sexta-feira, 10 de abril de 2009

CONFLITO DE GERAÇÕES

Falando sobre conflitos de gerações, o médico inglês Ronald Gibson começou uma conferência citando quatro frases: 1 «A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, graceja da autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos, hoje,são verdadeiros tiranos.Não se levantam quando uma pessoa idosa entra,respondem com maus modos aos seus pais.São simplesmente maus.» 2 «Não tenho nenhuma esperança no futuro do nosso paísse a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível.» 3 «O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os seus pais. O fim do mundo não pode estar muito longe.» 4 «Essa juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são malfeitores e preguiçosos. Jamais serão como a juventude de antigamente. A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura.» Após ter lido as quatro citações, ficou muito satisfeito com a aprovação que os espectadores davam às frases. Então, revelou a origem delas: A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.) A segunda é de Hesíodo (720 a.C.) A terceira é de um sacerdote do ano 2000 a.C. E a quarta estava escrita em um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia (actual Bagdad) e tem mais de 4000 anos de existência.

A maior lavandaria de dinheiro do mundo ameaça falir e poderá arrastar consigo, um país inteiro!!!

Para a União de Bancos Suíços, a coisa está muito feia! Agoniza o segredo bancário suíço. Artigo de Gilles Lapouge Paris A Suíça treme. Zurique alarma-se. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia dizer-se que estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço. O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira. A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça - viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados para defraudar o fisco. O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos EUA. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente. Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais! O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal. Mas como resistir! A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios. Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714. No início do século XIX, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas. Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe económica. Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 biliões de francos suíços ou 201 milhões de dólares. E não se trata apenas do UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem frutificar três triliões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os activos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são nitidamente minoritários. Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros "offshore" do mundo, bem à frente do Luxemburgo, Caribe ou do Extremo Oriente. Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos. O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um carácter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e realizam-se em silêncio e recolhimento.... Onde param as fortunas recolhidas pela Alemanha Nazi? Onde estão as fortunas colossais de ditadores como Mobutu do Zaire, Eduardo dos Santos de Angola, dos Barões da droga Colombiana, Papa-Doc do Haiti, de Mugabe do Zimbabwe e da Máfia Russa? Quantos actuais e ex-governantes, presidentes, ministros, reis e outros instalados no poder, até em cargos mais discretos como Presidentes de Municípios têm chorudas contas na Suíça? Quantas ficam eternamente esquecidas na Suíça, congeladas, e quando os titulares das contas morrem ou caem da cadeira do poder, estas tornam-se impossíveis de alcançar pelos legítimos herdeiros ou pelos países que indevidamente espoliaram? Porque após a morte de Mobutu, os seus filhos nunca conseguiram entrar na Suíça? Tudo lá ficou para sempre e em segredo... A agora surge um outro perigo, depois do duro golpe dos americanos. Na minicúpula europeia que se realizou em Berlim, de preparação para o encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. "Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional", vociferou a chanceler Angela Merkel. No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, quando serão debatidas as sanções a serem adoptadas contra os paraísos fiscais. Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise. Viva a crise!!! Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade desses remansos de paz para o dinheiro corrompido. Hoje ele é presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves nesse país. Nos anos 30, os americanos conseguiram prender Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal. Está para breve a queda do império financeiro suíço!

quarta-feira, 8 de abril de 2009

BUNKER DA ESPERANÇA – A TERTÚLIA

A esquerda, Artur Bual abraçado a Augusto Cabrita Pelos idos da década de setenta, após o 25 de Abril, surgiu já não sei bem como nem por iniciativa de quem, uma tertúlia bastante alargada onde pontificavam pintores, poetas, escritores, actores, jornalistas e por aí fora, gente famosa uns, outros, menos que tal, que às terças-feiras se reunia num almoço que se prolongava pela tarde fora nos baixos do Palácio da Independência, ao Largo de S. Domingos, em Lisboa. Era numa semi-cave bem funda, para a qual se entrava a partir do lado da rua das Portas de Santo Antão. Atravessava-se uma mercearia para uso dos sócios da A.D.F.A., que tinha a sua sede no Palácio e descia-se a uma espécie de catacumbas de paredes robustas, iluminadas por umas modestas lâmpadas dependuradas dos tetos, debitando uma luz amarelada. Ligado por uma porta e uma janela à sala dos ágapes, entrava-se numa pequena dependência que fazia de cozinha e onde todas as semanas dois convivas que voluntariamente se haviam oferecido na terça-feira anterior, cozinhavam para os restantes companheiros. Normalmente a comida nunca chegava para todos porque havia sempre quem trouxesse de surpresa mais um, dois, três amigos com os quais os improvisados cozinheiros não contavam. Esses acabavam a comer umas conservas de lata compradas à pressa na mercearia. Pão, vinho, azeitonas e mais um espaço nos bancos corridos havia sempre. Foi numa terça-feira que o Artur Bual me levou a almoçar a esse lugar fantástico. Tinha-me avisado de véspera, imperativo: Ouve lá menino... amanhã vais almoçar comigo a um sitio muito giro! É tudo malta porreira... um lugar de encontro a dar para o conspirativo... Sem dúvida. Lá estive com o Bual, tendo como grande surpresa a alegria de encontrar vários amigos de antanho, alguns, a viverem ou naturais do Barreiro. Era ali, naquele lugar, nos baixos do Palácio dos conspiradores de 1640, que às terças-feiras, homens e mulheres faziam acontecer poesia, desenho, pintura, oratória, discursos inflamados sobre tudo, menos política ou religião. Eram as terças-feiras mágicas da dádiva, da fraternidade, da solidariedade. Um porto de abrigo, de chegada, mas também de partida, após retemperadas que fossem as forças físicas e anímicas. Era um reduto, um baluarte, o Bunker da Esperança. Foi assim baptizado, por sugestão de Mestre Artur Bual. Gravado ficou numa das paredes, pelo grande Mestre da vida que foi o poeta e pintor Moita de Macedo, entusiasticamente aplaudidos de pé pelos presentes no final de um repasto, em que o António Monginho nos declamou uns quantos dos mais belos poemas vertidos da sua pena. Para o final do almoço, o actor Mário Pereira entendeu por bem que tínhamos de continuar a festejar o baptizado do lugar num espaço mais aberto e iluminado e, assim, fomos para o bar do Teatro Nacional D. Maria II ali quase ao lado, onde o saudoso actor Ribeirinho, atravancado de papelada numa mesa de canto, impunha algum respeitoso silêncio. Curioso, que dentro da aparente anarquia reinante no seio daquela tertúlia existia alguma aceitação de organização, tanto assim que quem presidia aos almoços, conduzindo as intervenções com uma sineta, era o capitão Calvinho, à data, presidente da ADFA que era consensualmente eleito pelos presentes no final do ágape de cada semana, para a semana seguinte. Ao longo dos meses que por lá passei, pude assistir a um crescente preenchimento do espaço das paredes daquela quase cave, por via de poemas, declarações de amor, citações filosóficas, mas sobretudo muita pintura, do Bual, do Kira, do Moita de Macedo e outros. Um dia, numa tarde de sábado outonal, noutro lugar mágico da vida do Artur Bual, o seu atelier na Amadora, uma cave de um prédio incaracterístico que frequentei desde criança, talvez a minha primeira e maior escola, perguntei-lhe da razão porque havia sugerido que a catacumba dos ágapes se chamasse de Bunker da Esperança. Respondeu-me: - Porque o sitio tem ar de bunker e as pessoas que o frequentam não estão ali com má língua, mas em redondo, em liberdade (...) dizem o que entendem sem censuras, de olhos nos olhos e são fraternos, mesmo quando não se conhecem (...) a malta que aí vem há-de ser assim. Pedro Manuel Pereira

PERFIL DO PORTUGUÊS TÍPICO

- NOME: António Manuel (tómané) - PROFISSÃO: Funcionário público - IDADE: 43 anos - ALTURA: 1,62 m (sem sapatos, porque com sapatos, que é o que interessa, 1,66 m) - PESO: 83,4 Kg - OLHOS: Castanhos (verdes no verão) - SINAIS PARTICULARES: Bigode - NOME DA MULHER: ' A minha esposa chama-se Ivone e é uma senhora que se dá ao respeito, por isso nada de porcarias ao pé dela...' - SINAIS PARTICULARES DA MULHER: 123-96-148 ('mas era cá um avião quando era nova...!) - FILHOS: 1,5 (1 legitimo, mais 0,5 a dividir com o marido da amante) - CLUBE: Benfica - ÍDOLO: Luis Filipe Vieira. ('se o homem fosse desonesto, já o tinham prendido...vocês é que têm dôr de corno !!!!!') - ÓDIO: a RTP1 ('não a vejo, porque é dos 'gajos'. Só vejo a SIC e a TVI que são nossas !' ) - DESPORTO PREFERIDO: Morfar. - PRATO FAVORITO: Pezinhos de coentrada e pudim Molotof. - RECORD PESSOAL: Cuspidela de 4,4 m (vento regular) - SITUAÇÃO IDEAL PARA FAZER AMOR: O que é isso? - FRASE PREFERIDA PARA A COMPANHEIRA: 'Mas a conversa já chegou à cozinha?!' - PERFORMANCE SEXUAL: 3,84 minutos no acto ('record alcançado duas vezes, a primeira em 3-07-1975 e a segunda no dia 4-05-1996, e não precisei para nada dessa porcaria do Viagra!....') - DIMINUTIVO DA SOGRA: Cabra. - PENSAMENTO SOBRE O SOGRO: 'Até que era um gajo porreiro...' - PENSAMENTO SOBRE A VIDA: 'Desde que haja comidinha na mesa e que o Benfica não perca (sinais dos tempos...), estou-me a cag*r para o resto.... ' - POSIÇÃO SOBRE OS BOMBARDEAMENTOS: ' Rebentem as fronhas aos monhés!' - MUSEU FAVORITO: o Trombinhas ('...vou lá para ver as estátuas...não sei se 'tás a ver?!) - HOBBY preferido: 'adoro encontrar-me com uns amigos para podermos conversar sobre gajas e futebol' - O QUE MAIS GOSTA EM PORTUGAL: Amália (sempre), Salazar ('se o homem cá tivesse andavam todos na linha'), Bárbara Guimarães (Viste-me aquela tranca pá!?....) - O QUE MENOS GOSTA EM PORTUGAL: 'Esta m*rda 'tá a ficar cheia de pretos, pá... deviam mas'é mandar os gajos p'a terra deles...' - JORNAL PREFERIDO: A Bola ('Ao Sábado, na casa de banho... enquanto c*) - LOCAL DE FÉRIAS IDEAL: 'O Correia foi a Cuba de ferias, sem a patroa e diz que aquilo é à fartazana...' - LOCAL DE FÉRIAS: ' Havias de ver a roulote que tenho no parque da Costa, aquilo é um luxo, e no Verão com o adiantado para as sardinhadas fica um mimo!...': - GRANDES ASPIRAÇÕES NA VIDA :'Benfica campeão, um Jipe , uma mota-de-água e um telemóvel dos que tiram fotografias '

A RUNIÃO – INSTITUIÇÃO OU PRAGA NACIONAL?

A «runião» aparenta ser uma nova instituição nacional. Nossa. Muito portuguesinha. Assim parece. É um termo híbrido que serve para designar qualquer coisa entre «reunião» e «não estou para aturar esse gajo(a)». Por tudo e por nada e mais não sei quê, se «rune». As 2ªs feiras são sempre as mais afreguesadas em termos de «runiões». O pessoal, invariavelmente, arriba mal disposto e cansado dos transportes ao seu local de trabalho, após dois dias de merecido remanso. Logo, para retomarem a rotina, para colocarem os neurónios no sítio, têm de entrar em «runião», senão dão em doidos com a trabalheira do dia-a-dia. No mor das vezes, assim a modos que entram numa espécie de stress alentejano e depois têm de encontrar um ombro que os apoie fora do lar, ou, ir ao psiquiatra para que este lhes receite uns drunfos que os deixe zombies e por isso, também, muitos passam a estar permanentemente em «runião». Eles são nas empresas, nas escolas, no comércio, nas autarquias ou na função pública em geral. Ligamos e do outro lado da linha uma telefonista de voz robótica, ao pedido de contacto com a pessoa e depois de nos deixar pendurados ao telefone, a secar como os bacalhaus, responde-nos: «o sôtôr está em runião». Mesmo que seja um analfabruto com duvidosa instrução primária, basta que ocupe um lugar de chefia para ser sôtôr, presidente de qualquer coisa e, às vezes, engenheiro. Normalmente de «obra feita», como diziam os antigos. A «runião» é também designada por aqueles que lêem os jornais de negócios, por «mitingues». Estes são os mesmos que frequentam muitos congressos onde assistem a conferências a que chamam de «painéis». Por isso os seus frequentadores são conhecidos por paineleiros. Não perdem um painel nem as «visitas de estudo» que acompanham este tipo de eventos, normalmente a locais fechados onde se bebem umas bejecas à média luz, acompanhadas com música de muitos decibéis, luzes psicadélicas e maralhal aos saltos, cada um para seu lado com ar de autistas. Estar em «runião» para quem quer que procure este tipo de criaturas, confere-lhes {pensam eles…} status, que se traduz por arrogância para com tudo e com todos, menos para os superiores hierárquicos, a quem se curvam, tanto, em vénias que às vezes se lhes vêem as cuecas, para não dizer, o cú. Entretanto, os índices de produtividade nacional continuam a cair de dia para dia, na razão directa da multiplicação das «runiões». Parece que Portugal é o país da CE onde menos se produz, donde se conclui, que quanto mais «runiões» se realizam, mais o país se afunda e que a «runião» não é uma instituição nacional, como aparenta ser, mas uma praga, um verdadeiro flagelo nacional. Asdrúbal da Purificação

DOIS QUINTOS DO INFERNO

Durante o século XVIII, o Brasil-colónia pagava um alto tributo ao seu colonizador: Portugal. Este tributo incidia sobre tudo o que fosse produzido em terras de Vera Cruz e correspondia a 20% dessa produção. Esta alta taxa, absurda tinha por nome, «O Quinto». Taxa esta que incidia, principalmente, sobre a produção de ouro brasileiro. «O Quinto» era odiado por quase toda a gente, pelo que foi apelidado de «O Quinto dos Infernos». No ensino elementar, no Brasil de hoje, nas aulas de História do Brasil, é ensinado que Portugal quis, em determinado momento, cobrar os «quintos» atrasados de uma única vez – no episódio conhecido como «A Derrama», facto este que revoltou a população, tendo dado origem ao movimento conhecido como Inconfidência Mineira, que teve o seu ponto culminante no enforcamento do líder Joaquim José da Silva Xavier, o «Tiradentes». Apesar dos livros escolares ainda apresentarem um «Tiradentes» como herói, sabe-se hoje, que foi um dos maiores contrabandistas de ouro do Brasil. Mas, o curioso é que contrabandeava justamente para fugir dos altos tributos impostos pela coroa portuguesa. Afinal, quem aguenta um imposto de 20% do PIB?… O alferes «Tiradentes» e os seus companheiros contrabandeavam o produto do país, para fugir do «Quinto dos Infernos». A diferença entre os dias do «Tiradentes» e os nossos dias, é que naquele tempo uma voz ergueu-se e lutou pelo fim do imposto absurdo, sendo levado à morte por este ideal. Hoje, a carga tributária em Portugal é muito superior à da época da Inconfidência Mineira, praticamente o dobro. Ou seja, hoje pagamos «Dois Quintos dos Infernos». Só precisamos de encontrar um novo «Tiradentes» que nos salve, portugueses, da canga tributária que asfixia a classe média, sustentáculo económico e social da nação, que o mesmo é dizer: que salve o país do buraco em que sucessivos governos relapsos e mal fadados a meteram e persistem em fazê-lo. Asdrúbal da Purificação

DO DESENVOLVIMENTO URBANO DA VILA DE ALVOR

DESENVOLVIMENTO URBANO DA VILA DE ALVOR A fixação de gentes na área desta localidade perde-se na origem dos tempos. Os registos históricos mais remotos são atestados através de vestígios de ocupação humana durante o Período Paleolítico. Através de vestígios arqueológicos tem sido possível ao longo dos anos encontrar pistas de outras civilizações, nomeadamente Celtas, Godos, Romanos e Árabes 1. Destes últimos, herdou esta povoação o seu topónimo, que se mantém até aos dias de hoje. Com a Reconquista cristã, o Alvor entra para a Coroa portuguesa, porém, deste facto só se encontra o primeiro registo no ano de 1300, quando o rei D. Dinis manda restaurar o castelo, que se encontrava bastante arruinado 2. Até ao século XVIII o povoado vai manter praticamente o traçado e as habitações herdadas da Reconquista cristã, ou seja, um traçado urbano tortuoso, constituído por becos e pequenas vielas estreitas, de piso calcetado. Porém, todo o sul de Portugal e neste caso esta vila, sofreram as consequências de três ruinosos terramotos {6 de Março de 1719; 27 de Dezembro de 1722 e 1 de Novembro de 1755}, sendo que este último, para além da destruição da Torre da Igreja Matriz, arruinou as Igrejas de D. João, S. Pedro, e S. Sebastião, destruiu parte do seu antigo castelo, e o maremoto que se lhe seguiu, submergiu as hortas e a ermida de Nª. Sr.ª da Ajuda, tendo ainda derrubado 27 casas de habitação, o que, alterou profundamente o traçado urbano desta vila 3. A consequência dessa catástrofe, mais visível nos dias de hoje, verifica-se pelo posicionamento da porta de entrada da Igreja Matriz, que dá para um descampado, a que o povo lhe chama de Vila Velha. Este facto resulta precisamente, da destruição da vila em 1755, «em que o mar entrou 667 metros pela terra dentro» 4, tendo a partir daí, sido empreendida a sua reconstrução no seguimento do lado esquerdo da referida Igreja. Em 1756, no ano seguinte ao terramoto, registava esta povoação 233 fogos e 916 habitantes. Trata-se do primeiro recenseamento fiável efectuado nesta localidade 5. Ao longo dos anos, as actividades económicas da vila, como a pesca, actividades derivadas desta actividade, agricultura, salinas, e algum comércio, condicionaram indubitavelmente a disposição da sua malha urbana. Povoação virada à Ria de Alvor, em alcantilado, quase como um anfiteatro, a vida da população foi desde sempre de forma fundamental, vocacionada para a actividade económica do rio e do mar. Factores não displicentes, que desde sempre condicionaram e de certa forma não permitiram uma evolução demográfica constante ao longo dos anos, encontram-se relacionados com ciclos epidémicos como a meningite e a tuberculose, e por outro lado, porque até aos anos 40 deste século a freguesia de Alvor era uma zona endémica no que reporta à malária ou sezões, que ceifavam dezenas de vidas todos os anos. A partir de meados de 1950, a forma desequilibrada como se processou o crescimento económico em Portugal, provocou graves assimetrias que se reflectiram numa dicotomia campo/cidade, urbano/rural, a que o Alvor não foi imune. Reflexo mais evidente deste facto, sobre o ponto de vista demográfico, verificou-se no afluxo de gente do campo para o litoral à procura de melhores condições de trabalho. Porém, tal não se reflectiu de forma importante em Alvor. Não obstante, a partir dos anos 60, a vila, tal como todo o Algarve, sofreu um forte abalo nas suas estruturas económicas, sociais e urbanas, por via de uma verdadeira «revolução turística» iniciada então, e que se mantém até aos dias de hoje. Saliente-se no entanto, que não houve entretanto alteração na sua malha urbana nem tão pouco um aumento significativo de habitações ou outras construções, de forma a alterar de forma radical o seu traçado. Em parte, porque a sede do concelho {Portimão} se encontra a seis quilómetros e oferece melhores condições ao nível das acessibilidades, oferta de serviços, melhores terrenos para a construção civil e sobretudo oferta de emprego. Todos estes factores conjugados reverteram negativamente para o Alvor, que de então para cá, tem visto o seu parque imobiliário a envelhecer, diríamos até, de forma decrépita. Face à sede do concelho, o núcleo principal de Alvor é um povoado típico que aparenta ter parado no tempo. Embora não muito fiável no que reporta aos séculos XVIII e XIX, não encontrámos outras fontes que nos possam confirmar estes números. Quanto à evolução do número de edifícios urbanos/população, para o século XX, encontram-se referidos nos censos nacionais, embora com graves lacunas, dado até 1970 surgirem enquadrados no total dos números do concelho de Portimão, de que esta freguesia faz parte. Conforme podemos verificar para os séculos XVIII e XIX o número de moradores por habitação não sofreu oscilações, isto é, manteve-se entre os 3,3 e 3,9 habitantes/casa, o que manifesta alguma estabilidade ou antes, estagnação na evolução demográfica e de construção urbana desta vila. Porém, no início do século XX, encontramos registada uma população residente de 3.014 pessoas, número inferior ao verificado dois anos antes (1898), o que pressupõe um pequeno decréscimo populacional, sem que, no entanto possamos estabelecer dados comparativos com o número de alojamentos uma vez que nos falta esse dado para 1900. Estamos porém em crer que, não tenha havido nenhum acréscimo substancial de habitações nesses dois anos. Assim, podemos pressupor que em 1900, o número de habitantes por moradia fosse de 2 pessoas. Para concluir, verificamos que entre os anos de 1970 e 1991, não se registou uma evolução demográfica significativa relativamente ao verificado no ano de 1900, observando-se que, o número de construções em novos espaços na área urbana desta vila para este período é mínimo, o que vem reforçar o que enunciámos no início deste capítulo, ou seja: o Alvor, neste momento regista um parque imobiliário urbano envelhecido, enquadrado numa malha urbana ancestral, a qual foi sujeita a pequenas alterações em parte, fruto das catástrofes naturais do século XVIII, em particular a verificada em 1755. Notas 1 – Oliveira, Ataíde, Monografia de Alvor, ed. facsimilada, 3ª ed.,Editora Algarve em Foco, Faro, 1993, pg.14 2 – Ibidem, pg.69 3 – “Relação Anónima do Terramoto de 1 de Novembro de 1755”, in Fontes Setecentistas para a História de Lagos, Centro de Estudos Gil Eanes, Lagos, 1996 4 – Monografia de Alvor, pg.113 5 – Ibidem, pg.129 Pedro Manuel Pereira

PALÁCIO SÁRREA GRAFIAS

Situado no centro histórico da cidade de Portimão, o Palácio Sárrea Grafias encontrava-se enquadrado por alguns imóveis de relevante traça arquitectónica. Destacava-se este imóvel de entre a arquitectura civil histórica desta localidade, quer pela sua volumetria quer pela sua originalidade. De linhas marcadamente neoclássicas, encimava o seu frontão ondulado umas águas-furtadas. No seu interior e não obstante as sucessivas obras de adaptação que sofreu ao longo dos anos, ainda conservava até ser derrubado, muita da decoração de finais do século XVIII, nomeadamente, alguns estuques originais ricamente trabalhados, lambris e azulejos datados do primeiro quartel do século XX. A divisão que melhor preservava a decoração de estuque do tecto era a antiga sala de audiências do antigo Tribunal. Grande parte das divisórias das várias dependências encontravam-se concebidas em estilo “gaiola”, solução arquitectónica frequente desde finais do século XVIII. Com a venda do edifício tempos após a implantação da República, o brasão de família que encimava a frontaria do edifício, foi substituído por um “outro” identificando o Tribunal. A partir do átrio de entrada, subindo as escadas, podia observar-se, no tecto, o escudo da República com a legenda: Paços do Concelho. A área total do edifício ocupava grande parte do quarteirão e como todos os monumentos com história, quase que podemos dizer ter sido um imóvel com “personalidade”, dado nele ter ficado impressa de forma indelével, a personalidade dos seus antigos proprietários. Defronte, construído posteriormente, porém organizado e ordenado de harmonia com a fachada deste solar, encontra-se o Jardim 1º de Dezembro {concluído em 1931} com uma escadaria ladeada ao topo por duas estatuetas em estilo Arte Nova, realçando a imponência e dignidade do edifício, por onde nos últimos séculos passou boa parte da história de Portimão. Das janelas do 1º andar avistava-se, além do jardim e do casario, o magnífico espelho de água que é o rio Arade. Nas suas traseiras, a poucos metros, a Igreja Matriz de Portimão. Este solar, tal como tantos outros edifícios notáveis por este país fora, foi ao longo dos tempos utilizado para fins bem diversos daqueles para os quais havia sido destinado, pelo que hoje se torna difícil saber quais as estruturas originais que constituíram a primitiva casa senhorial. Construído em data incerta, antes do terramoto de 1755 {provavelmente entre os séculos XVI e XVII} foi propriedade de Manuel José da Serra Garfias Tavares Torres, tendo sido reedificado na traça - que ostentou até à sua demolição -, entre 1793 e 1796, por Joaquim Ignácio Pacheco de Sárrea. Importante e abastada família local, os Sárrea Garfias estiveram na origem da Empreza de Abastecimento d’Águas Sarrea Prado e Commandita, que servia a Vila Nova de Portimão. Ao longo dos anos, o interior do imóvel sofreu bastantes alterações em função das necessidades orgânicas do seu espaço. As primeiras de que há registo deram-se em 1915 quando da instalação dos Paços do Concelho, tendo-se seguido outros serviços públicos, entre os quais, o Cartório Notarial, a Biblioteca Municipal, a Escola Primária, o Posto de Turismo, Correios e Telégrafo, a Guarda Nacional Republicana, o Registo Civil e Predial, a Repartição de Finanças e o Tribunal da Comarca. A grandiosidade do edifício era proporcional à importância que tiveram os seus proprietários ao longo dos tempos, assumindo-se como um símbolo do seu poder político, social e económico. Por outro lado, a escolha da localização do imóvel não foi aleatória, uma vez que se encontrava estrategicamente situado em função da estrutura da antiga malha urbana, ou seja, próximo do rio e em simultâneo, suficientemente distante. Próximo da antiga Alfândega e do porto, assim como da Igreja Matriz e das principais vias de comunicação. Acresce que, duas das entradas das antigas muralhas da cidade se situavam a poucos metros deste palácio. A porta da Guarda à esquerda e a porta de S. João à direita, o que vem reforçar a importância estratégica da construção deste imóvel. Os Sarrea eram grandes proprietários fundiários, sabendo-se que só no concelho de Portimão possuíam a Quinta da Donalda e a Quinta do Poço do Bispo. Em simultâneo desempenharam elevados cargos militares, tais como, governadores militares da Vila, escudeiros e cavaleiros fidalgos do rei. Além disso, a quase totalidade dos filhos varões foram cavaleiros professos da Ordem de Cristo. Desempenharam prestigiados e importantes cargos na administração civil. Assim, em 1727 encontramos Luís Simões Sarrea {que comprou a Quinta da Donalda} como juiz da Alfândega de Portimão, Gaspar Simões Sarrea de Telles Moniz feitor e recebedor do consulado da mesma alfândega, em 1761, Manuel José Sarrea Tavares para além das funções referidas, era almoxarife e juiz dos direitos da portagem de Vila Nova de Portimão, e por aí fora... Desta forma se compreende a importância desta família no seio da oligarquia dominante do concelho e até da região, acrescida pela prática de casamentos entre famílias poderosas. Adeptos de D. Miguel, quando da guerra civil de 1832-1834, entre liberais e absolutistas, defenderam a causa destes últimos. Terminada a guerra, foram perseguidos pelo novo regime, iniciando-se a partir de então, a perda de poder e de influência ancestrais desta família. Na sequência da implantação da República, em 1915 o solar foi adquirido pelo executivo camarário, tendo nele sido instalados os Paços do Concelho e uma Escola de Artes e Ofícios. Da venda do imóvel não se conhecem os verdadeiros motivos. Em 1951 os Paços do Concelho mudam-se de novo, desta feita, para onde se encontram actualmente: o Palácio Bívar. Pedro Manuel Pereira