para quem se debruçar sobre a História do Cristianismo e da Igreja de Roma em especial, o facto mais evidente, transversal à mesma, é o facto dos papas desde sempre e até à Idade Moderna, terem sido «soberanos de soberanos» e territórios. Factos históricos como a criação do Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição) depõem contra a face humanista e do «Bom Pastor»; o papa, os papas da História da Igreja. Sinistra instituição, que em algumas regiões vigorou até ao século XIX. No caso de Portugal, perdurou até à Revolução Liberal de 1820. A Inquisição ou o Santo Ofício – tenebroso e sanguinário tribunal católico, estabelecido por ordem e mando do papa Inocêncio III, que deixou a sua marca para a posteridade, não só pela criação dessa instituição, mas também pelo massacre dos huguenotes, acontecimento passado à História como a «Noite de São Bartolomeu», por ter sido realizado na noite de 23 para 24 de Agosto de 1572, no qual milhares de protestantes, homens, mulheres e crianças, pereceram vítimas dos crimes e massacres mais hediondos perpetrados por católicos. O culminar dos processos movidos contra os indivíduos pela Inquisição, desembocava em autos-de-fé, onde, em locais públicos eram proclamadas e executadas as sentenças proferidas por essa medonha «corporação». Os condenados eram em geral, judeus, cristãos-novos, heréticos e os acusados de bruxaria. É claro que, muitas vezes essas acusações serviam para encobrir outras razões bem diversas, que iam da simples inveja, à ganância pelos bens das vítimas por parte dos inquisidores. Normalmente os condenados acabavam na fogueira, desterrados, ou, com um bocado de sorte, condenados a açoites ou penas de prisão. Os condenados ou penitentes que iam ser queimados eram vestidos com uma túnica ou «sambenito», um hábito amarelo e vermelho, que se enfiava pela cabeça. O período de maior número de autos-de-fé, sobretudo em Espanha e Portugal, decorreu do século XV e XVIII. Historicamente, podemos dizer, que a Inquisição surgiu por ocasião do Concílio de Verona, Itália, que ordenou aos bispos lombardos que entregassem à Justiça os heréticos que se recusassem a converter-se. Este facto ocorreu no século XII, em 1183, no Languedoc, França, como medida contra os albigenses, naturais de Albi, considerados hereges do sul da França, ou valdenses, membros de uma seita herética fundada por Pedro Valdo, na Provença, também em França. A causa fundamental residiu no facto do ilustre francês Pedro Valdo se ter insurgido publicamente contra a corrupção que grassava no seio da Igreja. Mas, o maior crime dos albigenses ou valdenses, o considerado crime capital, era pregarem a liberdade de pensamento, o desrespeito à autoridade papal, a crítica e a oposição actuante face à tirania pontifícia, às suas pretensões, às suas teorias, aos seus monstruosos vícios. Mas os valdenses não foram prontamente exterminados, embora tenham sido ferozmente trucidados os que caíram prisioneiros. Inocêncio III, que havia iniciado a Inquisição, organizou, depois, nova expedição, assaltando as províncias do Languedoc, onde foram cometidos os mais hediondos atentados, tendo sido chacinados os habitantes, saqueadas as cidades, incendiadas as aldeias e devastadas as herdades. Foi na acção directa nesta verdadeira insurreição da inteligência humana contra o despotismo teocrático dos papas, que São Domingos, o «queimador de hereges», conquistou os seus principais créditos de bem-aventurado.
Os dois maiores inquisidores que a história regista são espanhóis. Um, Tomas de TORQUEMADA, padre dominicano, que dirigiu durante 14 anos (1484 a 1498) as operações do Santo Ofício. É famoso por sua crueldade e o seu nome confunde-se na história na lembrança dessa terrível; instituição, que foi a Inquisição. - Por causa deste inquisidor os judeus foram expulsos de Espanha, 10000 vítimas foram enviadas para as fogueiras, 97000 confiscações foram feitas e cerca de 114000 famílias foram vitimadas. Outro grande inquisidor foi o cardeal Francisco Ximenes ou Jimenes (1436-1517), ministro de Espanha. Mas também de Portugal os judeus tiveram de fugir {os que conseguiram} e outros mortos, presos, desterrados e os seus bens confiscados, a partir do reinado de D. Manuel I, «O Venturoso». Sintomaticamente, foi a partir da sua expulsão que o império português começou o seu inexorável declínio. Procuramos fazer um levantamento das vítimas da Inquisição e, num rápido apanhado, quase que pudemos compor uma lista. De fato, não há mês do ano, em que não se destaque um grande nome vítima do Santo Oficio. Salientem-se os mais ilustres: 1414, Constança, grão-ducado de Baden, concílio que condenou, à fogueira, João Huss (1369-1415), reformador checo, precursor da Reforma, movimento renovador da Igreja e do Clero; 1431, nas noites de 23 e 24 Maio de 1431, em Rouen, capital da Normandia, França, é queimada viva a médium Joana d'Arc, a Donzella d'Órleans, heroína francesa (1412-1431) «por ter relação com Satanás», segundo denúncia do clero da época. 1498, 4 de Março, data em que é queimado vivo, com mais dois dominicanos, seus partidários, Girolamo Savonarola, pregador italiano da Ordem dos Dominicanos (1452-1498), excomungado, por falsas acusações de heresias, pelo papa Alexandre VI. 1553, 27 de Outubro, Calvino manda queimar vivo, em Genebra, Suíça, o infeliz Miguel Servet, médico e teólogo espanhol (1509-1553). Em 1572, no mês de Agosto foram degolados em Paris, na célebre noite de São Bartolomeu, 10000 franceses e, na mesma ocasião, nas províncias, outros 40.000 franceses calvinistas, com aprovação do Papa Gregório XIII. 1600, 16 de Janeiro, Giordano Bruno, filósofo italiano (1550-1600), que abandonou a Ordem dos Dominicanos, ouve a leitura de sua sentença de morte; e, em 17 de Fevereiro desse mesmo ano, é queimado vivo. Em 1616, a 5 de Março, a obra de Copérnico é condenada pela Congregação do Index Librorum Prohibitorum, o chamado rol dois livros proibidos, fundado em Roma, no século XVI. 1654, 29 de Junho, em Cuenca, Espanha, num auto-de-fé são queimadas 56 pessoas. 1762, 2 de Março, é supliciado na «roda», quebrando os seus membros até à morte, em Tolosa, Espanha, o protestante João Calas (1698-1752), por não abjurar o protestantismo. 1791, em 7 de Abril, é condenado à morte o célebre José Balsamo, mais conhecido como Conde de Gagliostro (1743-1795), pena comutada em prisão perpétua. 1706,12 de Setembro, a Inquisição faz queimar vivo o judeu Heitor Dias da Paz, em Lisboa, mas também Garcia de Horta, botânico, cientista, Ribeiro Sanches, médico que foi médico da corte de Catarina da Rússia, José Anastácio da Cunha, professor, matemático, Padre António Vieira, que curiosamente consegue pela primeira vez que o papa Clemente X suspenda o funcionamento da Inquisição (1674) - em 1678 o papa Inocêncio XI repetirá essa decisão -, Abraão Zacut, médico e, tantos mais vultos ilustres portugueses. Quando a Inquisição foi extinta em Portugal, o país estava exaurido sobre o ponto de vista humano e material, por essas e por outras.
Milhares de livros, de manuscritos, alguns únicos, foram vítimas da senha persecutória do Índex da Inquisição. Como exemplos: a própria leitura da Bíblia, em 1229, foi proibida pelo Concílio de Tolosa, Espanha; em 1434, um monge de Barrientes, de nome Lope, ateou fogo aos livros do marquês de Vilhena; em 1490; o grande inquisidor Torquemada lançou ao fogo 6.000 volumes. E, em pleno século da Reforma, quando já a luz da liberdade tremeluzia no horizonte, o cardeal espanhol Jimenes atirou às chamas 5.000 volumes. Diniz DIDEROT, filósofo e literato francês (1713-1784), autor, com d'Alembert, da famosa»
Encyclopédie» esteve encerrado no Castelo de Vincennes, França, porque publicou sua «Carta sobre os Cegos para uso dos que vêem». Charles de Secondat, barão de MONTESQUIEU (1689-1755), escritor francês, foi perseguido por ter publicado «Cartas Persas» (1721), «Considerações sobre as causas da grandeza e da decadência dos Romanos» e de «Espírito das Leis» (1748). E outros, como Nicolau COPÉRNICO, célebre astrónomo polaco (1473-1543), que demonstrou o duplo movimento dos planetas sobre si mesmo e à volta do Sol, teoria condenada pelo papa Paulo V, porque punha por terra a ideia ptolemaica, que sustentava {e à qual ainda se sustenta} a ideia do Céu e do Inferno da Igreja; e Galileu GALILEI, matemático, físico e astrónomo italiano (1564-1642), que adoptou o sistema do mundo proposto por Copérnico, proclamando que o centro do mundo era o Sol e não a Terra, valendo-lhe a intimação da Cúria romana para que abjurasse e sofresse, já septuagenário, um cativeiro, sob vigilância da Inquisição.
Até aos alvores da Idade Moderna, os papas assumiram-se, salvo honrosas excepções, mais como chefes de Estado, Imperadores, que como chefes espirituais, pastores da sua Igreja. Mais devotados às coisas terrenas que às do Altíssimo. Tempos houve, em que papas como o Bórgia e a sua família {filha, filhos e dependentes} trouxeram descrédito e desgraça à causa de Cristo. A corrupção, a venalidade, a luxúria e o deboche, conduziram ao Cisma e à Reforma Protestante.
Como curiosidade, assinale-se que a construção da Basílica de S. Pedro em Roma teve início em 1506 e o mais longo pontificado até hoje verificado, foi o do papa Pio IX (32 anos). De 1846 a 1878.
Pedro Manuel Pereira
O SIDONISMO E A REPÚBLICA NOVA
Face ao cenário em que Portugal se encontra mergulhado, será bom recordar que a conjuntura é propícia ao surgimento de «Messias», de «salvadores da pátria». Atentemos pois, a este exemplo do passado recente, do qual, os políticos mandantes no país deviam retirar ilações, com discernimento e humildade.
A 5 de Dezembro de 1917 o major de cavalaria e lente de matemática, Sidónio Pais, encabeçou um golpe militar a partir da província, que levou três adias a consolidar, tendo tomado o governo do país pela força. Foi um golpe extraordinariamente sangrento. Contou com a adesão de quase todo o exército. Opôs-se-lhe, o quartel de fuzileiros, a Guarda-fiscal e a PSP, forças estas, apoiantes do governo do Partido Democrático de Afonso Costa.
Pela primeira vez na sua história, o Partido Democrático perde a rua. As casas de Afonso Costa e Norton de Matos são saqueadas.
A revolução sidonista é prenunciadora dos messianismos. Vêm na sequência do milagre de Fátima e do descalabro social, político e económico, de que Portugal é protagonista esse ano e que se traduziu no triunfo da corrente germanófila, manifestamente contrária à intervenção portuguesa na 1ª Grande Guerra Mundial ao lado dos aliados.
O saldo mais desastroso do consulado sidonista revelou-se pelo abandono do corpo expedicionário português à sua sorte, que culminou em 9 de Abril de 1918 no desastre da batalha de La Lys, na Flandres. No final da guerra, o CEP, havia perdido 7300 homens. Embora declarasse apoiar os aliados, Sidónio não substituiu o CEP quer quanto a homens quer quanto a apoio logístico, culminando com a insubordinação das tropas portuguesas em 4 de Abril de 1918, numa altura em que os alemães empreendem uma ofensiva em larga escala nessa frente de batalha. Após o desastre, a representação portuguesa na Flandres ficou reduzida a menos de uma divisão, perdendo autonomia e comandos próprios. São integrados no comando inglês, que os envia para a retaguarda para cavarem trincheiras.
Entretanto o primeiro-ministro Afonso Costa, e Augusto Soares, ao desembarcarem no Porto vindos do estrangeiro onde se haviam deslocado em missão oficial, são presos e enviados para o Forte de Elvas. O Presidente da República Bernardino Machado recusou renunciar ao cargo e foi intimado a deixar o país. A 8 de Dezembro é constituída uma Junta Revolucionária onde pontificará Machado dos Santos do Partido Regenerador.
Com a colaboração do Partido Unionista, do qual Sidónio Pais era membro, é instaurada uma ditadura militar. Sidónio dissolve o Congresso, decreta alterações à Constituição e introduz um regime presidencialista à maneira americana.
Em 8 de Abril de 1918, faz-se eleger Presidente da República, por eleições directas, numa altura em que os membros do seu partido lhe haviam já retirado o apoio e passado à oposição.
Às eleições de Abril, haviam-se recusado a participar os três grandes partidos da «República Velha», em oposição à «República Nova» sidonista.
Os monárquicos, que desde o 5 de Outubro de 1910 tudo faziam para minar o novo regime, apresentam-se em peso às eleições e auferem lugares no novo Congresso, à compita com católicos, conseguindo no entanto, o novel Partido Republicano, conquistar a maioria dos lugares e de igual modo a maioria governamental.
O governo de Sidónio irá ser apoiado por um variado leque de estratos sociais, quer de direita, quer até do movimento operário, à esquerda. É uma base política de apoio tão ampla quanto possível.
Em suma: Os descontentes, que eram aqueles que até aí tinham sido excluídos da partilha do poder ou sido pelo poder sacrificados. A realidade é que tal como o azeite e o vinagre, também as forças apoiantes em presença eram inconciliáveis. Sidónio Pais não consegue mantê-las unidas e a fronda desfaz-se. Aliás, a sua união assentava em três ideais: ódio a Afonso Costa e à política de guerra, e um vago desejo de ordem face à agitação social do país.
O regime sidonista foi marcado por uma crescente confusão política e administrativa, e por prisões e perseguições dos seus adversários, para o que foi útil a recente criada polícia política.
Um regime de terror se havia instalado, em que Sidónio Pais actuou como um soberano absoluto, gerindo a coisa pública despoticamente. Com Sidónio Pais, pela primeira vez em Portugal e na Europa, surge um regime ditatorial sui generis que virá a ser retomado pelos movimentos fascistas europeus, caso de Mussolini em Itália, ou de Primo de Rivera em Espanha.
A República Nova sidonista foi prenunciadora do «Estado Novo», que mais de uma década depois se irá instalar progressivamente em Portugal pela mão férrea de outro lente coimbrão: Oliveira Salazar.
Em 14 de Dezembro de 1918, Sidónio Pais é assassinado na Estação do Rossio por Júlio da Costa, antigo sargento que havia combatido os alemães em África e participado em 1910 na Rotunda, na implantação da República. O regime vivia então, momentos de agonia. Os monárquicos haviam-no minado por dentro. Aliás, desde a queda da monarquia não haviam deixado nunca, de conspirar e fomentar golpes e revoluções. O regime ia perdendo o controlo da situação em várias partes do país.
A pretexto da defesa da pátria e do regime contra os inimigos exteriores, haviam sido criadas juntas militares no norte e no sul do país, tendo na realidade com objectivo, a restauração da monarquia.
Será bom recordar, que na altura do seu assassinato, Sidónio ainda gozava de apoio de vastas camadas populares.
Por último, de referir que Sidónio Pais foi iniciado maçon em 1911 na Loja Estrela de Alva nº289, de Coimbra, com o nome simbólico de Carlyle.
No ano seguinte abandonou as suas actividades maçónicas. Quando presidente da República, apoiou as perseguições contra o Grande Oriente Lusitano Unido, que culminou no assalto e destruição das suas instalações após o primeiro atentado que sofreu em 6 de Dezembro de 1918 com o pretexto de que o seu autor era maçon.
A 14 desse mês era abatido num segundo atentado.
Após a morte de Sidónio Pais, o país mergulha numa das mais graves crises políticas da sua história moderna, em que se inclui o 19 de Janeiro de 1919 e a proclamação pelas juntas militares, da monarquia no Porto e em Lisboa.
Pedro Manuel Pereira
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA - UMA VISÃO MAÇÔNICA
Por Marcio Ailto Barbieri Homem - Triângulo José Carlos Bergman - GLMERGS (Brasil)
Reza o ritual do Aprendiz Maçom do R.E.A.A. adotado pela Grande Loja do Estado Do Rio Grande Do Sul, que a "maçonaria tem por fim combater a ignorância em todas as suas modalidades; é uma escola mútua que impõe este programa: (...) trabalhar incessantemente pela felicidade do gênero humano (...)". Mais adiante, uma frase, que particularmente reputo como uma das mais ricas e mais representativas de nossos verdadeiros objetivos: " ( A Maçonaria) É uma instituição que tem por objetivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, pelo aperfeiçoamento dos costumes, pela tolerância, pela igualdade e pelo respeito à autoridade e à religião".
"Felicidade do gênero humano" e " tornar feliz a humanidade". Não raro, em todas as obras e rituais maçônicos, deparamo-nos com a palavra "humanidade". A idéia do valor intrínsico da pessoa humana, encontra suas origens no pensamento clássico e no ideário Cristão. Na cultura ocidental, diversas referências encontramos sobre a criação do homem " à imagem e semelhança de Deus", premissa de que foi extraída a idéia de que todo ser humano é dotado de um valor próprio, intrínseco, na figura de uma só pessoa humana está representada toda a humanidade.
Ao longo da história, podemos comparar a evolução da espécie humana com a idéia do que a humanidade pensa sobre sua própria condição existencial. No pensamento estóico, verificado nas clássicas tragédias gregas, , já estava patente que o ser humano possuía uma dignidade que o distinguia das demais criaturas, no sentido de que todos são portadores da mesma, em que pese as diferenças sociais e culturais. Mesmo durante o medievo, Tomás de Aquino continuou sustentando a divindade da "dignitas humana". Immanuel Kant sustenta que o homem não pode ser tratado - tem mesmo por ele próprio - como objeto, pois em si está representada toda a humanidade. Os ideais da revolução francesa, com seu tríplice "Liberdade, igualdade e fraternidade", foram uma espécie de condensação de todo um pensamento filosófico produzido pela humanidade ao longo de sua existência.
No moderno pensamento filosófico e social, a questão da dignidade da pessoa humana está cada vez mais, ocupando espaço como a questão fundamental, pilar de toda existência social, não obstante flagrantes situações de desrespeito individual à condição humana, como bem vimos nos recentes conflitos que permearam o Séc XX. Mas, repito, desrespeito individual, uma vez que praticados por grupos contra grupos. A utópica realização plena da dignidade da pessoa humana continua a ser incansavelmente buscada pelas relações sociais e jurídicas de grupos de nações e grupos de pessoas, mesmo que entre este último, inconscientes de sua própria busca. Quanto à característica utópica dessa busca, lembro-me vagamente das palavras de Galleano, que situa a utopia no horizonte de suas intenções. A cada dez passos que tenta aproximar-se desse horizonte, dez passos ele se afasta. Vinte passos, e vinte passos afastados. Pergunta-se: "Mas afinal, porque a busco? Qual o objetivo de sua existência, se já me convenci de que é inalcançável?" E responde-se: "Seu objetivo é exatamente este, obrigar-me a dar os passos."
E a Maçonaria atual, em que ponto desta busca utópica se situa? Qual sua atuação no sentido de colaborar, enquanto Ordem, no reconhecimento universal da Dignidade da Pessoa Humana? A história é rica em relatar a participação de Maçons enquanto indivíduos, e da Maçonaria enquanto instituição, na petrificação dos ideais humanitários. A revolução Francesa, o abolicionismo da escravatura no Brasil, os diversos fatos e atos de ilustres maçons no reconhecimento e na implementação de um Estado igualitário, justo e perfeito. Ao lapidar a pedra bruta em que se reconhece, o Maçom tem por dever aparar as mundanas arestas que o tornam falível enquanto indivíduo, para que em si possa espelhar todo o valor da humanidade plena. Tem por dever absoluto preparar-se para ser o ponto reflexivo de tudo que em si representa esta idéia.
Ao jurarmos " ... conservar-me sempre cidadão honesto e digno, (...), nunca atentando contra a honra de ninguém...", estamos perante o Grande Arquiteto do Universo, prometendo envidar todos os esforços no sentido de valorizar um dos aspectos mais marcantes inerentes à dignidade da pessoa humana: A honra. Honra e Dignidade são palavras quase que sinônimas, pois encerram valores magnos pertinentes e exclusivos do ser humano.
Dignidade, ou honra neste caso, são amplamente garantidas na Carta Constitutiva do Brasil, e em quase todas as Constituições do mundo livre, em suas cláusulas imutáveis, ou pétreas. Mas como transformar a utópica afirmativa impressa na Constituição em fatos concretos, no nosso dia a dia? Não podemos mais, a exemplo do passado, destinar o Tronco de Solidariedade para a compra e alforria de um escravo, ou fomentar revoluções libertárias no interior de nossos templos.
Não podemos mais ficarmos adstritos aos Templos, enquanto lá fora a sociedade a qual pretendemos modificar através de nosso interior aperfeiçoamento, peca pela omissão quanto ao respeito a essa Dignidade. Quantas e quantas vezes, ao final de uma sessão, após um lauto ágape, embarcamos em nossos carros e, na primeira esquina, olhamos indiferentes ao ser humano, descalço, que implora ao "tio" uns trocados? Quantas e quantas vezes, enquanto cidadãos, encaramos impotentes e apáticos a ação do Estado contra as minorias menos abastadas? Quantas e quantas vezes, passamos por um animal maltratado e ficamos penalizados com sua situação, e quando olhamos nosso semelhante, não damos a devida atenção?
Ora, direis, contar estrelas... Quão inócuo é a observação dos problemas sem a devida apresentação de soluções práticas, e quão fácil é o tratamento filosófico a uma situação real. Mas a Maçonaria, se não esquecesse que a utopia é inatingível e não desse os primeiros passos rumo ao horizonte utópico, não teria como contabilizar entre seus feitos, uma revolução francesa, uma abolição da escravatura, e tantas outras ações tomadas a partir de um ideal humanitário. A nós, modernos Maçons, restam ainda muitos caminhos a serem trilhados. Se, unidos tal nossa simbólica Cadeia de União, agregarmos esforços conjuntos e reconhecermos nosso papel na luta pela Dignidade da Pessoa Humana em termos contemporâneos, ou seja: a garantia à vida, à saúde, à alimentação, à moradia, e a uma existência plena, estaremos justificando às gerações maçônicas passadas, e quiçá, às futuras, nossa razão de existir.
A proposta atual, e factível, é a educação da geração vindoura. Que nossas Lojas, nossos Maçons, aproveitem instituições já consagradas como apoio à educação infanto-juvenil, tais como o escotismo, os De Molay, as APJ's, os Amigos da Escola, as Filhas de Job, e outras, para que através de doações individuais ou enquanto Ordem - e tais doações não necessariamente financeiras - possam trabalhar valores que, num contexto a médio e longo prazo, farão a diferença na plena, e aí sim, concreta, valorização da Dignidade da Pessoa Humana. Que assim seja.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
OS INTELIGENTES CONSTRUÍRAM O MUNDO, OS ESTÚPIDOS VIVEM À GRANDE
quarta-feira, 13 de maio de 2009
ERA UMA VEZ UM PAÍS
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