Por Asdrúbal da Purificação
O senhor Barnabé Viçoso era um português como tantos outros, de barriguinha proeminente, com falta de cabelo no alto do cocuruto e um farfalhudo bigode por baixo do narigão vermelhusco.
Apresentava-se como um devorador compulsivo das letras gordas dos jornais desportivos, sem grandes preocupações intelectuais que lhe tolhessem o cérebro, fanático de um clube que se encontrava na 1ª Divisão, amigo das patuscadas ao fim-de-semana e inimigo da azia e da dor de cabeça às 2ªs feiras.
Possuía um carro japonês de último modelo e um apartamento duplex nas Olaias com cinco assoalhadas. Era director de departamento numa empresa multinacional de higiene íntima feminina, auferindo um ordenado acima da média. Estava casado há uma meia dúzia de anos com uma vistosa mulher de cabelos loiros, traseiro sólido saliente e seios empinados, com quem lhe dava gosto sair à rua e provocar inveja aos amigos nos convívios sociais.
Em suma: a vida corria-lhe de feição. Era um gosto vê-lo, ostentando nos lábios um permanente sorriso de quem estava bem consigo e com o mundo, sempre amável e cortês para todos quantos com ele conviviam.
Mas um dia (há sempre um dia…) algo começou a nascer de mansinho, que veio quebrar aquela santa paz, aquela beatífica e seráfica forma de vida. A desgraça, o opróbrio, o ostracismo ameaçavam-no a breve prazo.
Insidiosamente, as televisões, as rádios os jornais, os membros do conselho de administração e os colegas da sua empresa, o porteiro, o padeiro, a mulher-a-dias, a esposa (a santa fada do lar) e a sociedade em geral, começaram a proclamar a toda a hora as virtudes medicinais, o segredo de bem-estar na vida e em sociedade, quiçá, em caso extremo, sobreviver, que outra coisa mais singela não era que passar a vestir de cor-de-rosa desmaiado, incluindo a roupa interior (homens e mulheres), ingerir alimentos cor-de-rosa, raciocinar em cor-de-rosa e ser tementes e reverentes ao Chefe todo-poderoso e às demais autoridades do Estado que ele dominava com mão de ferro.
Mais, a moda avançava tão rapidamente, que todo aquele que não aderisse a ela arriscava-se a ser desprezado, despedido do emprego, marginalizado pelos amigos e pela família, banido da sociedade e, quem sabe até, vir a tornar-se num sem abrigo.
Idolatrar o chefe cegamente, incensá-lo na penumbra das latrinas, admirar-lhe as suas imaculadas camisas brancas por baixo dos fatos cinzentos impecáveis, como o de uma recatada virgem conventual, sorver e decorar avidamente os seus discursos, as suas intervenções, acompanhadas de gesticulações robóticas, botadas numa maravilhosa voz fanhosa, só possível graças à natureza, que generosamente o havia dotado de uma penca estilo broca de cavernas, era o dever de todo o cidadão.
É evidente, que à semântica hermética das suas faladuras ao povo, só os acólitos mais próximos tinham acesso, o condão de as descodificar e retransmitir ao povoléu. De entre eles, fervorosos e reverentes merecem destaque o sub-chefe “boquinha-cu-de-galinha” e o contra-chefe “malhar-na-direita”, lídimos espécimes vivos invertebrados fora de água salgada.
O que trazia atormentado, pois, o senhor Barnabé Viçoso era o facto de ser daltónico, e por tal facto, ter dificuldade em destrinçar a cor-de-rosa desmaiada do vermelho, ou outra cor aparentada, facto que lhe começava a complicar gravemente a vida no seio da nova sociedade que anunciava uma nova era.
quinta-feira, 12 de março de 2009
PARÁBOLA DO PORTUGUÊS EX-FELIZ
Por Asdrúbal da Purificação
O senhor Barnabé Viçoso era um português como tantos outros, de barriguinha proeminente, com falta de cabelo no alto do cocuruto e um farfalhudo bigode por baixo do narigão vermelhusco.
Apresentava-se como um devorador compulsivo das letras gordas dos jornais desportivos, sem grandes preocupações intelectuais que lhe tolhessem o cérebro, fanático de um clube que se encontrava na 1ª Divisão, amigo das patuscadas ao fim-de-semana e inimigo da azia e da dor de cabeça às 2ªs feiras.
Possuía um carro japonês de último modelo e um apartamento duplex nas Olaias com cinco assoalhadas. Era director de departamento numa empresa multinacional de higiene íntima feminina, auferindo um ordenado acima da média. Estava casado há uma meia dúzia de anos com uma vistosa mulher de cabelos loiros, traseiro sólido saliente e seios empinados, com quem lhe dava gosto sair à rua e provocar inveja aos amigos nos convívios sociais.
Em suma: a vida corria-lhe de feição. Era um gosto vê-lo, ostentando nos lábios um permanente sorriso de quem estava bem consigo e com o mundo, sempre amável e cortês para todos quantos com ele conviviam.
Mas um dia (há sempre um dia…) algo começou a nascer de mansinho, que veio quebrar aquela santa paz, aquela beatífica e seráfica forma de vida. A desgraça, o opróbrio, o ostracismo ameaçavam-no a breve prazo.
Insidiosamente, as televisões, as rádios os jornais, os membros do conselho de administração e os colegas da sua empresa, o porteiro, o padeiro, a mulher-a-dias, a esposa (a santa fada do lar) e a sociedade em geral, começaram a proclamar a toda a hora as virtudes medicinais, o segredo de bem-estar na vida e em sociedade, quiçá, em caso extremo, sobreviver, que outra coisa mais singela não era que passar a vestir de cor-de-rosa desmaiado, incluindo a roupa interior (homens e mulheres), ingerir alimentos cor-de-rosa, raciocinar em cor-de-rosa e ser tementes e reverentes ao Chefe todo-poderoso e às demais autoridades do Estado que ele dominava com mão de ferro.
Mais, a moda avançava tão rapidamente, que todo aquele que não aderisse a ela arriscava-se a ser desprezado, despedido do emprego, marginalizado pelos amigos e pela família, banido da sociedade e, quem sabe até, vir a tornar-se num sem abrigo.
Idolatrar o chefe cegamente, incensá-lo na penumbra das latrinas, admirar-lhe as suas imaculadas camisas brancas por baixo dos fatos cinzentos impecáveis, como o de uma recatada virgem conventual, sorver e decorar avidamente os seus discursos, as suas intervenções, acompanhadas de gesticulações robóticas, botadas numa maravilhosa voz fanhosa, só possível graças à natureza, que generosamente o havia dotado de uma penca estilo broca de cavernas, era o dever de todo o cidadão.
É evidente, que à semântica hermética das suas faladuras ao povo, só os acólitos mais próximos tinham acesso, o condão de as descodificar e retransmitir ao povoléu. De entre eles, fervorosos e reverentes merecem destaque o sub-chefe “boquinha-cu-de-galinha” e o contra-chefe “malhar-na-direita”, lídimos espécimes vivos invertebrados fora de água salgada.
O que trazia atormentado, pois, o senhor Barnabé Viçoso era o facto de ser daltónico, e por tal facto, ter dificuldade em destrinçar a cor-de-rosa desmaiada do vermelho, ou outra cor aparentada, facto que lhe começava a complicar gravemente a vida no seio da nova sociedade que anunciava uma nova era.
terça-feira, 10 de março de 2009
O CONTROLO DA OPINIÃO PÚBLICA
Por P.M.P.
”Aqueles que pretendem entender o passado e moldar o futuro devem prestar muita atenção não apenas às suas práticas, mas também à estrutura doutrinária que as sustenta.”
Noam Chomsky
Há mais de 260 anos, David Hume, ao abordar a problemática da obediência civil, chegou à conclusão que o governo de uma nação se baseia no controlo da opinião, princípio que abarca todos os governos: as ditaduras civis, as ditaduras militares, os nepotismos e até, as democracias.
Assim, na prática, de acordo com a gestão das democracias ocidentais, a população pode ser “espectadora”, mas não “participante”, salvo quando coloca o voto na urna no acto eleitoral. Ou seja, na ocasional escolha de líderes partidários, porque onde se definem os verdadeiros rumos da política, é no campo económico, área de onde a população em geral deve de ser excluída.
Desta forma, existem doutrinas concebidas para impor o novo “espírito” da “democracia” segundo os moldes neoliberais, esta, de resto, actualmente em crise.
Para os teóricos do controlo das massas, a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizadas das massas constituem importantes componentes das sociedades ditas democráticas.
Por tal forma, as minorias informadas para atingirem os seus objectivos, devem fazer uso contínuo e sistemático da propaganda.
Uma vez que compreendem os processos mentais e os padrões sociais das massas, podem manejar com relativa facilidade a opinião pública, dado que a referida sociedade consentiu em aceitá-la sem se manifestar, por desinformada que está.
A importância do controle da opinião define-se claramente à medida que a sociedade organizada consegue ampliar as modalidades de democracia, fazendo emergir, aquilo que as elites liberais denominam eufemisticamente de “crise da democracia”, que sucede quando as populações relativamente apáticas ou passivas se organizam e tentam penetrar na esfera política na procura dos seus interesses, “lesando” os interesses da “ordem” e da “estabilidade” da classe dominante.
Neste âmbito, a minoria informada assume-se como uma “classe especializada”, responsável pelo estabelecimento de políticas de governo e pela “formação de uma sólida opinião pública”, pelo que, deve encontrar-se distanciada da interferência do público em geral, este, formado por pessoas “ignorantes e intrometidas, alheias ao processo”. O povo deve ser “colocado no seu devido lugar”. “Aprender” a sua função, ou seja: a de “espectador da acção”.
Nas sociedades de regras democráticas mais amplas, nas quais, for força da lei e dos costumes não se deve recorrer à força, os administradores políticos fazem uso de sofisticadas técnicas de controlo, amplamente baseada na propaganda. Se o leitor reparar, este tipo de actuação é aparentado à boa e velha doutrina leninista! A similaridade entre a teoria democrática progressiva {neoliberal} e o marxismo-leninismo é notável.
O quadro sumário aqui referido é vulgar numa sociedade gerida pelos interesses das grandes fortunas, que gasta quantias astronómicas em marketing. Os exemplos, nas ditas democracias ocidentais, saltam aos olhos de qualquer cidadão mais atento. Atente-se ao Portugal de hoje. Um exemplo paradigmático.
CARTA ABERTA A MANUEL ALEGRE
Faço parte do milhão que o apoiou, mas recuso-me a entrar no “freezer”. Não porque tenha medo do frio, mas porque foi um acto deliberado e de plena liberdade que me fez acreditar que ainda era possível dar calor ao Futuro. Nesse tempo, e tal como hoje, agi de acordo com o ideário que me vincula à tolerância, à solidariedade e acima de tudo à Liberdade que dignifica e valoriza a pessoa humana. E porque era o garante e a voz que sempre e de novo promovia esse ideário acorri e juntamente com tantos outros demos força à sua campanha.
Fomos um milhão. Um milhão a acreditar na palavra da Esperança, da Mudança, do Ser e do Fazer em cada um o Portugal de todos.
Não vencemos, mas ficou-nos a certeza de que aquele era o Homem e que o momento nos juntara.
Hoje, os que nos têm congelado o horizonte da vida pretendem que fiquemos hirtos, monocórdicos, abúlicos como o “freezer” que lhes vai arrefecendo a alma num tóxico seguidismo sectário e interesseiro.
E por isso é tempo de lhe dizer, ao Poeta, ao trovador, ao resistente, ao fundador socialista, ao homem livre, que não abandone a “ Praça da Canção” e que nunca deixe esmorecer a força das palavras que inventou:
“ E tu que do País fizeste a triste cela
tu que te fechas em teu próprio cativeiro
tu saberás que a Pátria não se vende
e em cada peito em cada olhar se acende
este vento este fogo de lutar por ela.
Tu saberás que o vento não se prende.”
E eu, sem “e” ou “senão”, porque não milito em qualquer Partido, porque não integro qualquer Movimento a não ser o da aposta no Portugal que Abril redimiu, declaro-lhe que continuarei renitentemente a transcrever as palavras do Poeta porque elas vêem a alma.
“ É triste: uns vestem-se de Abril outros de trapos
Tu ó estrangeiro é só por fora que nos olhas”.
MJVS
domingo, 8 de março de 2009
CONVERSAS FÚTEIS
Inicia-se nesta nova rubrica uma série de curtos episódios organizados em cenas cuja concatenação é aleatória e que tem a estulta ambição de retratar a Futilidade Nacional.
CENA A
13/03/09
Viviam-se tempos de grande agitação diplomática. A alta hierarquia governativa, ainda na ressaca da visita efectuada pelo Presidente da grande e parceira Nação Africana, reerguida e louvada pela sua ímpar explosão económica, já se alinhava no aeroporto de saída para os trópicos.
Como fora difícil em tão curto espaço de tempo largar um para apanhar outro. Assim pensava o CAP (Comandante Auxiliar do Protocolo) que inseguro da sua bagagem corria entre a grande comitiva que envolvia o Chefe do Governo. A bagagem diplomática tinha atendimento prioritário, pelo que seguramente a sua nova Samsonite chegaria ao destino. Não podia dispersar as energias já que se delineava uma grande actividade protocolar nesta visita que assinalava de uma forma invulgar o 4º aniversário da governação. Ela seria o palco ideal e oportuno para relançamento e promoção das “jóias da coroa”– as novas tecnologias e o Simplex. Dois ícones inconfundíveis, dignos do maior relevo e culto.
Chegaram, num grande jacto pejado de empresários e políticos que, apesar da turbulência, se mantinham erectos e determinados.
Como era agora tudo tão diferente. Os deportados do tempo antigo que, na sombra da noite, partiam apinhados em galeras decrépitas, tinham dado lugar a este séquito de representação nacional, digno de recepção maior naquele amistoso solo insular.
Já os holofotes apontavam a escada movível por onde todos sairiam de acordo com a suprema hierarquia quando a SEC (Secretária da Eminente Corporação) em tom solene e insistente o abordou:
- Não se esqueça de contar e recontar toda a bagagem do Governo. Quanto à minha, deverá dar-lhe prioridade pois sou a responsável pelos eventos tecnológicos.
- Mas, minha senhora, vai ser impossível reconhecer a sua bagagem. Creio que vem toda no bloco diplomático.
- Vai reconhecê-la de imediato porque além de ser cor-de-rosa está apensa às malas azuis Magalhães-byte, a nova linha nacional de malas de viagem.
- Agora entendo o que vi no Aeroporto, em Lisboa. Foi um logro tremendo. Pensei estar a visionar uma réplica do filme “ Olha, aumentei o portátil”.
- Bem, os portáteis Magalhães também vêm e claro dentro delas! Trata-se de mais um novo contributo do nosso significativo, valioso e singular programa Simplex Tecnológico!
MJVS
Cena B
03/03/09
No grande senáculo da Nação, morada da Assembleia da República, prepara-se o início de uma reunião magna parlamentar.
No vestíbulo da entrada, ainda ofegantes pelo exercício matinal que lhes fora exigido para romper as filas intermináveis de tráfego que atolavam pecaminosamente o caminho para tão ilustre destino, chocam duas putativas estreantes tribunas: a graciosa e imponente deputada do Partido da Esquerda Democrática e a frágil e insignificante colega do Partido da Direita Conservadora.
Espantadas com a apresentação que cada uma ostenta, analisam-se e reagem de imediato com a curiosidade adequada:
- Que lhe aconteceu? Nunca a tinha visto de óculos escuros. São muito arrojados e favorecem-na assertivamente.
- Se favorecem, nada posso dizer, mas que me escondem as olheiras da noite mal dormida, tenho a certeza. Foi uma gentil oferta da líder do meu Partido. Ofereceu-mos ontem, na Figueira da Foz, após a realização da Conferência sobre Saúde
- Que sorte! O meu líder ainda nada me ofertou, a não ser o nome do selecto estabelecimento comercial onde se veste. E isso foi uma oferta excepcional da qual tirei proveito imediato.
- Claro que foi. Quem me dera estar tão bem situada no ranking dos elegantes deste Parlamento como está a cara colega.
- Tem toda a razão. Espero ser a seleccionada para as compras de Natal, já que estou mesmo no topo das sondagens.
- Mas vai comprar prendas para toda a Assembleia? Isso é uma afronta aos pobres cidadãos que nos elegeram.
- Não caia nesse logro, colega. Trata-se apenas da compra do presente de Natal para o nosso líder e primeiro entre os primeiros.
- Não conte comigo para isso. Afinal que pensa comprar-lhe de tão exigente que mereça tantas sondagens?
- Espanto-me com a sua falta de visão de futuro por tão óbvia que se torna demasiado evidente a minha selecção. Será um belo sobretudo para condizer com o fato que lhe foi oferecido no último Natal pelos seus Pares.
MJVS
quinta-feira, 5 de março de 2009
O Congresso do Simplex
A ideia era simples e de fácil execução. Pretendia-se realizar um Congresso coeso, pacífico, cordato, forte de imagem e de liderança.
A sala fora arrumada e direccionada para a bancada do já eleito Secretário-Geral e da presidência de tão importante evento. No mesmo palco e logo à esquerda juntavam-se quatro ou cinco dignitários possivelmente de alta patente constituindo todos, em uníssono, o único aglomerado passível de ser visionado e perscrutado. Um fundo luminoso azul emprestava-lhe além do destaque merecido a cor adequada.
Longe e protegido do voyeurismo demagógico, o cenário era simples e feérico. A festa da celebração estava montada!
E foi assim, acantonados “na ré” do Pavilhão que os jornalistas e as cadeias televisivas fizeram a cobertura deste potestativo acontecimento.
Tantas figuras irreconhecíveis, simples silhuetas anónimas de costas voltadas para as câmaras, se postavam pelas sucessivas filas de mesas paralelas ao palco. Nem na celebração religiosa dominical era possível uma visão tão profunda dos dorsos dos fiéis presentes.
Estava tudo programado, predito, organizado conforme as normas eficientes de um marketing criterioso.
E as reacções eram unânimes. As palmas chegavam ruidosas, desligadas de trejeitos, de sorrisos que os rostos escondidos se escusavam de mostrar. A palavra era de César e “a César o que é de César”! Não era tempo para discussão, para aferição, para reflexão, mas sim para o espectáculo, para a ovação, para a entrega rendida, para os prémios merecidos.
Este era, enfim, o verdadeiro tempo real da magna política doutrinária Simplex: o que é simples é fácil e toda a gente aplaude!
MJVS
segunda-feira, 2 de março de 2009
ESTÓRIAS EDIFICANTES
O SENHOR MINISTRO
Por P.P.
De fato de alpaca cinzento-escuro, de corte irrepreensível, assinado por um famoso estilista europeu, o senhor Ministro empurrou as largas portas de vidro do enorme edifício de linhas arrojadas e estilo indefinido, pintado de cor-de-rosa e verde alface, da autoria de um famoso arquitecto.
Acelerou célere o seu passo elástico, na direcção do elevador que mais parecia um autocarro em hora de ponta, apinhado de gente sem um esgar no rosto, vestidos de igual modo cinzentão ou azul a dar para o preto, tal como o chefe, ao mesmo tempo que ia distribuído e retribuído bons-dias corteses à esquerda e à direita, para trás e para a frente, deixando à sua passagem um rasto impregnado de um odor forte, ligeiramente adocicado, a Paco Rabane.
Enquanto o ascensor subia rápido e silenciosamente até ao piso onde se situava o seu gabinete, aproveitou, para ao tacto com a mão direita confirmar da perpendicularidade e alinhamento da sua gravata de sede Pierre Cardin de cor azul cueca, sob uma camisa Givenchy imaculadamente branca – à moda – como a dos empregados de mesa dos restaurantes, de punhos dobrados seguros com botões de cristal, ajeitando com a mão esquerda de encontro a si, a pasta de pele de crocodilo e fechos dourados, para não incomodar uma secretária que se encontrava ao seu lado, de saia e casaco cinzentos, com a lapela direita adornada por um enorme e fulgurante broche aparentando uma rosa estilizada. Sobressaíam do opulento peito arfante da senhora, imensos folhos brancos, tantos, que mais parecia uma couve flor antes de entrar na panela.
Penetrou no seu amplo gabinete climatizado, alcatifado quase até aos artelhos, de paredes revestidas por madeira exótica e amplas vidraças a partir de onde relançou o seu olhar faiscando omnipotência, por cima dos mastodontes de betão das redondezas e até ao horizonte próximo semeado por uma miríade de barracas de tábuas cobertas de chapas de lata, onde vegetavam milhares de potencias votantes, o senhor Ministro recostou-se na poltrona de coiro e debitou de rajada umas quantas cartas para um gravador portátil.
Pelo telefone interno intimou com ar autoritário para a sua secretária lhe trazer café e bolachas. Disputou durante largo tempo, afanosamente, no computador, um jogo de estratégia on-line e deu uma vista de olhos pelos títulos dos periódicos matutinos que a sua subalterna submissa, diligentemente lhe trouxe com o pedido.
Chupou dos dedos o resto do açúcar das bolachas, desfolhou enfastiado uns dossiers com matéria para despacho, que se encontravam pousados numa ponta da secretária, colocando-os na outra ponta da mesa sem mais delongas.
Entrementes, o relógio que se encontrava a decorar a mesa de reuniões fez pi-pi, pi-pi, pi-pi, lembrando-lhe que era meio-dia, hora de almoço.
Pontual e metódico, o senhor Ministro desimpediu parte da secretária de duas folhas A4 em branco e um jornal desportivo datado da véspera, colocou nela a sua mala de pele de crocodilo de onde tirou o único conteúdo desta; um molho de nabos. Sem os descascar, pôs-se tranquilamente a degluti-los incluindo a rama, até entrar na fase da ruminação.
Era graças aos nabos, a essa iguaria em abundância na sociedade em geral e no seu partido em particular, que tragava diariamente, antes até, de ser secretário-geral do seu partido, que havia ascendido ao lugar de Ministro.
OS MAREANTES
Por P.P.
Alcandorado numa alta escarpa que se precipitava sobre as profundezas do oceano, de semblante fechado e olhos semicerrados, sombreados pela aba desabada do chapéu de feltro andaluz, o Infante perscrutava o horizonte marítimo até onde a linha de água se irmanava com o azul do céu.
O rumorejar das vagas que vinham transformar-se em espuma branca, de encontro ao promontório, misturava-se com o assobio sibilino do vento suão.
Já o sol havia mudado de quadrante no relógio de pedra ali por perto, carcomido pelas intempéries, quando ao longe se começaram a divisar velas brancas de uma caravela que de ora em vez se sumia de vista na cava de uma vaga mais alterosa.
Quando a cruz de Cristo se divisou, enfim, o Infante pigarreou, expeliu de um jacto para o chão a gosma e disse com voz aflautada àqueles que o acompanhavam silenciosamente apreensivos desde há um ror de dias: - Quem porfia sempre alcança!. -Obtendo como resposta, um fundo suspiro colectivo de alívio e um acenar de cabeças em sinal de assentimento.
Decorreram ainda quase duas horas até a caravela arribar a porto seguro numa enseada a que chamavam… bem, isso também não interessa para a estória… tendo-se nesse meio tempo procedido aos preparativos de boas vindas dos argonautas.
O sol encontrava-se no ocaso.
Fundeada que foi a âncora, dois escaleres foram baixados onde os marinheiros embarcaram rumo à praia. Gritos de exclamação e de alegria misturavam-se entre os que vinham e os que estavam. A confraternização durou pela noite dentro em redor das fogueiras. Alegraram-se os corações e os corpos com as viandas e o vinho mais umas moçoilas liberais, produto da região.
Para o fim da noite, não podendo mais conter a sua impaciência o Infante interrogou o capitão da nau: - Afinal que novidades me trazeis? – Serão de tal monta desagradáveis, que por tal razão tendes estado estas horas tão ensimesmado? – Ao que o argonauta respondeu estremecendo: - Para lá do Bojador não passámos, meu senhor e se mais longe não fomos em nossa derrota, foi porque entrementes uma tempestade medonha estalou. Mar e céu desfizeram-se sobre nós e do meio da tormenta nos surgiu uma horrenda criatura, disforme no tamanho e de carão sinistro, que trovejou por cima das nossas cabeças dizendo: - Não ouseis avançar neste mar que é meu, porque se o fizerdes rogo-vos como praga que a vossa nação seja para sempre conhecida pelo «Portugal dos pequeninos».
- Esta é a razão porque estamos de volta sem termos ido mais além, meu Infante. – Disse o capitão.
Não obstante este aviso, que acabou por não ser levado a sério pela corte, os portugueses foram mais tarde e durante décadas, muito para além do Cabo Bojador, vindo Portugal a tornar-se com os tempos, «dos pequeninos».
IN ILLO TEMPORE
Por P.P.
Já a noite de manso se avizinhava, quando o cavaleiro encetou a jornada há muito programada como objectivo de crucial importância.
Tocando a montada, meteu a trote lento por um pedregoso caminho densamente arborizado que o cavalo parecia conhecer.
Súbito, chegaram ao sopé da montanha. A partir daí a viagem tornou-se mais difícil. Um escarpado carreiro serpenteava serra acima por meio de silvados.
A noite desceu e a lua subiu cheia, prateada, acompanhada pelo piar lúgubre das aves nocturnas.
As ferraduras faziam chispar faíscas dos seixos, que na andadura rolavam por baixo dos cascos da alimária, à qual, o cavaleiro dava rédea.
O luar transmitia às árvores, aos arbustos que se prendiam na capa do cavaleiro, a tudo, um ar irreal, fantasmagórico de tal ordem, que até as pedras pareciam animadas por vida própria.
Corria uma leve brisa gelada.
Passadas que foram mais de três horas de marcha, cavalo e cavaleiro encontravam-se quase no topo da escalabrada montanha, onde se avistavam as torres pontiagudas de uma fortaleza.
O piar grave de um mocho de olhos esbugalhados, empoleirado num galho de uma árvore seca à beira do caminho, fez com que o cavalo se empinasse assustado. O cavaleiro susteve-o pelas rédeas acalmando-o com palavras breves.
Retomaram a marcha e passando a ponte levadiça da fortaleza, que foi baixada lentamente, transpuseram o fosso circundante, passaram um enorme pátio iluminado pelo luar e estancaram frente ao enorme e bruto portão do casarão principal.
Luzes não se avistavam para lá das portadas fechadas nem som havia que supusesse vivalma.
O cavaleiro berrou: - Ó da casa! – Berro que se prolongou num eco pelas ameias da fortaleza.
Respondendo, o portão começou a abrir-se num vagar rangente dos seus gonzos ferrugentos, numa desgraçada chiadeira.
Segurando a candeia de luz tremeluzente por baixo de um narigão vermelhusco e verrugoso, um corcunda de idade avançada assomou pela frincha do portão e continuando a abri-lo disse: - Boa-noite senhor! Esperam-vos.
Avançando, o cavaleiro desmontou passando as rédeas do equídeo ao porteiro e, passando a entrada, encaminhou-se em direcção a uma ténue luz que se coava através de uma porta entreaberta. Empurrou-a e entrou num amplo salão. A um canto, uma enorme lareira queimava grossos troncos de árvores centenárias. Única luz ambiente. Ao meio, três homens de idade imprecisa, de longas barbas brancas, envergando longas túnicas vermelhas, circundavam, sentados em fortes cadeiras de alto espaldar, uma mesa redonda, sólida e maciça.
À entrada do cavaleiro, que ostentava longas barbas brancas e envergava uma túnica idêntica aos outros três, os mesmos levantaram-se cumprimentando-o sobriamente, com uma ligeira inclinação de cabeça, voltando a sentar-se.
Uma cadeira encontrava-se vaga. Estava-lhe reservada. Sentou-se. Após um curto silêncio, o mais velho dos cavaleiros, aquele que ostentava as mais bastas barbas, tomou a palavra dizendo: - Há séculos que te esperávamos. Finalmente que nos conseguimos reunir, em circulo, num quadrado perfeito. A partir de agora podemos tomar decisões para este terceiro milénio.
AMOR À PORTUGUESA
Por Asdrúbal da Purificação
Regressava da escola a minha casa, que ficava mesmo no coração de Alfama.
Na entrada do beco, um grupo de vizinhas rodeava a Dona Genoveva que morava no 1º andar do número onze. Esta tinha o rosto decorado por uns novos «óculos escuros». Orlavam-lhe os olhos – e não só – enormes manchas negras de sangue pisado. Encimava-lhe os lábios, um bigode à Clark Gable a que lhe eu ouvia chamar buço.
Percebi entre os murmúrios em surdina, palavras que variavam da indignação ao «coitadinha». Eis senão, quando saindo de sua casa assomou-se junto do mulherio o marido, que tinha por «nobre profissão» ser carteirista de dia e fadista à desgarrada, nas noitadas das tascas do bairro e não só. Vinha apinocado de fato preto às ricas brancas, de sapatos de verniz a condizer e peúgas brancas, gravata vermelhusca e cocuruto aplainado com brilhantina, ou gel, como agora se diz.
Uma das vizinhas mais afoita, a Dona Georgina, varina com banca na rua de S. Pedro, perguntou-lhe: - Oiça lá ó seu Raimundo, que raio é que aconteceu a sua mulher que coitadita até parece que foi escoicinhada por um burro?.
- O Raimundo, esboçando uns esgares condoídos respondeu-lhe perante o silêncio do mulherio e as fungadelas da consorte: - Sabe Ti Georgina, foi um azar do camandro o que aconteceu à minha esposa! Foi isso mesmo. Ontem, mal entrei em casa, a minha Genoveva louca de alegria de me ver – sim, que ela só tem olhos para mim – veio pelo corredor fora desde a cozinha de braços abertos para me abraçar, mostrando a cremalheira de risonha que estava. Acontece que tropeçou numa tábua solta do sobrado e zás… caiu com a cara nas minhas mãos. Foi mesmo um azar do caraças!
O VOO
Por P.P.
Num golpe de asa, inflectiu para a direita e encetou um voo picado em grande velocidade.
No percurso para o objectivo, a deslocação do ar provocava um assobio imperceptível em toda a sua estrutura. Quase no limite da aproximação do local de aterragem, «travou» a descida e curvou para a direita em voo rasante, lento, oscilando as asas graciosamente.
A área que sobrevoava era extremamente irregular; ora lisa, ora cortada por profundos canais, ora montanhosa e coberta por vastas extensões de floresta banca e negra, impenetrável.
Nisto, a enorme mancha sobre a qual voltejava, pareceu deslocar-se, aparentando assustar a nave, porque esta, mudou rapidamente de rumo, ascendendo velozmente aos céus.
No espaço, como uma estação orbital, esperava-a oportuna uma pista de aterragem feericamente iluminada como se fosse um arraial popular.
Aproveitou a escala estratégica para lavar os seus radares, o trem de aterragem e alijar carga que de repente se tinha tornado desagradável e incomodativa.
Após aquela - que entendeu - merecida pausa, levantou de novo voo, rumo à sua enigmática e insondável missão.
De novo, em breve tempo se encontrou de regresso à última área por onde havia pouco tempo antes voltejado.
Evoluiu em acrobacias, uma, duas, várias vezes por cima da mesma superfície - afinal - oscilante, quase redonda, recoberta de matagal.
Voou distanciando-se dela, na procura de um ponto de observação estratégico do seu alvo. Na procura de uma pista fixa, conseguiu divisar uma imensa clareira branca no sopé da enorme montanha coberta da tal vegetação. Lesta, dirigiu-se rapidamente para lá, conseguindo a proeza de uma aterragem quase perfeita.
Eis senão quando, o exterminador, o mata-moscas se abateu sobre ela.
A velha mosca varejeira finava-se assim, ingloriamente, depois de durante muitos meses ter infernizado a vida de centenas de milhar de pessoas envolvidas na reforma da educaçãozinha.
domingo, 1 de março de 2009
DA CRISE
Portugal está cada vez mais um país de nuvens negras salpicado por um céu azul. Apesar deste Inverno ter sido rigoroso, com dias consecutivos de neblina e grande pluviosidade, o céu emergiu de quando em vez em azul tímido, pálido e envergonhado sem a luminosidade do Sul. É da crise.
Diz-se e rediz-se que a confiança dos portugueses atingiu o ponto mais baixo dos últimos anos. A maioria das famílias vê com apreensão senão já o presente, o futuro ameaçado pela falta de recursos. As dificuldades financeiras amordaçam o sorriso e moldam a inevitabilidade da miséria. É da crise .
Os bancos esconderam os ainda recentes lucros inimagináveis e num ápice apresentam rupturas de triliões (cifras quase impronunciáveis) às quais céleres e prestativos os governantes acorrem com paliativos oportunos que os portugueses irão pagar. É da crise.
As multinacionais, empresas semeadoras de muito emprego barato, reduzem os postos de trabalho, despedem, encurtam o horário de laboração, impõem o ”lay off” e fecham portas “na calada da noite”. É da crise.
Os quadros, os trabalhadores anónimos, os casais que labutam na mesma fábrica, o homem ou a mulher que carrega horas de trabalho ininterrupto na intempérie do campo, no calor abrasador da caldeira, na agrura da rua que chegam ao fim do mês sem salário, com contratos falsos, assediados por mil venenos e que se obrigam a voltar na esperança de reaver o que lhes foi sonegado. É da crise.
Os pobres que “reempobrecem”, os mendigos que mendigam, os sem-abrigo que enchem as ruas e aumentam todos os dias, a nova míngua escondida no vão de escada que mal sobrevive com o rendimento social. É da crise.
A palavra proibida que se cala, o medo da delação que persegue, o grito que se prende perante o assédio, a vénia da imposição que se aceita, o pavor dos dias incertos que se propaga. É da crise.
Os segredos que se escondem nos rostos risonhos dos governantes que levam os deputados a sancionar em Assembleia Parlamentar medidas tão contrárias aos anseios dos seus eleitores. É da crise.
E os congressos dos Partidos Políticos com gigantesca promoção mediática que prometem definições de linhas programáticas fortemente apostadas na defesa do bem comum e da democracia partilhada, mas que jamais são promulgadas. É da crise.
Será que o devir deste país que se enferma endémica e sistematicamente é o anátema da crise?
MJVS
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